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1 de Setembro de 1987 - 23 anos de uma tragédia anunciada.

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Em 1972, o INSTITUTO GOIANO DE RADIOTERAPIA - IGR, então com sede na Avenida Paranaíba, nº 1.587, Setor Central, nesta Capital, devidamente autorizado pela COMISSÃO NACIONAL DE ENERGIA NUCLEAR, ESTADO DE GOIÁS - CNEN, adquiriu em São Paulo-SP uma bomba de Césio 137, de fabricação italiana, a fim de utilizá-la na prestação de serviços radiológicos. O terreno em que funcionava o IGR era pertencente à Santa Casa de Misericórdia, que o vendeu ao INSTITUTO DE PREVIDÊNCIA E ASSISTÊNCIA SOCIAL DO ESTADO DE GOIÁS - IPASGO. Então, pressionado a deixar o aludido local, o IGR transferiu sua sede a outro endereço, terminando por abandonar no antigo prédio a já obsoleta bomba de Césio 137, sem ao menos comunicar o fato à CNEN ou à Secretaria Estadual de Saúde. 

Em 04/05/87, iniciou-se a demolição da construção, a mando do ex-sócio do IGR, AMAURILLO MONTEIRO DE OLIVEIRA, culminando com a destruição quase total do prédio original, que o deixou sem telhado, portas ou janelas, a despeito da existência no local, sem quaisquer avisos ou advertências, da mencionada bomba de Césio 137. 












Fonte: http://jus2.uol.com.br/pecas/texto.asp?id=292
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O Programa Nuclear Paralelo

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O ex-presidente José Sarney e alguns antigos colaboradores do governo confirmaram que nas décadas de 70 e 80 militares e funcionários públicos federais das áreas energéticas e de Informação trabalharam sigilosamente para produzir uma bomba atômica brasileira

Essas confissões deram um selo oficial a informações já conhecidas sobre o famigerado PROGRAMA NUCLEAR PARALELO, sustentado por recursos depositados em contas secretas e responsável por pesquisas e testes para fins bélicos.

O que ainda não se tornou público é o fato de o grupo que tramou a inclusão do Brasil na corrida nuclear não estar tão afastado do poder como era de esperar. Rex Nazaré Alves, que ficou conhecido como “o pai da bomba atômica brasileira”, é consultor do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República e foi escalado pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva para ser o representante da sociedade no mais importante colegiado da política nuclear brasileira, no qual são definidos programas, normas e concessões para instalações nucleares no país.

Nazaré Alves tem uma longa trajetória na área nuclear. Em 1969, depois de fazer um curso de doutorado na França, se tornou chefe do Laboratório de Dosimetria da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen). Sua ascensão continuou durante o regime militar. Foi nomeado diretor executivo da Área de Segurança Nuclear da Cnen em 1975, e sete anos depois se tornou presidente do órgão.

Abin
O regime militar caiu, mas ele permaneceu no cargo durante todo o governo Sarney (1985-1990), só sendo substituído quando Fernando Collor de Mello (1990-1992) chegou ao poder. No final do governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), virou diretor do Departamento de Tecnologia da Abin. Ocupou o cargo até junho de 2003, já no governo Lula, quando passou a assessor especial da direção-geral da Abin, de onde mais tarde sairia para virar consultor do GSI. Uma portaria de 10 de julho de 2003 nomeou Nazaré Alves para a Comissão Deliberativa da Cnen. “Ele é um patriota, um profissional de qualidade, pesquisador dedicado”, diz Roberto Amaral, então ministro da Ciência e Tecnologia, que assinou a portaria.
A Cnen é o órgão responsável pela fiscalização e produção nuclear no país. A Comissão Deliberativa tem o poder de aprovar ou rejeitar decisões da Cnen e cuida dos investimentos do Fundo Nacional de Energia Nuclear. O colegiado é composto por cinco membros, dos quais quatro são da própria Cnen e um pode ser de for a, o que dá a essa vaga a característica que dentro da área nuclear é definida como de representante da sociedade. É uma função importante, já que é o único olhar externo à Cnen. Na reunião do dia 17 de dezembro de 2004, por exemplo, coube à Comissão Deliberativa analisar cinco licenças referentes ao enriquecimento de urânio na unidade da Indústrias Nucleares do Brasil (INB) em Resende (RJ). Testes sigilosos para enriquecer urânio foram usados pelo Programa Nuclear Paralelo.
Na mesma reunião, foi discutida a decisão da presidência da Cnen de prorrogar a licença para funcionamento da mina de extração de urânio de Caetité, no sertão baiano. A decisão havia contrariado um laudo de fiscais da Cnen. Eles recomendaram o fechamento da instalação por não haver garantias de que o lençol freático da região não esteja sendo contaminado pelo trabalho na mina. Mesmo assim, a Comissão Deliberativa endossou a decisão da Cnen.
Na entrevista que deu ao programa Fantástico, da Rede Globo, Sarney contou que ao assumir o governo descobriu que havia instalações nucleares na serra do Cachimbo, no oeste do Pará. O ex-presidente afirmou que o assunto era “segredo de Estado”, e por isso não podia ser divulgado. Também em entrevista ao programa, José Luiz Santana, que substituiu Nazaré Alves na presidência da Cnen, afirmou que mais de 50 equipes chegaram a ser mobilizadas para fazer a bomba, artefato que teria potência equivalente às ogivas nucleares lançadas pelos Estados Unidos no Japão.
Só em 1990 foi fechado um túnel construído clandestinamente para a realização de testes nucleares na serra do Cachimbo, no oeste do Pará André Dusek/AE/4.10.90
Enquanto tentava desarticular o esquema armado para construir a bomba, nos primeiros seis meses do governo Collor, Santana sofreu três atentados. Em duas ocasiões seus inimigos mexeram em peças de seu automóvel para provocar um acidente, e em outra atiraram contra ele.
O Programa Nuclear Paralelo começou a se tornar público em 1986, quando uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo revelou a existência de cisternas e covas na serra do Cachimbo, uma delas com 320 metros de profundidade, para a realização de testes nucleares. Nas investigações do Ministério Público e do Congresso que se seguiram à denúncia, descobriu-se a existência de contas bancárias secretas que eram conhecidas dentro do Programa Nuclear Paralelo pelo nome de Delta. Rex Nazaré Alves, na época no meio de sua gestão na presidência da Cnen, foi apontado como um dos responsáveis pelas movimentações dessas contas.
Kombis com documentos
Ele foi ainda acusado de retirar sete Kombis cheias de documentos da Cnen, que poderiam detalhar o processo de construção da bomba e nunca mais foram encontrados. José Goldemberg, ex-ministro de Collor e atual secretário de Meio Ambiente do estado de São Paulo, disse em entrevista ao jornal New York Times que Rex Nazaré Alves era um dos dois principais responsáveis pelo programa secreto.
O ex-ministro Roberto Amaral diz que ao nomear Rex Nazaré Alves para a Comissão Deliberativa desconhecia o envolvimento do escolhido com as contas secretas. “Só estou sabendo disso agora”, afirmou Amaral na última segunda-feira. Alves, que também é professor do Instituto Militar de Engenharia, no Rio de Janeiro, não quer falar sobre o Programa Nuclear Paralelo nem sobre as acusações de ligação com contas secretas e roubo de documentos. “Aquilo que eu tinha que fazer, eu fiz na época em que tinha funções na Cnen”, afirma. “Havia assuntos sigilosos, e há uma lei que protege esse tipo de assunto.”

Comissão mantém conflito de interesses
Durante a gestão de Rex Nazaré Alves como presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear, foi enterrado o documento que ficou conhecido como Relatório Vargas. Nele, um grupo de especialistas convocados pelo governo federal para sugerir mudanças na política nuclear defendia que a Cnen deixasse de acumular as funções de produção e fiscalização no setor, que são conflitantes. Apesar de exigida pela Agência Internacional de Energia Atômica e por convenções internacionais das quais o Brasil é signatário, a separação que Alves ajudou a impedir não ocorreu até hoje.

A comissão criada pelo então presidente José Sarney era composta por empresários, engenheiros, economistas e outros acadêmicos. O coordenador era o cientista José Israel Vargas, que depois seria ministro dos presidentes Itamar Franco (1992-1995) e de Fernando Henrique. O relatório foi entregue a Sarney em abril de 1986. Além de não seguir a recomendação de dividir a Cnen, Sarney resolveu vinculá-la à então Casa Militar da Presidência da República. Ao se opor à idéia da comissão, Nazaré Alves argumentava que a divisão da Cnen iria gerar desperdício de esforços e recursos. Uma década depois, no governo de Fernando Henrique Cardoso, a separação voltou a ser proposta e voltou a ser barrada. A equipe montada pelo PT para fazer a transição antes da posse de Lula também discutiu o tema, mas até hoje a Cnen resiste indivisível.

O órgão é subordinado ao Ministério da Ciência e Tecnologia e cuida de instalações que vão desde aparelhos de clínicas de tratamento de câncer até as usinas de Angra 1 e Angra 2. A relação entre as funções produtivas e fiscalizatórias é tão forte que a Cnen é oficialmente proprietária da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que faz a exploração de urânio em Caetité, produz pastilhas de combustível para as duas usinas nucleares e está começando o processo de enriquecimento de urânio em Resende (RJ). O presidente da Cnen é também presidente do conselho de administração da INB. Na teoria, a Cnen fiscaliza uma empresa subordinada a ela. Na prática, a situação ainda é mais grave, porque a INB, com orçamento próprio e maior poder econômico, tem força de influenciar nas decisões da Cnen.
O presidente da Cnen, Odair Dias Gonçalves, que integrou o grupo responsável pela transição para o atual governo, diz que há um consenso hoje sobre a necessidade de separar as áreas de fiscalização e controle da parte de produção nuclear. Só acha que não há pressa. “Existe um risco de separar tudo de maneira intempestiva”, afirma. O adjetivo soa estranho para uma discussão que se arrasta por 20 anos. O deputado Edson Duarte (PV-BA), que coordena na Câmara uma equipe responsável por propor mudanças na política nuclear, discorda de Gonçalves e prepara um projeto de lei para separar as funções da Cnen. “A área nuclear concentra atividades nas quais não pode haver erro”, afirma. “Não é ético a Cnen se autofiscalizar.”

Fiscalização
Outro problema grave que se arrasta há décadas na Cnen é a falta de poder efetivo de coerção dos fiscais do órgão. No Ministério da Agricultura, se um fiscal acha um abatedouro sem condições de higiene, pode mandar fechar na hora e impedir que a carne podre continue saindo dali para os consumidores. No caso da Cnen, além de fiscalizar o equivalente a abatedouros próprios, os fiscais não podem mandar fechar uma instalação nuclear. Se limitam a fazer relatórios que podem ou não ser seguidos pela presidência da instituição. “A área nuclear é um sistema complexo e achamos que a autonomia de controle deve ser compartilhada”, justifica Odair Gonçalves.
O que ele chama de compartilhamento tem feito a direção da Cnen desrespeitar avaliações técnicas de seus especialistas. O caso da mina de Caetité, que os técnicos queriam fechar e a presidência da Cnen manteve aberta, não foi o primeiro. À revelia de seus fiscais, por exemplo, a Cnen autorizou a produção de pastilhas de urânio em Resende sem avaliar o risco de reação em cadeia do minério. Um risco mal avaliado pode produzir uma explosão. Nos últimos anos, a Associação dos Fiscais da Cnen, que reúne engenheiros, biólogos, físicos e outros especialistas, entregou a autoridades do governo, incluindo os presidentes Fernando Henrique e Lula, relatórios alertando para o perigo que representam à sociedade os problemas estruturais da Cnen. A entidade também preparou o esboço de um projeto de lei criando o Sistema Federal de Fiscalização, que daria poder coercitivo aos técnicos. “Resta saber até que ponto os interesses ditos como de soberania e defesa nacionais continuarão se sobrepondo aos da segurança da população”, diz o físico Rogério Gomes, presidente da associação.

Fonte: Solano Nascimento da equipe do Correio Braziliense, 20 Setembro 2005
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Amianto e lixo radioativo são discutidos durante Audiência Pública

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A Câmara Municipal realizou, no último dia 26, uma Audiência Pública para discussão de dois assuntos: a utilização do amianto e o armazenamento de lixo radioativo no Planalto de Poços de Caldas. A proposta para realização do debate partiu da Comissão de Justiça Legislação e Redação Final, presidida pela vereadora Regina Cioffi (PPS). Participaram do evento profissionais das mais diversas áreas, como membros do Ministério do Trabalho, físicos, médicos, especialistas em radiologia, pesquisadores, empresários e dirigentes da INB.

Na primeira fase dos trabalhos foram discutidas questões relacionadas ao uso do amianto. Em seu pronunciamento, a vereadora Regina esclareceu que o motivo da discussão era possibilitar que várias opiniões sobre o assunto fossem expostas a fim de subsidiar as decisões das Comissões da Câmara ao analisar o Projeto de lei, em tramitação, sobre a proibição do amianto no município.

A engenheira técnica do Ministério do Trabalho de São Paulo, Dra. Fernanda Giannasi, apresentou dados colhidos durante sua atuação nesta área, afirmando que não existem níveis aceitáveis de amianto para o ser humano e que esta substância é comprovadamente cancerígena. Em seguida, manifestou-se o Dr. Milton do Nascimento, médico do trabalho e gerente de Saúde Ocupacional da Sama Minerações Associadas S.A. Ele afirmou que a maneira de produção adotada atualmente no Brasil é modelo para o mundo e que, desta forma, não existe riscos significativos para o trabalhador do amianto. Ele disse, ainda, que esta substância pode estar presente naturalmente em águas de lagos, pois trata-se de uma rocha presente na natureza.

Os inscritos para uso da palavra também se manifestaram. Dentre eles estavam sindicalistas e presidentes de associações de trabalhadores, que apresentaram manifestações tanto a favor quanto contra a utilização do amianto.


Lixo radioativo


Após as manifestações sobre o tema amianto, os debates giraram em torno do assunto lixo radioativo. Em primeiro lugar, manifestou-se o Dr. Walter dos Reis Pedreira Filho, pesquisador da FUNDACENTRO - Ministério do Trabalho e Emprego. Ele falou de projetos desenvolvidos pelo órgão relativos a pesquisas sobre a exposição de trabalhadores à radiação ionizante e ultravioleta. Também abordou as normas de segurança existentes e o direito do trabalhador de saber sobre o que ele está manipulando e sobre a necessidade de monitoramento constante dos trabalhadores para se prevenir problemas de saúde. Em seguida, se manifestou o Dr. Otto Bittencourt, diretor de Recursos Minerais da INB – Unidade Poços de Caldas, que comentou sobre os profissionais presentes de todas as áreas existente na empresa e que não se conhece nenhum caso de doença associada à exposição do urânio, uma vez que o trabalho de monitoramento é constante na área da empresa.

No entanto, o maior questionamento dos vereadores se referiu ao depósito de rejeitos radioativos no Planalto de Poços de Caldas e as conseqüências, a longo prazo, da radioatividade desses materiais, muitos dos quais vieram de fora do município para serem estocados aqui de maneira irregular, conforme inúmeras denúncias que vêm sendo feitas ao longo dos anos e insistentes manifestações do Ministério Público. Questionaram, ainda, o recente problema ocorrido em um dos lagos de contensão que se encontra na área da INB e que vazou gerando contaminação das águas.

A vereadora Regina Cioffi lamentou o posicionamento da INB, uma vez que os representantes da empresa não apresentaram dados completos sobre a estocagem de material radioativo. “A Audiência foi muito produtiva, entretanto quero lamentar a indiferença que a INB tratou a Câmara e consequentemente a população de Poços de Caldas. Sabemos dos problemas com o lixo radioativo e, durante os debates, eles quiseram passar informações de que está tudo bem e que não existem problemas com relação a esse assunto”, afirmou a parlamentar.

Após as discussões, uma das propostas apresentadas pela engenheira Fernanda Giannasi foi que os órgãos de saúde realizem estudos epidemiológicos mais amplos sobre os efeitos da radiação e os índices de adoecimento dos moradores da região de Poços de Caldas, pesquisando-se pelo menos trinta anos passados e dando continuidade através de acompanhamento futuro.

O áudio completo da Audiência Pública encontra-se no site www.camarapocos.mg.gov.br. Mais informações podem ser obtidas pelos telefones 3729-3845/3818. 
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Reflexões sobre a estratégia do lobby nuclear

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Acho que seria oportuno analisar alguns aspectos da ação da indústria nuclear nos últimos tempos (principalmente dentro do Governo Lula) e suscitar uma reflexão sobre o quanto essa estratégia não é recorrente dentro do setor elétrico como um todo.

-> Fatos consumados: a indústria nuclear está muito empenhada em aprovar o pacote do Governo Lula para o setor o quanto antes e em tornar irreversível o máximo de projetos nele contidos.

-> Tudo ao mesmo tempo e agora: rapidez na tramitação das propostas e um número muito grande de ‘frentes de batalha’ abertas simultaneamente obrigam os opositores a se dividirem (em número de militantes, recursos financeiros e tempo) para conseguirem acompanhar o ritmo e a dispersão das ações ofensivas da indústria.

-> ‘Investimento’ na formação de uma nova opinião pública: a conquista de setores importantes da sociedade, promovendo a visita de universitários, jornalistas e parlamentares (vindos de várias partes do país e com todas as despesas pagas) às dependências da indústria.

-> Aproximação com a comunidade científica: ajudar a academia a superar a eterna barreira das parcas verbas de pesquisa, contratando seus pesquisadores, encomendando seus serviços, colaborando na melhoria de seus laboratórios e gabinetes e garantindo que tenha uma visão mais generosa de seus mecenas.

-> Responsabilidade social: satisfação de aspirações e necessidades de comunidades carentes (e, às vezes, não tão carentes) existentes nas proximidades dos empreendimentos propostos, antecipando-se ao surgimento de opositores.

-> Progresso e desenvolvimento: a oferta de vantagens como empregos (de todos os tipos: qualificados ou não, bem remunerados ou nem tanto, temporários ou permanentes, em empresas terceirizadas ou em cargos de confiança do serviço público), de benfeitorias (que rendam ganhos eleitorais para os políticos locais) e, mais modernamente, de royalties sobre aquilo que for produzido.

-> Revisão daquilo que ignoramos: eliminação ‘a posteriori’ dos entraves legais à realização de projetos concebidos e propostos em desacordo com a legislação vigente; esta prática tem sido muito usual e é conhecida popularmente como ‘levar no peito’.

-> Uma mão lava a outra: uma empresa estatal detentora de péssima imagem pública ‘compra’ espaços publicitários em um respeitado jornal de circulação nacional, colaborando para o equilíbrio financeiro daquele veículo, mas garantindo que esse órgão de imprensa passe a ter a ‘visão certa’ de temas ou projetos de seu interesse.

-> Cozinha: uma variação da prática acima: uma empresa estatal de irresponsável conduta pública produz internamente reportagens que lhe são muito favoráveis e faz parecer que estas foram realizadas de maneira independente pelo jornal que as publicou.

-> Fritar o peixe olhando o gato: uma sofisticação da prática anterior, um grandessíssimo banco público ou uma empresa petrolífera estatal muito falada ‘compra’ enormes espaços publicitários em um respeitado jornal de circulação nacional, colaborando para sobrevivência financeira daquele veículo, mas, em troca exige que outro jornal ou revista do mesmo grupo econômico passe a ter a ‘visão certa’ de temas ou projetos de interesse do governo.

Para finalizar, um exemplo da comunicação da indústria nuclear com as crianças e adolescentes das comunidades afetadas por seus projetos. Essa cartilha tem sido largamente distribuída nas escolas públicas de diferentes pontos do país.

Fonte: Este relatório foi escrito pelo ambientalista Sérgio Dialetachi e reflete as suas observações do workshop “Energia Nuclear no Nordeste” e as suas opiniões pessoais sobre os planos de construção de novas usinas nucleares no Brasil.
Sérgio Dialetachi participou do evento em Recife a convite da Fundação Heinrich Boell.

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África, depósito de lixo nuclear

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Por Vladislav Marjanovic, Radio Afrika International

A África não consegue alçar um vôo econômico genuíno. Crises políticas internas, muitas vezes provocadas por países estrangeiros, e as dívidas elevadas são os dois grilhões que prendem a África à sua pobreza. A África está totalmente entregue aos novos donos do mundo e dependente deles, assim como esteve, outrora, sob o jugo dos colonizadores. Poderíamos dizer que a África sempre esteve colonizada.

A diferença entre os antigos colonizadores e os atuais, é que os primeiros inseriam, nas colônias, o mínimo de infra-estrutura e os últimos, não dão a menor importância. O interesse dos novos colonizadores se concentra na exploração de matérias-primas e nos negócios que rendem cada vez mais em espaços de tempos cada vez mais curtos. A exportação de lixo nuclear faz parte desses “negócios”, e é justamente esse problema que vamos abordar.

Foi como um trovão num céu tranqüilo. Menos de duas semanas após começar a vigorar o protocolo de Kyoto e poucos dias antes da Jornada Mundial da Proteção Civil, a PNUE, Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, publicou seu relatório sobre as conseqüências do tsunami (26 de dezembro de 2004). Cerca de 100 ministros do meio ambiente reunidos em Nairobi, entre 21 e 25 de fevereiro de 2005 para o 23º encontro do Comitê diretor do fórum mundial de ministros do meio ambiente, deixaram boquiaberto o presidente do comitê, Klaus Topfer, com a notícia de que o tsunami havia lançado nas costas da Somália não somente lixo “normal”, mas também lixo nuclear. Nas regiões atingidas pelo tsunami, um grande número de pessoas teve problemas de saúde pouco comuns. Segundo o relatório da PNUE, houve infecções respiratórias agudas, hemorragias estomacais, reações cutâneas atípicas e até morte súbita.

Para muitos participantes as informações fornecidas pelo relatório da PNUE foram chocantes. Não para a PNUE. Na página 134 do relatório, cujo título é Primeiras avaliações ambientais pós-tsunami, lê-se que a Somália é um dos países subdesenvolvidos que recebem, desde os anos 80, inúmeras cargas de lixo nuclear e outros resíduos nocivos acumulados ao longo da costa do país. Encontram-se entre os resíduos substâncias como urânio, cádmio, chumbo e mercúrio. Evidente que os culpados foram severamente repreendidos, porem não foram devidamente citados. Houve violação dos acordos internacionais sobre a exportação de tais dejetos para a Somália, e parecia pouco ético firmar acordos desse tipo com um país às voltas com uma guerra civil.

A revolta da PNUE parece justa. Mas fica a pergunta: se tais fatos ocorrem desde os anos 80, por que a PNUE não tomou medidas enérgicas para os impedir? Como é possível que a PNUE ignore isso durante 25 anos? É impossível discutir com os dirigentes em Nairobi, é sempre a mesma coisa: “não sabemos nada sobre isso, tomaremos providências futuramente”, dizem as autoridades somalianas do distrito de El Dehere. De acordo com o jornalista italiano, Massimo Alberizzi, tanto a ONU quanto a União Européia, receberam inúmeras queixas relativas aos efeitos sobre o homem e o meio ambiente dos dejetos nucleares e tóxicos na Somália. Não fizeram nada até o momento.

Ainda que não se importem com as queixas dos estados africanos, como explicar a vista grossa que fazem quanto às enormes somas oferecidas pelos países desenvolvidos aos países pobres da África para obtenção de depósito para o lixo nuclear, sobretudo a partir da década de 80? Os países preferidos são: Somália, Guiné-Bissau, Nigéria e Namíbia. Foi necessário esperar até 1988 , quando o escândalo do navio sírio, Zenobia, que passou meses procurando um porto para descarregar cerca de 20.000 toneladas de lixo nuclear, para que a ONU se desse conta da situação . Em 1989, a ONU tomou a iniciativa de criar a Convenção da Basiléia para controlar o transporte de lixo nuclear. Os ecologistas protestaram. Para eles, controlar o transporte de lixo nuclear não significa impedir sua descarga em países do terceiro mundo. O controle foi garantido só em 1995, quando à Convenção juntou-se a proibição aos membros da OCDE de exportar lixo nuclear para os países não membros da organização. Esse acréscimo desagradou aos EUA. Washington recusou-se a assinar o artigo suplementar.

Os outros produtores de lixo nuclear acabaram por encontrar meios para contornar a Convenção. A ODM, de Lugano, chegou a publicar uma lista na Internet com os melhores lugares para despejar lixo tóxico. A Somália encabeça a lista. O diretor da ODM, Giorgio Comerio, teria oferecido um milhão de dólares a um certo Ali Mali, a fim de despejar lixo tóxico no nordeste da Somália. Dois jornalistas italianos, Ilaria Alpi e Miran Hrovatin, foram atrás de mais informações para esclarecer tais transações. Em 18 de março de 1994, foram à cidade somaliana de Bosasso e entrevistaram um funcionário local e, no dia 20 de março do mesmo ano, apenas algumas horas após terem apresentado, por telefone, os resultados de suas pesquisas na RAI (Radio Audizioni Italia), foram assassinados numa rua de Mogadíscio por um grupo de matadores.

Para Massimo Alborizi, do Corriere della Sera, não há dúvida: o “comércio” de lixo nuclear e de outros resíduos perigosos na Somália está nas mãos do crime organizado. Mas parece haver interesses maiores envolvidos. Massimo Scalia, presidente de uma comissão de investigação do parlamento italiano, declarou à Agence Inter Press Service, que a Itália lucra anualmente com o negócio do lixo nuclear 7 bilhões de dólares. Em 2001, foram enviadas 600.000 toneladas de lixo nuclear para a África. Dessa vez, a Somália não foi o único destino. Foram incluídos no itinerário: Zaire, Malawi, Eritréia, Algéria e Moçambique. Diante de tal quantidade de despejos de lixo nuclear, a PNUE procurou agir. Moustapha Tolba, então diretor executivo da PNUE, já em setembro de 1992, pediu, junto aos governos italiano e suíço, o fim do transporte de lixo nuclear. A Suíça reagiu educadamente: disse que estudaria o pedido. A Itália rechaçou prontamente as acusações. O então ministro italiano do meio ambiente, Carlo Ripa di Meana, disse que empresas italianas não faziam parte desse “comércio”. Ficou por isso mesmo. E o negócio do lixo nuclear segue em grande estilo. Segundo informações, oriundas da Somália, o depósito de lixo radioativo, perto de Obbia, não é vigiado pelas milícias somalianas, mas por soldados estrangeiros. De acordo com fonte confidencial, a França e os EUA obtiveram, ainda nos anos 80, permissão para construir um depósito de lixo nuclear na região. Inclusive o general Morgan, em operação no sul da Somália, afirma ter recebido, em Nairobi, a visita de vários representantes de potências estrangeiras querendo permissão, mediante pagamento (que o general diz ter recusado), para despejar lixo nuclear na região.

A Itália rechaçou prontamente as acusações. O então ministro italiano do meio ambiente, Carlo Ripa di Meana, disse que empresas italianas não faziam parte desse “comércio”. Ficou por isso mesmo. E o negócio do lixo nuclear segue em grande estilo. Segundo informações, oriundas da Somália, o depósito de lixo radioativo, perto de Ortes Obbia, não é vigiado pelas milícias somalianas, mas por soldados estrangeiros. De acordo com fonte confidencial, a França e os EUA obtiveram, ainda nos anos 80, permissão para construir um depósito de lixo nuclear na região. Inclusive o general Morgan, em operação no sul da Somália, afirma ter recebido, em Nairobi, a visita de vários representantes de potências estrangeiras querendo permissão, mediante pagamento (que o general diz ter recusado), para despejar lixo nuclear na região.

Mas os representantes do lobby do lixo nuclear seguirão pressionando. Alguns afirmam que são estes que impedem os acordos de paz entre as facções envolvidas na guerra civil da Somália. Também o PNUE está sob pressão. Johannes e Germana Dohnany, afirmam, em livro publicado em 2002, Negócios sujos e guerra santa. Al-Qaida na Europa (Schmutzige Geschäfte und heiliger Krieg. Al-Qaida in Europa), que a PNUE não pode depender do dinheiro que recebem, a cada dois anos, dos países membros. Seria, dizem os autores, arriscado para a PNUE ir contra os países desenvolvidos, que são seus patrocinadores. É uma situação inelutável. Mas o fato é que a PNUE não mudou sua posição em relação ao depósito ilegal de dejetos radioativos na Somália, exceto num ponto: colocou-se maior ênfase nos riscos sofridos pelo homem e pelo meio ambiente por conta do despejo inconseqüente de lixo nuclear. De fato, o relatório do PNUE examina detalhadamente os vários impactos sobre os manguezais, recifes de corais, efeitos sobre a pesca e lençóis freáticos produzidos por dejetos nucleares que ficaram à deriva ao longo da costa do país.

Os danos causados às pessoas – algumas inclusive já morreram – são laconicamente aludidos. Os autores do relatório queixam-se de não ter sido possível fazer pesquisas no local, queixa que serviu de justificativa para a conclusão neutra do relatório que se ocupa, exclusivamente, dos danos ao meio ambiente e as conseqüências do aquecimento global para a diversidade natural da Somália. A questão do futuro das vítimas humanas dessa atividade comercial inescrupulosa não é abordada pelo relatório do PNUE.

Não nos parece possível condenar os donos do poder, que não tem qualquer escrúpulo em sacrificar vidas humanas, e estão transformando um país todo (logo o continente) em depósito de lixo radioativo.

Mas o que fazer quando o depósito de resíduos tóxicos custa 250 dólares por tonelada na Europa, e apenas 2,5 dólares na África? É o que se conclui do relatório do PNUE. A AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) não publica quaisquer dados relativos à quantidade de dejetos produzidos nas 430 centrais energéticas em atividade. É compreensível: o capital privado, que exerce controle sobre as organizações internacionais, dita as leis. E entre essas leis, a lei do silêncio.

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