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ABADIA DE GOIÁS IV - CONTROLE AMBIENTAL E INSTITUCIONAL

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O Depósito Definitivo está sob o controle institucional da CNEN com um complexo de prédios que compõem o local denominado como Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro Oeste (CRCN-CO/CNEN). Juntamente com o Depósito Definitivo foram inaugurados alguns prédios que compõem a estrutura logística e experimental, como: Centro de Informações, Centro de Estudos e Formação em Radioecologia e o Laboratório de Radioecologia, que realiza estudos científicos de amostras retiradas do meio ambiente.


Como medida compensatória, elaborou-se um projeto para transformar a área em uma Área de Preservação Ambiental (APA). Por determinação do IBAMA, para a devida aprovação do projeto, houve uma recomposição florística no local. A um ano da inauguração do Depósito Definitivo, o Parque Estadual de Abadia de Goiás foi licenciado e hoje está sob a gerência do Departamento de Áreas Protegidas da Agência Ambiental do Estado de Goiás.


O depósito final localiza-se a uma distância média em linha reta de cerca de 1 km do centro da cidade de Abadia de Goiás. O terreno pertence ao Estado de Goiás e é administrado pela Agência Ambiental do Estado de Goiás. A área transformou-se em ‘Área de Proteção Ambiental’ denominada de Parque Estadual Telma Ortegal. “Este projeto foi realizado para integrar uma solução para o dano ambiental referente ao depósito final” (GOIÁS, 1994, p. 42).


Os depósitos de rejeitos de nível baixo e intermediário ficam sob controle institucional após o seu fechamento por um tempo predeterminado garantindo a segurança e integridade física ao que se refere à radioatividade. Este controle é exercido por poucas centenas de anos, após o qual, o nível de atividade do depósito será tão baixo que não mais oferecerá riscos ao meio ambiente e indivíduos. Este é o caso daquele existente em Abadia de Goiás, que por ser um depósito com atividade intermediária, durante os próximos 50 anos, contados a partir de 1997, fará o controle institucional no entorno da área.


Um acompanhamento ambiental é feito através de um Programa de Monitoração Ambiental (PMA). Este programa propõe coletar amostras de solo, vegetação, sedimentos e água para análise laboratorial e divulgação dos dados para os órgãos de controle ambiental. Uma estação meteorológica mede a umidade relativa do ar, precipitação, temperatura, radiação global, pressão atmosférica e a velocidade e direção do vento. Os relatórios são gerados anualmente e comparados aos parâmetros das medidas radiométricas realizadas em laboratórios do Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD). As informações são repassadas ao Laboratório Nacional de Metrologia de Radiações Ionizantes (LNMRI) para avaliações em nível internacional (CRCN-CO, 2003).


O monitoramento ambiental permite comprovar principalmente a influência que a instalação exerce sobre o meio ambiente conforme os padrões de impacto previstos na licença de operação e garante a segurança do local contra o escape do Césio-137 para o meio ambiente. Este parâmetro dá a devida proteção aos indivíduos do público que visitam o local e/ou moram nas imediações do depósito. Ao que tange aos trabalhadores do depósito, durante a construção do Depósito Definitivo, as medidas de doses recebidas pelos mesmos mereceu avaliação. Foi a partir das leituras de canetas dosimétricas e do tempo de permanência na área onde estavam os rejeitos e, dependendo das etapas de construção do mesmo, é, que houve um estudo considerando também as medidas de proteção radiológica. Eles usavam o Equipamento de Proteção Individual (EPI) nas diversas atividades realizadas e faziam escalas de revezamento entre os grupos que entravam na área considerada ‘Área de Risco’, até o total fechamento do depósito.


"Edvaldo, 38 anos, se emociona ao contar o que tem passado. Ele trabalhou como subcomandante da fiscalização do depósito de Abadia entre 1996 e 1997. Um melanoma (câncer de pele) na altura do tórax desestruturou sua vida. Em seguida, apareceram dois nódulos nas costas. “Os policiais quando examinados mostravam grau de radiação e a CNEN mandava que se afastassem, mas eles já tinham passado mais de 24 horas no local”, lembra. Edvaldo vive em tratamento psicológico. Perdeu a casa onde morava, trancou a faculdade e ganhou medo e revolta. 'Meu dinheiro era para comprar remédio. Não tinha como pagar aluguel e pôr comida em casa. Agora, descubro que estou com a próstata aumentada e há possibilidade de recidiva do melanoma em 30%. Mas os médicos não acham que fui uma das vítimas do césio.' "


FONTE: Fotos - Arquivo Pessoal e SULEIDE

http://www.ipen.br/biblioteca/teses/M23192.pdf

http://perigoconcreto.blogspot.com/2010/01/o-fantasma-do-inferno-azul.html



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O Acidente Segundo a AVCésio

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Projeto Césio 137, Goiânia não merecia!


Em 13 de setembro de 1987 dois rapazes que estavam desempregados, encontraram nos escombros de uma clínica radiológica, um aparelho que outrora fora usado em seções de radioterapia. O Instituto Goiano de Radiologia já há dois anos (segundo os proprietários) havia mudado de endereço, e como tinha um entrevero com o estado envolvendo a locação do imóvel, aquele aparelho foi proibido por força de uma liminar judicial em ser retirado do local, os donos daquilo não se preocuparam em deixar vigia no local que estava totalmente desprotegido. O tempo passou e corroeu o prédio que naquela data só as quatro paredes e o teto guarneciam o objeto, já não havia mais portas nem janelas, os transeuntes usavam o espaço para defecar e urinar, o mato também fazia parte da funesta paisagem do local.

Naquele domingo um dos rapazes passando pelo local mais uma vez, já que não fora a primeira, verificou que sem muito trabalho nem sacrifício daria para retirar parte daquilo que lhe apresentava como totalmente desconhecido, sem símbolo ou escrita que pudesse identificá-lo. Notou que se de duas pessoas seria mais fácil devido ao peso, voltou em casa pegou um carrinho destes usado na construção civil, chamou um amigo e foram em busca do objetivo. Aquela esquina (Avenida Tocantins com o Paranaíba) é exatamente onde foi construído e hoje funciona o Centro de Conveções e Cultura de Goiânia, a seis quadras dos Palácios das Campinas (Municipal) e das Esmeraldas (Estadual), Onde o fluxo de veículos e pessoas sempre foi muito intenso, deixando a entender que qualquer um pudesse ter feito o que fizeram, não encontraram obstáculo algum nem chaves ou marretas foram usadas, a impressão que tiveram é que alguém já havia retirado alguma coisa ou parte do estranho objeto.


Uma vez retirado dali o levaram para a Rua 57 nº. 68 no Setor Central, naquele número moravam muitas famílias, era um lote com barracões para alugueis, mais ou menos 12 crianças com seus pais, ali o cilindro de chumbo e metal foi violado e o lacre que protegia a cápsula de Césio 137 fora rompido, disponibilizando fragmentos de césio a quem quisesse admirá-lo, tocá-lo, manusear ou até mesmo ingerí-lo, o que normalmente as crianças fazem. O estranho e desconhecido objeto ficou ali debaixo de uma mangueira em cima de um velho tapete do dia 13 a 18 quando foi levado e vendido por 1.600 Cruzados (moeda vigente na época) no depósito de ferro velho que existia na Rua 26/a, quase esquina com a Avenida Oeste no Setor Aeroporto. O cilindro vendido pesou 98 kg. Era composto de metal e chumbo.


Foto aerea da Rua 57 - Parte de concreto era a casa onde a capsula foi aberta.


Este foi o local onde o maior número de pessoas e animais tiveram contato com o nocivo material, os trabalhadores do comércio, os moradores da região, os parentes do proprietário e dos funcionários, os trabalhadores de outros estabelecimentos que compravam ali, já que era um comércio de compra e venda de sucatas, e ainda os catadores que não eram funcionários fixos do estabelecimento. Do dia 18 a 28 todos que por ali passaram evidentemente se contaminaram, pois os rapazes que trabalhavam ali eram encarregados de fazer a separação de matérias, já que cada uma tem um preço diferente na hora de revender ex: chumbo, metal, ferro e aço inoxidável etc. ao movimentar o volume partículas radioativas emanavam do ambiente, pessoas e animais transitavam no ambiente, dinheiro em quantidade e espécie passava de mão em mão.


A cápsula de césio estava acoplada em uma peça que foi chamada de marmita graças ao seu formato e tamanho, esta “marmita” era composta de chumbo recoberto por aço inoxidável que não foi paga pelo dono do ferro velho devido ao seu revestimento que não tinha valor financeiro compensatório, além de ser muito difícil fazer a separação, para cortá-la só no maçarico. Esta “marmita” pesou 22 kg. Mas não foi paga.


A complexidade nociva do material radioativo é imensurável, assim cada organismo reagiu de uma forma, os sintomas sentidos após o contato variaram, alguns já no primeiro momento tiveram febre alta, náuseas, vômitos, diarréias, urticárias, insônias, dores de cabeça e nas juntas, sangramentos principalmente nas gengivas, escurecimento de pele (queimaduras), de perda de olfato, tato, paladar e amolecimento dos dentes. Com o adoecimento das pessoas a contaminação se alastrou, pois era a busca por médicos, farmacêuticos, drogarias e as visitas de parentes e amigos, nestes momentos de dor a solidariedade aflora e os contatos físicos e diretos aconteceram, aumentando o número de pessoas e objetos contaminados e/ou irradiados, cada novo contato passara ser uma fonte radioativa em potencial!!!


Com tanta coincidência em sintomas sentidos começaram a desconfiar da tal peça que estava no ferro velho, assim no dia 28 a esposa e dona do ferro velho juntamente com um funcionário levaram aquilo para ser examinada na Vigilância Sanitária estadual. As dificuldades em reconhecer o objeto eram enormes, não havia símbolos, escritas ou sinal que pudesse identificar um objeto tão estranho, e como também não havia aparelhos capazes de diagnosticar qualquer possível ruído ou aroma todos os funcionários da estatal se contaminaram. Por acaso estava de passagem em férias na cidade um físico nuclear que tinha contatos com alguém da terra, este sendo avisado buscou emprestado na antiga NUCLEBRÀS (hoje, INB) um aparelho para medição de radioatividade, de contador Geigner na mão rumou diretamente para a ViSa. Onde estava a tal peça, ao se aproximar levou um grande susto, pois ainda a muitos metros do local o aparelho disparou dando sinal emitindo ruídos tamanha era o grau de radioatividade nas proximidades.


Uma vez constatada a situação o primeiro passo foi entrar em contato com as autoridades, tomar decisões em como e o que fazer com aquilo, buscar e isolar as pessoas que tiveram contato direto com o material que agora já era quase certo ser césio 137, envolvendo o Corpo de Bombeiros e a Polícia Militar. Primeiro apareceram os Bombeiros com ordens de pegar o material e jogá-lo no rio Meia Ponte, isto só não aconteceu porque o Técnico em Física não deixou. O trabalho de buscar as vítimas diretamente atingidas pelo ocorrido foi iniciado por volta das 22 horas do dia 29, as autoridades já haviam preparado através do Exército algumas barracas no centro do campo de futebol estádio Olímpico, onde fizeram exames preliminares e a classificação de quem teria recebido mais ou menos contaminação e/ou irradiação, isto feito veio à determinação que se cumpriu, quem foi menos contaminado ficou no estádio, os outros foram levados para o Hospital de Doenças Tropicais (HDT) em regime de quarentena, de imediato a população goianiense foi convidada através da mídia a passar pelo (QG) da CNEN para ser monitorada, pelo menos quem passara por onde estava a cápsula nos últimos dias, no dia seguinte longas filas se formaram em frente ao Ginásio Rio Vermelho e Estádio Olímpico, lá estavam os técnicos da CNEN ouvindo relatos e medindo o grau de contaminação e/ou irradiação que as pessoas teriam recebidos ou foram expostas, nos dias seguintes 112.800 foram monitoradas, provando assim o grande número de pessoas que certamente passara ou imaginara ter passado pelos locais de risco possivelmente tendo algum tipo de envolvimento, porém, segundo os técnicos apenas 6.500 tiveram algum nível de contaminação e/ou irradiação e que em apenas 249 esta exposição era merecedora de atenção e que apenas 120 causava preocupação ao ponto de serem internadas para descontaminação e/ou tratamento, destas apenas 16 exigia uma atenção redobrada, já que suas medulas óssea estavam comprometidas e/ou desenvolviam ulcerações (radiodermites) em partes do corpo. Outras 129 foram encaminhadas para uma unidade para apenas descontaminação a base de banhos com vinagre, permanganato, água e sabão, em algumas usaram dióxido de alumínio e até cápsulas de Radiogardase (Azul da Prússia) dissolvida em água, medicamento ainda em fase de experimentação neste tipo de procedimento.


De 16 pessoas, 14 em estado mais grave hematologicamente, foram levados para o Hospital Naval Marcílio Dias no Rio de Janeiro, destas, 04 morreram um mês após de Síndrome da Radiação. Dos focos irradiados ou contaminados retiraram 13.4 toneladas de lixo, parte deste altamente radioativo. Os móveis, roupas, animais, casas e até documentos das vítimas diretas viraram e hoje são rejeitos depositados no depósito de Abadia de Goiás.


Em 1988 o governador do estado Dr. Antonio Henrique Santillo criou uma entidade para prestar assistência integral às vítimas, além de promover pesquisas e qualificar recursos humanos segundo o seu Estatuto até a 3ª geração, porém o governador Marconi Ferreira Perillo Júnior extinguiu-a em 1999 sem critérios ou razões que justificasse o impensado ato. O tempo passou e hoje 18 anos depois do terrível acidente pouca coisa foi feita, e muito ainda está por fazer, um exemplo são os estudos e a qualificação, existe um número muito grande de pessoas que reivindicam seus direitos, são pessoas da Saúde que trabalharam com as vítimas diretas, militares que fizeram a vigilância dos locais contaminados, trabalhadores do transporte dos rejeitos, cidadãos que moravam próximos aos focos e parentes que tinham uma vida social intensa e diária com os diretamente radioacidentados. Isso tudo sem falar nos trabalhadores ligados aos comércios de recicláveis que tiveram em contatos por 16 dias com o material radioativo.


O maior acidente radiológico do mundo foi, e ainda é tratado de maneira amadora sem nenhuma preocupação com o aprendizado, com as pesquisas e pior, com as vítimas. A ciência e a Justiça não se entendem, muitos cientistas e médicos falam de uma latência longa e maleficências que o césio poderá trazer aos atingidos a médio e longo prazos, destacando cânceres diversos, as mutações celulares e anomalias genéticas, outros diminuem os efeitos nocivos chegando a afirmar que estes não existem, mas a literatura nos diz que, “em se tratando de radiação o melhor a fazer é não se contaminar” isto por que poucas informações estão disponíveis que possa avaliar a amplitude de possíveis danos. Por essas controvérsias quem realmente é interessado não consegue ver resgatados seus direitos e cidadania. Um exemplo vivo são os 86 funcionários que trabalhavam na Vigilância Sanitária à época em que a peça radioativa foi levada para aquela estatal, apenas 16 foram contemplados com pensões financeiras e assistência médica, os 70 restantes buscam nas autoridades os direitos que lhes são devidos, mas infelizmente negados.



Muitos servidores do Consórcio Rodoviário Intermunicipal (CRISA) que fizeram as demolições de construções, extração de terra contaminada e o transporte dos rejeitos radioativos estão buscando ressarcimentos, até hoje apenas um grupo de pessoas desta empresa recebe vantagens financeiras, mas não tem acesso algum a exames e medicamentos. Parte dos Bombeiros Militares e Policiais Militares que exerceram funções no recolhimento de vítimas diretas e vigilância dos focos de radiação recebem apenas pensão financeira que não lhes garantem assistência médica e medicamentosa, apesar de estar assegurado no Art. 5º da Lei estadual nº. 14.226/02 e 5º dos Estatutos da antiga FunLeide, que repito foi extinta irresponsavelmente pelo Governo.


Os vizinhos de focos de até 300 metros (depois baixou para 50 mt) que a princípio deveriam segundo a ciência, serem monitorados periodicamente, no entanto se quer são cadastrados pela Superintendência Leide das Neves, esta entidade está encarregada a dar assistência integral às vítimas em substituição à FunLeide. Também os parentes das vítimas diretas deveriam ser monitorados e acompanhados, mas os poderes políticos e jurídicos não lhes garantem absolutamente nada.


Hoje 18 anos depois daquele horrendo acidente mais de 1000 pessoas buscam assistência médica e ressarcimentos financeiros. A Associação das Vítimas do Césio 137 (AVCésio) já tentou de todas as formas dar-lhes socorro buscando os meios, às entidades e comissões defensoras do Cidadão, mas infelizmente não consegue ter sustentação por parte destes poderes que tem demonstrado fragilidades. A justiça brasileira as vezes prefere dar ênfase a coisas banais, como por exemplo, prender pais de famílias que por estarem desempregados subtraem pão ou leite para dar de comer aos filhos vítimas da falta de uma política social efetiva que assola este pais, o principal problema é a falta de geração de emprego e as divisas.


Atendendo a uma solicitação do Ministério da Saúde através da FUNASA em 2002 a portaria Nº. 60 de 2005 – GAB/SES foi assinada pelo então Secretário de Estado da Saúde em exercício Sr. Benevides Mamede Júnior, a qual criou um Grupo de Trabalho com o objetivo de fortalecer a SuLeide, elaborar propostas de criação do Centro de Referência e a reestruturação do protocolo de acompanhamento médico dos Grupos I, II e III de radioacidentados pelo Césio 137. Este chamado Grupo III teve um envolvimento não diretamente com o material radioativo, seu contato foi com vítimas diretas ou com objetos contaminados, e que de alguma forma podem ter o comprometimento de Saúde futuramente, já que os efeitos maléficos serão em longo prazo segundo a ciência. Também é de obrigação do GT buscar a fonte financiadora do Centro de Referência que deverá ser criado por orientação do Ministério da Saúde, para desenvolver pesquisas e dar assistência integral a todos que se encaixarem nos critérios que deverá ser adotado. “Centro de Referência que agora mudaram seu nome para Centro de Apoio”, mudança que certamente diminuirá a abrangência e a gravidade da tragédia.


Desde o início da criação do Grupo de Trabalho a Associação das Vítimas do Césio 137 (AVCésio), defendeu que o GT fosse formado por uma equipe multiinstitucional e multidisciplinar, más principalmente multiprofissional, num contexto geral, o drama não foi apenas clínico, mas de toda ordem, porém apesar da solicitação e da aprovação dentro do grupo, a portaria não nos atendeu e o GT ficou recheado de defensores do governo, governo esse que em seus discursos técnico-científicos e financeiros apontam só para a física nuclear e a crise financeira do pais, (apesar da roubalheira dos legisladores e governantes) desprezando a dor e as diferenças de pessoas que buscavam assegurar o pão de cada dia com o suor seu rosto quando foram surpreendidos pelo acaso, outros que buscavam usufruir o direito de ir vir. Este governo que hoje é defendido com unhas e dentes por médicos da CNEN, não podemos esquecer, foi ele o principal culpado pela tragédia, pois a segurança do cidadão é atribuição do estado (está na Carta Magna do país). Portanto é necessário que as três esferas de governo se unam para dar a assistência que os radioacidentados precisam e são detentores de direitos, também é importante que pesquisas sejam desenvolvidas e aprendizados ocorram, pois se outro acidente acontecer teremos mais profissionais capacitados, dando demonstrações de que a desgraça de uns pôde sim servir a outros.


Mas para que isto aconteça é preciso que os Parlamentares brasileiros e a Justiça tomem para si as responsabilidades na hora de criar e fazer valer as Leis. Segundo cientistas renomados no mundo inteiro, só em longo prazo poderemos ter respostas em relação aos efeitos da radiação no organismo humano, portanto é preciso tanto ter responsabilidades com o dinheiro público quanto com a vida. E ainda, “na dúvida devemos ficar com a vida”. Uma das maiores estudiosas da radiação já dizia “estudei a radioatividade por mais de trinta anos, estou morrendo sem saber de nada”. Meire currie.


Obs: Este documento foi lido e aprovado em Assembléia Ordinária da AVCésio, ás 9 horas e 30 minutos do dia 27 de Setembro de 2005


Goiânia, 27 de setembro de 2005




Odesson Alves Ferreira

Presidente

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AVCésio - Goiânia, 25 de agosto de 2005 - Carta de Repúdio

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“A justiça me decepciona”


“A justiça deste país só atende a interesses dos poderosos”. Esta frase já ouvi centenas de vezes, mas pensava que fosse apenas desabafos de alguma minoria sem razão, mas uma coisa é ouvir, outra coisa é fazer parte destes injustiçados que nem sempre é minoria.

A CNEN é tão eficiente na escolha de seus defensores que consegue fazer um procurador da União bater palmas e encher de elogios uma pessoa que se diz o banbanban da física, eu fiquei muito preocupado com o que vi na última reunião do “Grupo Trabalho”, grupo este que engole sem nenhuma restrição o que as frases ditatoriais do Dr. Valverde determinam, ele é tão eloqüente que consegue desdizer o que vários cientistas de todo mundo disseram, inclusive ele que disse há oito anos “ “não há faixa de segurança da irradiação H. J. Muller”, a sua verdade é tão “cristalina” que por vezes duvidei do meu envolvimento no acidente com o Césio 137.

Os juízes julgam os processos de radioacidentados que reivindicam pensões e assistência como se estivessem julgando um roubo de galinhas, ou uma ação de despejo que só o mais fraco é quem perde. Os deputados e senadores pensando nos votos que provavelmente lhes renderão, fazem Leis sem nenhum escrúpulo, “neste instante está passando no congresso mais uma destas Leis politiqueiras”, Leis que contemplam apenas uma pequena faixa e ainda, alguns que nem estiveram no evento, e deixa de fora os necessitados e vitimados reais do acidente, principalmente se estes não forem servidores do estado.

Aquele que já foi considerado o maior acidente radiológico do mundo, hoje se transformou num mero envolvimento de pessoas com césio. O que é césio? As várias doenças que poderiam ser desencadeadas a partir do contato com césio não passam de fantasia, há, radiação existe em todo lugar, câncer dá em todo mundo, o cigarro, a carne vermelha, o sol, as praias deste País tropical, a luz fluorescente enfim tudo pode desenvolver o câncer, menos o acidente de Goiânia, esta é a falácia de pessoas que hoje só tem compromisso o governo, e não com a vida.

Dizem que “a justiça é cega”, neste caso eu diria que a justiça usa um olho, olho de interesses dos governantes. Valha – me Deus.




CARTA DE REPÚDIO



Goiânia, 25 de agosto de 2005

Prezado Diretor


Em setembro de 1987 dois rapazes que estavam catadores de sucatas encontraram nos escombros de uma clínica radiológica, um aparelho que outrora era usado na quimioterapia, em tratamento principalmente do câncer. Por ser um material altamente radioativo, (Césio 137) possuía uma estrutura de metal e chumbo, daí o motivo pelo qual se interessaram a vendê-lo em um comercio de materiais recicláveis. Já há alguns anos aquele objeto fora abandonado pelos proprietários, que ao mudarem de endereço o abandonaram no local.

Ocorre senhor, que, em 24 de agosto último por ocasião do lançamento do Fórum Permanente de Prevenção e Controle de Acidentes Radiológicos e Nucleares (FOCAR). Onde a imprensa atendendo ao nosso chamamento para a devida cobertura, diga-se de passagem, a imprensa nacional sempre nos deu apoio, todas as vezes que a buscamos fomos atendidos.

A Record Goiás cumprindo seu papel também estava lá, o programa Goiânia Urgente que vai ao ar de segunda a sábado, fez a cobertura sem ferir e sem fugir à ética que o bom jornalismo requer, porém, às 19 horas do mesmo dia o programa Informe Goiás feriu e maculou esta Rede de Televisão que considero ser, senão a maior, com certeza não perde em nada para as outras.

O que ocorre é que o Âncora do programa foi anti-ético e muito infeliz ao comentar o acidente com o césio 137 que ocorreu a 18 anos. Depois de informar o lançamento do FOCAR, o Sr. Paulo Berings comentou sobre as ações movidas pelo Ministério Público Federal contra, CNEN, IPASGO, Estado de Goiás e os médicos donos da Clínica de Radiologia, no fechamento da matéria o Âncora disse, “que me perdoem, mas as pessoas que hoje se dizem vítimas eram ladrões”.

O acidente que aconteceu em 13 de setembro de 1987, foi investigado exaustivamente pela Polícia Federal a qual chegou a conclusão que não houve roubo, mas sim um abandono e descuido dos PROPRIETÁRIOS, CNEN, GOVERNO DE GOIÀS E IPASGO. Porém o jornalista não respeitando o laudo e determinação da polícia usou de adjetivos nocivos, desrespeitosos e que ferem a honra e a dignidade de um grupo de pessoas que não deve absolutamente nada à justiça, portanto, não eram e não são ladrões,





Odesson Alves Ferreira

Presidente da AVCésio





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VOCÊ CONHECE O ADELSON?

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O parentesco precede toda e qualquer apresentação. Ele ficou conhecido como o tio da Leide das Neves. Também seu cargo insiste em aparecer sempre à frente de seu nome. Ele é o atual presidente da Associação das Vítimas do Césio 137. O que pouca gente sabe, na verdade, é que Odesson Alves Ferreira, 52, sempre foi chamado por Adelson por parentes e amigos, ou “Aderson” pela mãe, a dona Maria Badia Motta, 80. “Demorei a me acostumar com o povo me chamando de Odesson”, confessa.


O senhor que carrega nas mãos a marca do acidente com o césio 137 – enxerto na mão esquerda, dedo indicador da direita amputado em 1989 e o da esquerda, atrofiado – é natural de Corumbá de Goiás, cidade a 112 quilômetros de Goiânia. É também o caçula dos cinco filhos de dona Badia, que nasceram de “escadinha de dois em dois anos”. Na ordem: Ivo, Irma (morreu ainda bebê), Devair, Creusa e Odesson.


A infância foi vivida em Santo Antônio do Descoberto e Rubiataba. Com 10 anos, Adelson começou a trabalhar. Experiência, ele acumulou em diversas áreas: engraxate, vendedor de jornal, servente de pedreiro, lavrador. Os estudos tiveram de ser interrompidos no primário – apenas em 2003, ele conseguiu concluir o Ensino Médio.


GOIÂNIA - No fim da década de 60, o caçula da família Ferreira mudava-se com a mãe para Goiânia. Os outros filhos estavam com outros parentes, depois que dona Badia e o lavrador José Alves Ferreira se separaram, na época em que moravam em Santo Antônio. “Ela foi buscando um a um para morar com a gente em uma casa no Setor Pedro Ludovico”, recorda-se, ao informar que a mãe casou-se novamente com Marciel Ribeiro Machado, que tornaria-se vítima do césio e morreria em 1997.


Adelson conta que sempre foi muito “ligado” ao irmão mais velho, Ivo, o primeiro a casar, no ano de 1970. Os laços se estreitaram, então, com Devair. Mas um ano depois, em 1971, o irmão também deixava a barra da saia da mãe para constituir vida própria ao lado da companheira Maria Gabriela. Adelson aproveitou a “onda”. Em 1972, com apenas 17 anos, casava-se também com uma Maria, irmã da esposa de Devair. A relação, entretanto, durou apenas três anos.


Quem tornou-se a cúmplice e companheira de Adelson foi a costureira Marli da Costa Freire Ferreira, 47. A união foi selada em 1978. O já motorista de caminhão morou no bairro Campinas e fixou, posteriormente, residência no Parque das Nações, em Aparecida de Goiânia. No ano do acidente com o césio, Adelson trabalhava como motorista de ônibus na linha Independência-Izidória, via BR-153. Tinha quatro filhos – dois com a primeira esposa e outros dois com Marli.


SETEMBRO DE 87 – Naquela terça-feira de temperatura elevada, dia 22 de setembro de 1987, Adelson acordou antes das cinco da manhã para ir trabalhar. Rodou pela capital até as 14h30, quando entregou o ônibus que dirigia à empresa. Resolveu passar na casa do irmão Devair, que morava na Rua 26-A, do Setor Aeroporto. A visita era para pagar 900 cruzados que Adelson devia por causa de uma compra de dois vitrôs.


No ferro-velho do irmão, o primeiro contato com o césio. “O Devair estava fascinado com a possibilidade de fazer anel com aquele pó brilhante. Eu peguei uma quantidade menor do que um grão de arroz e espalhei na mão com o dedo indicador. Queria mostrar para o Devair que o material não tinha consistência”, relata. “Ele já estava passando mal, mas achava que era por causa de uma feijoada”, complementa.


De lá, Adelson seguiu para a casa do outro irmão, Ivo Ferreira, também dono de um ferro-velho. A distância entre as residências era pequena – cerca de 400 metros separam a Rua 26-A, do Setor Aeroporto, da Rua 6, do Norte Ferroviário. O irmão viajara. Adelson comentou com a cunhada, Lourdes das Neves Ferreira, que Devair e Maria Gabriela estavam muito doentes. Dois dias depois, Ivo visitava Devair. Encantado com o brilho do césio, levou alguns fragmentos em uma caixa de fósforos para a filha caçula, Leide das Neves, ver. O pó da morte deixava seu rastro. A menina foi a mais contaminada – cerca de 2,5 mil rads. Segundo Adelson, foi a pessoa que mais tempo conseguiu sobreviver com “aquela quantidade altíssima” de césio no organismo – um mês e dez dias.


DESABAFO – Na casa onde vive com a esposa e a filha mais nova, no Jardim Nova Era, em Aparecida, Adelson confessa, agora como presidente da Associação das Vítimas do Césio. “Me sinto fragilizado, fraco. Não consegui garantir nada para as vítimas (assistência médica até a terceira geração, indenização por danos morais, materiais...) São 20 anos correndo atrás da justiça”, desabafa.


O fornecimento de remédios pela Superintendência Leide das Neves (Suleide), que deveria ser garantido pelo governo estadual, também consiste em problema: está em falta desde abril do ano passado. O reconhecimento das vítimas e o valor das pensões estipulados são controversos. “Muitas pessoas que tiveram contato com o césio não estão na lista dos beneficiados pela pensão”, diz Adelson.


Os constrangimentos por que passou por causa do acidente não ficaram restritos apenas à década de 80. Mas daquela época, ele recorda de uma noite “horrível”, quando o então presidente da República José Sarney foi visitar as vítimas que estavam no Hospital Geral de Goiânia (HGG). “Há 40 dias, eles não limpavam o hospital. Naquele dia, lavaram tudo e nos colocaram no fundo do quarto. A comitiva passava olhando para a gente com cara de espanto, pena, medo.”


Adelson ficou internado do dia 3 de outubro a 26 de dezembro de 87. Ainda no dia 30 de setembro, recebeu um recado do irmão Devair dizendo que o produto que tocaram era altamente perigoso. “Mas não procurei médico, tinha medo de me deixarem isolado. Fui apenas no Estado Olímpico, onde os técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) mediam o grau de irradiação”. Posteriormente, o caçula da família Ferreira deu entrada no HGG. “A mão já começava a doer.”


Sonhos, o ex-motorista de ônibus carrega, no mínimo, três: terminar o livro que escreve sobre acidente do césio; fazer do lote da casa do catador Roberto – na Rua 57 – a sede de um memorial e da Associação das Vítimas; e garantir os direitos aos sobreviventes da tragédia.


A RECONSTITUIÇÃO DO DIA ‘D’


(Baseado nos relatos de Odesson à reportagem)


A temperatura variava entre 29º e 35º graus. Normal para uma cidade acostumada com o tempo quente e seco do mês de setembro. Nos relógios fixados nas inúmeras residências de Goiânia ou naqueles que perambulavam nos pulsos dos transeuntes que se aventuraram a deixar o conforto de suas casas em um pleno domingo, os ponteiros já apontavam o início do período vespertino. Eram por volta das 13 horas e os catadores de papel* Wagner Mota Pereira, 19, e Roberto Santos Alves, 22, ainda não haviam almoçado. À trabalho, desciam a Avenida Paranaíba, no Centro da capital goiana.


No local que hoje abriga o Centro de Convenções, em 1987 se amontoavam os escombros do antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR). Lote abandonado, muro de placa de concreto quebrado, salas sem janelas e portas, mato em volta do terreno. Entre os resquícios da antiga clínica desativada, uma peça chamou a atenção dos catadores, que já haviam passado outras vezes pelo local. Em frente à um cilindro de chumbo e metal, Wagner e Roberto depositaram a esperança de ganhar um dinheiro extra com a venda do material. Separaram o objeto em duas partes e levaram a menor, juntamente com a cápsula do césio, em um carrinho de mão. Começava a “trajetória da pedra”, como definiu à reportagem do HOJE o atual presidente da Associação das Vítimas do Césio 137, Odesson Alves Ferreira.


Depois de percorridos aproximadamente 600 metros – entre as Av. Paranaíba, Oeste, Ruas 55 e 80 -, os catadores chegaram à casa de Roberto, na Rua 57, Centro (antigo Bairro Popular). Diversas famílias – cerca de 30 pessoas, mais de dez crianças - viviam no lote de 500 metros quadrados, de propriedade da mãe de Roberto, que alugava alguns barracões. Foi no meio do terreno, em uma área onde estava plantada uma mangueira e onde as pessoas lavavam as roupas em um tanque, que os catadores tiraram o lacre da peça e a romperam. Até o dia 18 de setembro, o artefato permaneceria na Rua 57.


A poucos metros dali, na Rua 26-A, do Setor Aeroporto, vivia há pelo menos dez anos Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho. Ele e a esposa, Maria Gabriela Ferreira, 29, não tinham filhos. Companheiros de conversa eram os funcionários de Devair, que moravam também no lote. Após o catador Roberto Santos passar pelo local, foi fechada a venda do material – que não sabiam conter material radioativo, o césio 137. Devair pagou mil e seiscentos cruzados pelo objeto, que foi buscado na casa de Roberto pelos irmãos Benevides e Eterno Almeida (também funcionários do dono do ferro-velho). A peça foi transportada para a Rua 26-A em carrinho utilizado para catar papel.


No dia 22 de setembro, Israel Batista dos Santos, 22, e Admilson Alves Souza, 17, – que trabalhavam para Devair – conseguiram desmontar o objeto. À noite, o proprietário do ferro-velho ficou fascinado com o brilho azul do pó (fragmento do césio) descoberto no interior da peça. Familiares, amigos e vizinhos foram conhecer a novidade. Tornaram-se vítimas da radiação.


A sobrinha de Devair, a pequena Leide das Neves Ferreira, na época com 6 anos, tornou-se o símbolo da tragédia. Teve contato com a substância – levada pelo pai Ivo Ferreira – e, com as mãos ainda sujas de césio, comeu um ovo cozido no jantar. Morreu no dia 23 de outubro, algumas horas depois de sua tia Maria Gabriela, esposa de Devair, que foi quem levou a cápsula de césio à Vigilância Sanitária. O caso tornou-se público no dia 29 de setembro de 1987, dezesseis dias após Wagner e Roberto acharem a bomba com o material radioativo nos escombros do antigo IGR.


* “Na verdade, eles estavam – e não eram – catadores. Wagner trabalhava como caminhoneiro e Roberto reciclava lanternas de automóveis”, esclarece o atual presidente da Associação das Vítimas do Césio 137, Odesson Alves Ferreira.




Fonte: Associação das Vitimas do Césio-137

Foto 1 - Weimer Carvalho

Foto 2 - Arquivo da SULEIDE

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