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Garantias Referentes aos Depósitos de Rejeitos Radioativos

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LEI Nº 10.308, DE 20 DE NOVEMBRO DE 2001

(D.O.U. de 21/11/01)

Dispõe sobre a seleção de locais, a construção, o licenciamento, a operação, a fiscalização, os custos, a indenização, a responsabilidade civil e as garantias referentes aos depósitos de rejeitos radioativos, e dá outras providências.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Capítulo I

Disposições Preliminares

Art. 1º Esta Lei estabelece normas para o destino final dos rejeitos radioativos produzidos em território nacional, incluídos a seleção de locais, a construção, o licenciamento, a operação, a fiscalização, os custos, a indenização, a responsabilidade civil e as garantias referentes aos depósitos radioativos.

Parágrafo único. Para efeito desta Lei, adotar-se-á a nomenclatura técnica estabelecida nas normas da Comissão Nacional de Energia Nuclear - CNEN.

Art. 2º A União, com base nos arts. 21, inciso XXIII, e 22, inciso XXVI, da Constituição Federal, por meio da CNEN, no exercício das competências que lhe são atribuídas pela Lei nº 6.189, de 16 de dezembro de 1974, modificada pela Lei nº 7.781, de 27 de junho de 1989, é responsável pelo destino final dos rejeitos radioativos produzidos em território nacional.

Art. 3º São permitidas a instalação e a operação dos seguintes tipos de depósitos de rejeitos radioativos:

I - depósitos iniciais;

II - depósitos intermediários;

III - depósitos finais.

Art. 4º Os depósitos iniciais, intermediários e finais serão construídos, licenciados, administrados e operados segundo critérios, procedimentos e normas estabelecidos pela CNEN, vedado o recebimento nos depósitos finais de rejeitos radioativos na forma líquida ou gasosa.

§ 1º Os depósitos iniciais utilizados para o armazenamento de rejeitos nas instalações de extração ou de beneficiamento de minério poderão ser convertidos em depósitos finais, mediante expressa autorização da CNEN.

§ 2º Nos casos de acidentes radiológicos ou nucleares, excepcionalmente, poderão ser construídos depósitos provisórios, que serão desativados, com a transferência total dos rejeitos para depósito intermediário ou depósito final, segundo critérios, procedimentos e normas especialmente estabelecidos pela CNEN.

Capítulo II

Da Seleção de Locais para Depósitos de Rejeitos Radioativos

Art. 5º A seleção de locais para depósitos iniciais obedecerá aos critérios estabelecidos pela CNEN para a localização das atividades produtoras de rejeitos radioativos.

Art. 6º A seleção de locais para instalação de depósitos intermediários e finais obedecerá aos critérios, procedimentos e normas estabelecidos pela CNEN.

Parágrafo único. Os terrenos selecionados para depósitos finais serão declarados de utilidade pública e desapropriados pela União, quando já não forem de sua propriedade.

Art. 7º É proibido o depósito de rejeitos de quaisquer naturezas nas ilhas oceânicas, na plataforma continental e nas águas territoriais brasileiras.

Capítulo III

Da Construção de Depósitos de Rejeitos Radioativos

Art. 8º O projeto, a construção e a instalação de depósitos iniciais de rejeitos radioativos são de responsabilidade do titular da autorização outorgada pela CNEN para operação da instalação onde são gerados os rejeitos.

Art. 9º Cabe à CNEN projetar, construir e instalar depósitos intermediários e finais de rejeitos radioativos.

Parágrafo único. Poderá haver delegação dos serviços previstos no caput a terceiros, mantida a responsabilidade integral da CNEN.

Capítulo IV

Do Licenciamento e da Fiscalização dos Depósitos

Art. 10. A responsabilidade pelo licenciamento de depósitos iniciais, intermediários e finais é da CNEN no que respeita especialmente aos aspectos referentes ao transporte, manuseio e armazenamento de rejeitos radioativos e à segurança e proteção radiológica das instalações, sem prejuízo da licença ambiental e das demais licenças legalmente exigíveis.

Art. 11. A fiscalização dos depósitos iniciais, intermediários e finais será exercida pela CNEN, no campo de sua competência específica, sem prejuízo do exercício por outros órgãos de atividade de fiscalização prevista em lei.

Capítulo V

Da Administração e Operação dos Depósitos

Art. 12. Constituem obrigações do titular da autorização para operar a atividade geradora dos rejeitos a administração e a operação de depósitos iniciais.

Art. 13. Cabe à CNEN a administração e a operação de depósitos intermediários e finais.

Parágrafo único. Poderá haver delegação dos serviços previstos no caput a terceiros, mantida a responsabilidade integral da CNEN.

Capítulo VI

Da Remoção dos Rejeitos

Art. 14. A remoção de rejeitos de depósitos iniciais para depósitos intermediários ou de depósitos iniciais para depósitos finais é da responsabilidade do titular da autorização para operação da instalação geradora dos rejeitos, que arcará com todas as despesas diretas e indiretas decorrentes.

Parágrafo único. A remoção de rejeitos prevista no caput será sempre precedida de autorização específica da CNEN.

Art. 15. A remoção de rejeitos dos depósitos intermediários para os depósitos finais é de responsabilidade da CNEN, que arcará com todas as despesas diretas e indiretas decorrentes.

Parágrafo único. Poderá haver delegação do serviço previsto no caput a terceiros, mantida a responsabilidade integral da CNEN.

Capítulo VII

Dos Custos dos Depósitos de Rejeitos Radioativos

Art. 16. O titular da autorização para a operação da instalação geradora de rejeitos arcará integralmente com os custos relativos à seleção de locais, projeto, construção, instalação, licenciamento, administração, operação e segurança física dos depósitos iniciais.

Art. 17. A CNEN arcará com os custos relativos à seleção de locais, projeto, construção, instalação, licenciamento, administração, operação e segurança física dos depósitos intermediários e finais.

Parágrafo único. A CNEN poderá celebrar com terceiros convênios ou ajustes de mútua cooperação relativos à efetivação total ou parcial do que trata o caput, não se isentando, com isso, de sua responsabilidade.

Art. 18. O serviço de depósito intermediário e final de rejeitos radioativos terá seus respectivos custos indenizados à CNEN pelos depositantes, conforme tabela aprovada pela Comissão Deliberativa da CNEN, a vigorar a partir do primeiro dia útil subseqüente ao da publicação no Diário Oficial da União.

§ 1º Para a elaboração da tabela referida no caput a Comissão Deliberativa levará em conta, entre outros, os seguintes fatores:

I - volume a ser depositado;

II - ativo isotópico do volume recebido;

III - custo de licenciamento, da construção, da operação, da manutenção e da segurança física do depósito.

§ 2º São dispensados do pagamento dos custos de que trata o caput os projetos vinculados à Defesa Nacional.

Capítulo VIII

Da Responsabilidade Civil

Art. 19. Nos depósitos iniciais, a responsabilidade civil por danos radiológicos pessoais, patrimoniais e ambientais causados por rejeitos radioativos neles depositados, independente de culpa ou dolo, é do titular da autorização para operação daquela instalação.

Art. 20. Nos depósitos intermediários e finais, a responsabilidade civil por danos radiológicos pessoais, patrimoniais e ambientais causados por rejeitos radioativos neles depositados, independente de culpa ou dolo, é da CNEN.

Art. 21. No transporte de rejeitos dos depósitos iniciais para os depósitos intermediários ou de depósitos iniciais para os depósitos finais, a responsabilidade civil por danos radiológicos pessoais, patrimoniais e ambientais causados por rejeitos radioativos é do titular da autorização para operação da instalação que contém o depósito inicial.

Art. 22. No transporte de rejeitos dos depósitos intermediários para os depósitos finais, a responsabilidade civil por danos radiológicos pessoais, patrimoniais e ambientais causados por rejeitos radioativos é da CNEN.

Parágrafo único. Poderá haver delegação do serviço previsto no caput a terceiros, mantida a responsabilidade integral da CNEN.

Capítulo IX

Das Garantias

Art. 23. As autorizações para operação de depósitos iniciais, intermediários ou finais condicionam-se à prestação das garantias previstas no Art. 13 da Lei nº 6.453, de 17 de outubro de 1977.

Art. 24. Para a operação e o descomissionamento de depósitos iniciais e de intermediários e finais, caso estes estejam sendo operados por terceiros, o titular da autorização para operação da instalação deverá oferecer garantia para cobrir as indenizações por danos radiológicos causados por rejeitos radioativos.

Art. 25. Nos depósitos intermediários e finais, caso sejam operados por terceiros, consoante o Art. 13 desta Lei, o prestador de serviços deverá oferecer garantia para cobrir as indenizações por danos radiológicos.

Capítulo X

Dos Direitos sobre os Rejeitos Radioativos

Art. 26. Pelo simples ato de entrega de rejeitos radioativos para armazenamento nos depósitos intermediários ou finais, o titular da autorização para operação da instalação geradora transfere à CNEN todos os direitos sobre os rejeitos entregues.

Capítulo XI

Dos Depósitos Provisórios

Art. 27. Nos casos de acidentes nucleares ou radiológicos, a CNEN, a seu exclusivo critério, considerada a emergência enfrentada, poderá determinar a construção de depósitos provisórios para o armazenamento dos rejeitos radioativos resultantes.

Art. 28. A seleção do local, projeto, construção, operação e administração dos depósitos provisórios, ainda que executadas por terceiros devidamente autorizados, são de exclusiva responsabilidade da CNEN.

§ 1º A fiscalização dos depósitos provisórios será exercida pela CNEN, no campo de sua competência específica, sem prejuízo do exercício por outros órgãos de atividade de fiscalização prevista em lei.

§ 2º Os custos relativos aos depósitos provisórios, inclusive os de remoção de rejeitos e descomissionamento, são de responsabilidade da CNEN.

Art. 29 (VETADO)

Art. 30. O Estado em cujo território ocorrer o acidente e conseqüente instalação do depósito provisório será responsável pelo fornecimento de guarda policial para a garantia da segurança física e inviolabilidade do referido depósito.

Art. 31. A responsabilidade civil por danos radiológicos pessoais, patrimoniais e ambientais causados por rejeitos nos depósitos provisórios ou durante o transporte do local do acidente para o depósito provisório e deste para o depósito final é da CNEN.

Parágrafo único. A responsabilidade civil pelos danos radiológicos causados por rejeitos armazenados em depósito provisório decorrente de falha na segurança física é do Estado.

Capítulo XII

Disposições Gerais

Art. 32. A responsabilidade civil por danos decorrentes das atividades disciplinadas nesta Lei será atribuída na forma da Lei nº 6.453, de 1977.

Art. 33. É assegurado à CNEN o direito de regresso em relação a prestadores de serviço na hipótese de culpa ou dolo destes.

Art. 34. Os Municípios que abriguem depósitos de rejeitos radioativos, sejam iniciais, intermediários ou finais, receberão mensalmente compensação financeira.

§ 1º A compensação prevista no caput deste artigo não poderá ser inferior a 10% (dez por cento) dos custos pagos à CNEN pelos depositantes de rejeitos nucleares.

§ 2º Caberá à CNEN receber e transferir aos Municípios mensalmente os valores previstos neste artigo, devidos pelo titular da autorização para operação da instalação geradora de rejeitos.

§ 3º Nos depósitos iniciais e intermediários, onde não haja pagamentos previstos no § 1º deste artigo, o titular da autorização da operação da instalação geradora de rejeitos pagará diretamente a compensação ao Município, em valores estipulados pela CNEN, levando em consideração valores compatíveis com a atividade da geradora e os parâmetros estabelecidos no § 1º do Art. 18 desta Lei.

Art. 35. Os órgãos responsáveis pela fiscalização desta Lei enviarão anualmente ao Congresso Nacional relatório sobre a situação dos depósitos de rejeitos radioativos.

Art. 36. É proibida a importação de rejeitos radioativos.

Capítulo XIII

Disposições Transitórias

Art. 37. A CNEN deverá iniciar estudos para a seleção de local, projeto, construção e licenciamento para a entrada em operação, no mais curto espaço de tempo tecnicamente viável, de um depósito final de rejeitos radioativos em território nacional.

Parágrafo único. Para atingir o objetivo fixado no caput, a CNEN deverá receber dotação orçamentária específica.

Art. 38 (VETADO)

Art. 39. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 20 de novembro de 2001; 180º da Independência e 113º da República.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Aloysio Nunes Ferreira Filho

José Serra

José Jorge

Ronaldo Mota Sardenberg

José Carlos Carvalho

MENSAGEM Nº 1.269, DE 20 DE NOVEMBRO DE 2001

NOTA DO EDITOR: Esta Mensagem não faz parte do texto da Lei. Está inserida para permitir ao leitor conhecer as razões que levaram o Exmo. Sr. Presidente da República a opor veto a alguns de seus dispositivos.

Senhor Presidente do Senado Federal,

Comunico a Vossa Excelência que, nos termos do parágrafo 1º do Art. 66 da Constituição Federal, decidi vetar parcialmente, por inconstitucionalidade, o Projeto de Lei nº 294, de 1989 (no 189/91 na Câmara dos Deputados), que "Dispõe sobre a seleção de locais, a construção, o licenciamento, a operação, a fiscalização, os custos, a indenização, a responsabilidade civil e as garantias referentes aos depósitos de rejeitos radioativos, e dá outras providências".

Ouvido, o Ministério da Justiça assim se manifestou sobre os dispositivos a seguir vetados:

Art. 29

"Art. 29. No caso de acidentes nucleares ou radiológicos que exijam a construção de depósitos provisórios, o Poder Executivo deverá consignar crédito extraordinário à CNEN para fazer face às despesas decorrentes da construção dos depósitos provisórios."

Razões do veto

"A esse dever, a essa obrigação do Poder Executivo consignar crédito extraordinário contrapõe-se o disposto no § 3º do Art. 167, combinado com o Art. 62 da nossa Carta Constitucional:

"Art. 167. São vedados:

...............................................................................

§ 3º A abertura de crédito extraordinário somente será admitida para atender a despesas imprevisíveis e urgentes, como as decorrentes de guerra, comoção interna ou calamidade pública, observado o disposto no Art. 62."

"Art. 62. Em caso de relevância e urgência, o Presidente da República poderá adotar medidas provisórias, com força de lei, devendo submetê-las de imediato ao Congresso Nacional.

§ 1º É vedada a edição de medidas provisórias sobre matéria:

I - relativa a:

...............................................................................

d) planos plurianuais, diretrizes orçamentárias, orçamento e créditos adicionais e suplementares, ressalvado o previsto no Art. 167, § 3º;

..............................................................................."

Evidente, face aos preceitos constitucuionais, que constitui prerrogativa privativa do Presidente da República o juízo da oportunidade de instituir crédito extraordinário, sendo vedado ao Poder Legislativo estabelecer hipóteses obrigatórias da sua instituição."

Art. 38

"Art. 38. É o Poder Executivo autorizado a enviar no prazo de 90 (noventa) dias projeto de lei para criação do Fundo de Gestão de Rejeitos Nucleares, visando a manutenção dos depósitos e pagamentos de compensação a Municípios no período após o encerramento da operação das instalações geradoras de rejeitos."

Razões do veto

"Necessário observar que a essência do postulado da independência entre os poderes busca resguardar a harmonia da relação entre os mesmos e cujos princípios são alicerçados em conceitos fundamentais proclamados pela Constituição com assento no Art. 2º da Carta Política.

Assim, não se revela cabível a estipulação de autorização para que o Executivo possa encaminhar projeto de lei sobre matéria a respeito da qual estará sempre autorizado, uma vez que não existe restrição constitucional, muito menos a fixação de prazo para que o Executivo envie projeto de lei como quer o projetado, posto que nem mesmo em se tratando de matéria de sua iniciativa privativa a Constituição estabeleceu limites temporais.

Portanto, o presente projeto estabelece especificidades de regramentos a outro Poder o que assinala clara e flagrante afronta aos preceitos constitucionais da separação dos poderes."

Estas, Senhor Presidente, as razões que me levaram a vetar os dispositivos acima mencionados do projeto em causa, as quais ora submeto à elevada apreciação dos Senhores Membros do Congresso Nacional.

Brasília, 20 de novembro de 2001.

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Brasil não tem depósito permanente

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Resíduos são guardados provisoriamente e depois devolvidos à nação de origem

Cada material radioativo tem um período de utilidade específica, determinado pela sua meia-vida (tempo dentro do qual sua radioatividade cai pela metade). Os rejeitos de combustível nuclear e de radioisótopos de uso industrial requerem um tratamento especial, pois podem permanecer radioativos por centenas e até milhões de anos. O Brasil não possui um depósito permanente para esses resíduos, que precisam ser enviados de volta ao país exportador.

O depósito de maior atividade radioativa no País fica num galpão de 200 metros quadrados no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo, onde estão estocados mais de mil tambores de aço galvanizado, de 200 litros cada um, com quase 20 mil fontes radioativas, segundo informações do instituto. Em um galpão vizinho são armazenadas as fontes recolhidas dos hospitais e indústrias para processamento. O material radioativo é colocado em proteções de chumbo e cimentado dentro dos tambores.

Outros depósitos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) estão situados no Instituto de Energia Nuclear (IEN), na Cidade Universitária da Ilha do Fundão (RJ); e no Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), no câmpus da Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Existem ainda rejeitos estocados em Abadia, Goiânia (especialmente para os rejeitos do acidente com césio-137, em 1987) e Fortaleza, segundo a Coordenadoria de Relações Institucionais da Cnen.

Há também depósitos de rejeitos das Indústrias Nucleares do Brasil em Poços de Caldas, am Minas, e no Estado de São Paulo - na Usina de Interlagos (Usin) e na Botuxim, 12 quilômetros ao sul de Itu -, de acordo com a Cnen.

Já a meia-vida dos radiofármacos em geral é de algumas horas. Com isso, eles podem ser descartados com mais rapidez depois que sua radioatividade atinge níveis aceitáveis para o ambiente. Depósitos blindados com chumbo guardam os rejeitos de grandes hospitais até que eles possam ser descartados com o lixo comum ou recolhidos para os depósitos do Cnen. Segundo o engenheiro Paulo Roberto Rela, do Departamento de Aplicações na Engenharia e na Indústria do Ipen, os rejeitos radioativos - incluindo luvas, seringas e outros materiais de manipulação - devem ser mantidos em blindagem por 20 meias-vidas para serem considerados inofensivos.


Lei - O País poderá ter uma definição quanto aos depósitos provisórios de rejeitos radioativos na próxima semana. Segundo o deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ), o projeto de lei 189/91, que define o destino de rejeitos nucleares e regulamenta a construção de depósitos finais, deverá entrar em pauta após a Semana Santa, em regime de urgência.

Já aprovado na Comissão de Meio Ambiente da Câmara, o projeto exige, entre outras medidas, a realização de várias pesquisas e a execução de um relatório de impacto ambiental no caso da eventual escolha de um local definitivo para abrigar os rejeitos produzidos no País.

Segundo o coordenador substituto de Rejeitos Radioativos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), Natanael Bruno, já foram definidas pelo menos 20 áreas para o destino de rejeitos no País. Gabeira, no entanto, afirma que a escolha da Cnen deverá ser submetida às autoridades ambientais, segundo o texto do projeto de lei. "O licenciamento da Cnen não exime a necessidade de licenciamento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), por exemplo", disse ele.


Angra - A questão dos depósitos provisórios existentes no Complexo Nuclear de Angra dos Reis (a 150 quilômetros do Rio) preocupa autoridades ambientais do País. O secretário do Meio Ambiente do Estado do Rio, André Corrêa, solicitou que o governo federal contrate uma agência independente - no caso, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) - para realizar uma inspeção nos dois depósitos de Angra. O pedido foi feito depois que surgiram suspeitas em relação às condições de armazenamento dos rejeitos de baixa e média atividade da usina nuclear, embora a Cnen já tenha emitido parecer indicando que os depósitos teriam "condições plenas de segurança" para a estocagem de material radioativo em caráter provisório.

O chefe da Divisão de Segurança de Rejeitos da AIEA, Gordon Linsley, veio ao País na semana passada para fazer uma inspeção preliminar no local. Na ocasião, ele disse considerar necessária uma "solução final" quanto à questão dos depósitos. O relatório final da AIEA sobre a situação de Angra só deverá ser divulgado em junho, após a visita de mais um grupo de peritos à usina. (Herton Escobar e Felipe Werneck)


FONTE: http://www.ien.gov.br/noticias/midia_arquivo/oestsp_160400_depos.htm

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Terreno está contaminado por resíduos de produtos organoclorados e material radioativo

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Prédios serão construídos em terrenos contaminados na zona sul de São Paulo

Os vereadores que compõem a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Danos Ambientais na Câmara Municipal de São Paulo, entre eles o vereador Penna (PV), estão preocupados com terrenos localizados na zona Sul da capital, que antes eram utilizados por indústrias e agora estão sendo comprados por empreendedores para construção de prédios residenciais.

Luiz Carlos Rodrigues, gerente da Agência Ambiental de Santo Amaro da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) e o engenheiro Vicente de Aquino Neto, do setor de áreas contaminadas do mesmo órgão estadual compareceram à reunião da CPI de 1º de setembro para falarem sobre uma área de 40 mil m² onde funcionou a fábrica da Sylvânia do Brasil, que produzia tubos de televisão, lâmpadas fluorescentes e de vapor de sódio.

O terreno está contaminado por resíduos de produtos organoclorados e material radioativo e a Jetirana Empreendimentos S/A pretende construir um conjunto habitacional no local. “Analisamos a área e verificamos que não há restrição quanto à construção, somente com relação ao uso da água subterrânea. O processo de remediação será feito e é necessário um ano para verificar se as medidas tomadas funcionaram”, explicou Rodrigues.

“A precaução é o melhor caminho. Precisamos lembrar que as grandes catástrofes aconteceram por falta de precaução”, ressaltou o vereador Penna, que em abril deste ano apresentou um projeto de lei PL 210/09, que proíbe a venda de terrenos com solo contaminado em São Paulo ( http://vereadorpenna.com.br/2009/04/projeto-de-lei-2102009-proibicao-de-venda-de-terrenos-com-solo-contaminado.html ).

Depósito de material radioativo

Também está localizado na zona Sul da capital, o depósito de resíduos de material radioativo das Indústrias Nucleares Brasileiras (INB), antiga Nuclemon, que fazia a extração de monazita. No mês de junho os vereadores fizeram uma vistoria no local e verificaram que o material está corretamente armazenado, no entanto, querem resposta de quando estes resíduos serão retirados da capital paulista.

“Somos apenas o guardião depositário deste material. Quem pode responder sobre a retirada dos resíduos é o Governo Federal, por meio da Comissão Nacional de Energia Nuclear”, explicou Valter Mortágua, coordenador da unidade de São Paulo e responsável pelo local. Segundo Mortágua, já existe um plano de remediação para o terreno onde está o galpão, foram feitas mais de mil análises do solo e somente em um local foi encontrado material contaminante.

“Gostaria de agradecer o bom atendimento que tivemos na ocasião da vistoria do depósito da INB, mas o problema dos resíduos nucleares é tão sério que o mundo ficou pequeno para eles, não existe mais lugar para depositar esse material com segurança. Temos que encontrar uma solução”, disse Penna, líder da bancada do Partido Verde na Câmara.

Excepcionalmente na próxima terça-feira (08/09) não haverá reunião da CPI dos Danos Ambientais. Segundo o vereador Paulo Frange, os secretários e assessores que auxiliam os trabalhos da comissão farão um balanço dos requerimentos enviados e ainda não respondidos.

Fábia Renata (Mtb. 29.472)
Assessora de Imprensa do Vereador Penna (PV)
Telefone: 3396-4286 / 4947


FONTE: http://vereadorpenna.com.br/2009/09/predios-serao-construidos-em-terrenos-contaminados-na-zona-sul-de-sao-paulo.html

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Goiás não pode patrocinar o esquecimento do acidente do césio

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WEBER BORGES



O acidente radioativo de Goiânia — mais conhecido como acidente do césio 137 —, que provocou mortes e deixou pessoas feridas “no corpo e na alma”, completa 20 anos em setembro deste ano, daqui a quatro meses. Mesmo assim, e sabendo-se que o governo federal vai organizar um seminário internacional, em Goiás patrocina-se uma espécie de esquecimento racionalizado, denuncia o jornalista Weber Borges, que foi produtor do Goiânia Urgente (programa que pertencia à TV Goiá, associada ao SBT de Silvio Santos) e, durante três meses, assessor da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), ligado diretamente ao presidente do órgão, Rex Nazaré. “Goiás não pode patrocinar o esquecimento do acidente. Pelo contrário, pode conquistar um centro internacional de estudos a respeito do que aconteceu em sua capital em 1987.”

Aos 62 anos, autor do livro Eu Também Sou Vítima — A Verdadeira História Sobre o Acidente com o Césio 137 em Goiânia, Weber diz que é preciso escrever a história do acidente e de suas vítimas. Ele convoca as universidades do Estado a discutirem a questão e a escreverem essa história. Os dados científicos foram levantados pela CNEN e há muitas vítimas que podem contar suas histórias. “É uma história de muito sofrimento, de muita batalha, de muita persistência. Há um arquivo vivo que, depois de 20 anos, continua sendo desconsiderado.”

Weber Borges diz que uma das questões centrais hoje é melhorar o atendimento das vítimas. “Faltam medicamentos. Elas estão menos preocupadas com dinheiro do que com um tratamento adequado.”

Euler de França Belém — A CNEN continua monitorando alguns lugares onde esteve a bomba de césio?

Sim, mas não sei se o trabalho continua sendo feito de modo rigoroso.

Hélmiton Prateado — Quantas pessoas trabalham no depósito de Abadia de Goiás?

Não sei o número preciso, mas não são poucas pessoas. Quem dirige o depósito é o físico Rubemar de Souza Ferreira, que tem doutorado em engenharia nuclear.

Euler de França Belém — O sr. mantém contato com as vítimas?

Mantenho contato permanente com elas. Converso com Odesson Alves Ferreira, um sujeito coerente. Converso com Lourdes das Neves Ferreira, a mãe de Leide das Neves. Ela perdeu a filha, de 6 anos, e o marido, Ivo Alves Ferreira. O filho tem problemas graves com bebida alcoólica. Está sozinha no mundo, há 20 anos, mas, apesar de sofrer muito, resiste bravamente.

Hélmiton Prateado — O sr. trabalhou como assessor de imprensa do Rex Nazaré, da CNEN. Ele cobrava transparência?

Rex Nazaré olhava muito a questão social. No início, eu achava que ele era militar. Descobri que havia pertencido ao Partidão [Partido Comunista Brasileiro]. Rex propôs fazer o encaminhamento de todas as pessoas para a Legião Brasileira de Assistência. Para ele, não interessava se eram 20 ou 500. As pessoas “adoentadas” deveriam ser encaminhadas para a LBA, dizia o presidente da CNEN. Avaliava que um órgão federal poderia obter apoio internacional. O governo de Goiás não teve discernimento.

Hélmiton Prateado — O governo goiano preferiu criar a Fundação Leide das Neves.

Mesmo sem a autorização da mãe, o governo criou a fundação e lhe deu o nome de Leide das Neves. A fundação nasceu da noite para o dia. O conflito entre governos federal e estadual não favoreceu as vítimas do césio. Na sua despedida, Rex Nazaré fez um discurso emocionado e falou do sentimento das pessoas. A fundação no início funcionava melhor; hoje, precisa ser repensada.

Euler de França Belém — Quais são as principais reclamações das vítimas do césio?

Falta de medicamentos. Elas querem discutir mais saúde do que dinheiro. O governo do Estado dá uma ninharia às vítimas, mas a reclamação maior é a respeito do atendimento na área de saúde. A Fundação Leide das Neves atende de modo restrito. Não é brincadeira tratar de modo adequado um grupo de 300 ou 500 pessoas. Os cuidados são físicos e, devido aos traumas, também psicológicos.

Euler de França Belém — Algumas vítimas do acidente disseram ao sr. que o governo quer descartá-las?

Elas consideram que todos — os que lidaram com o acidente — querem sair do jogo e abandoná-las. Luiza Odet Mota dos Santos fez cirurgias sérias e, ao receber a informação de que precisava fazer outras, não quis mais saber. Ela considera os enxertos como uma morte. O sofrimento é intenso, pois as pessoas perderam entes queridos, a história afetiva e bens. A reconstrução de uma vida normal não é fácil. Odesson tranca-se no banheiro para chorar, solitariamente, sem que ninguém perceba. Ele era motorista da Araguarina.

Euler de França Belém — Depois de 20 anos, sempre estudando o assunto, qual é a grande história individual do acidente?

A grande história é a de Lourdes da Neves Ferreira, a mãe da menina Leide das Neves, que morreu aos 6 anos. É uma mulher sensível, fala baixinho, é uma gordinha simpática. Seu olhar brilha e, apesar de toda a tragédia que abalou sua família, ainda acredita na vida.

José Maria e Silva — As vítimas do acidente têm um líder?

Odesson Alves Ferreira é o líder. Ele batalha pelas vítimas, procura verbas e discute o assunto como conhecedor. Odesson entendeu bem o que aconteceu e se tornou um formador de opinião. Faz conferências, é integrante do Conselho Estadual de Saúde e briga pelas vítimas do acidente. Quando falta remédio, denuncia, se posiciona. Na vida pessoal, educa os filhos com muito rigor. Diz que seus filhos têm de ser exemplos.

José Maria e Silva — Por que Odesson se tornou uma pessoa tão firme?

Ele tem consciência de que precisa ser assim para obter ajuda para as vítimas do acidente. Na época do acidente, Odesson já parecia ser o mais sério dos irmãos [Devair Ferreira, falecido, era um dos irmãos]. Fui para o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, pela Varig, e Odesson não quis ir de avião. Ele disse: “Não vou de avião, pois não tenho dinheiro para pagar a passagem”. Foi de ônibus.

Hélmiton Prateado — Liderados pelo deputado José Nelto, na época vereador, populares apedrejaram o caixão de Leide das Neves, no Cemitério Parque. O sr. estava lá?

Avaliaram que a população poderia ser manipulada, o tempo todo, para o lado do mal. No início, a multidão foi agressiva, no estilo da massa, na qual o indivíduo é dissolvido e, portanto, em tese, não há responsabilidade individual. Depois, ao perceber o que estava fazendo, paralisou-se, aparentemente constrangida. Entre os líderes do apedrejamento estavam José Nelto e Ornela, líder de bairro. Em seguida, Ornela me procurou e disse que estava amargamente arrependida. É fato que os moradores do bairro não queriam o sepultamento no Cemitério Parque, porque imaginavam que todas as pessoas da região seriam contaminadas. Não estavam bem-informadas a respeito dos caixões de chumbo e das covas especiais, que foram concretadas. As famílias dos mortos não aceitaram que os corpos fossem levados para o depósito.

Hélmiton Prateado — O sr. diz, no livro, que, “queiram ou não, Goiânia é um laboratório vivo”. A frase persiste válida?

Permanece, pelo menos, por mais 280 anos.

Euler de França Belém — A história de que cresceu o número de pessoas com câncer em Goiânia em virtude do acidente radioativo não tem prova conclusiva. Não há dados científicos. Existem histórias, boatos.

Na verdade, o que falta é pesquisa científica a respeito da questão. Não há interesse em fazer pesquisas. Não há investimento. O governo do Estado e as universidades goianas não se interessam por fazer um estudo amplo a respeito. Se houvesse interesse, a pesquisa poderia ser financiada por organismos internacionais. Levei vários pesquisadores à Rua 57. Um cientista era indiano. Ele cortou e pôs num saco de plástico algumas flores de laranja e foi embora. Cadê o resultado e sua pesquisa? Ninguém, pelo menos no Brasil, sabe. Japão e Alemanha certamente têm interesse em estudar o assunto, mas não são procurados. Parece que os governos estadual e federal querem esquecer o acidente radioativo de Goiânia. Os goianos não devem patrocinar o esquecimento da tragédia, não devem negar sua própria história.

Hélmiton Prateado — Algumas vítimas do acidente foram levadas para Cuba. Quais os resultados das investigações médicas dos cubanos?

Não sei nada a respeito. Nem sei o que foram feitas das amostras. Os cubanos não repassaram informações.

Euler de França Belém — É verdadeira a informação de que sumiram os cérebros das primeiras vítimas do césio?

Não tenho prova. Mas me falaram a respeito. A informação que tenho é que um braço do Roberto Santos Alves ficou no Hospital Marcílio Dias. Acho até normal que estudem os cérebros das pessoas, mas desde que seja feito de modo transparente e que as famílias autorizem.

Euler de França Belém — O físico Luiz Pinguelli Rosa diz que há “muitas bombas de césio e de cobalto sem controle” no Brasil. Ele alerta para possíveis novos acidentes.

Uma emissora de televisão me entrevistou e eu disse que algumas universidades — em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais — têm depósito de lixo radioativo. O repórter decidiu entrevistar Luiz Pinguelli Rosa e ele disse: “Tem, mas está tudo seguro”. Ora, se dizem que tem lixo radioativo, mas não tem depósito, qual é a segurança? No caso de sua pergunta, o alerta de Pinguelli deveria ser feito de modo mais contundente.

Euler de França Belém — A mídia goiana discute a questão das vítimas, o atendimento e as pensões, mas raramente debate o acidente.

A imprensa deveria discutir o acidente de forma mais acentuada. Os jornais deveriam mergulhar na questão. Falta uma seqüência de reportagens mais sólidas. Qual o resultado da pesquisa da professora Telma Camargo da Silva, da UFG? Por que a imprensa não busca saber o resultado desse estudo? A TV Anhanguera tem um acervo do acidente ou não? Depois de 20 anos, Goiás não produziu nenhum jornalista especializado no acidente. Tenho um acervo que considero muito rico — são mais de 200 horas de fitas de vídeo. Sou muito procurado e abro meus arquivos para todos.

Euler de França Belém — Qual é o melhor livro sobre o acidente de Goiânia?

O do jornalista Fernando Gabeira não fala especificamente sobre o acidente de Goiânia, e sim a respeito da energia nuclear no mundo. O meu livro, Eu Também Sou Vítima, trata exclusivamente do acidente do césio. Há trabalhos científicos, mas de difícil acesso popular. É estranho que o país tenha se interessado tão pouco por um acidente de tal gravidade. Estive em São José do Rio Preto, num congresso de jornalismo científico, e ninguém sabia nada a respeito do acidente. Levei um susto.

Euler de França Belém — Se o responsável pelo acidente é o governo federal, que manda na CNEN, por que o promotor de justiça Marcos Antônio Ferreira Alves trabalha para que o governo de Goiás indenize e ampare, solitariamente, as vítimas da radiação?

Não sei por quê. Trata-se de uma boa pergunta. O fato é que Marcos Antônio faz um excelente trabalho em defesa das vítimas do acidente radioativo e também atua para envolver o Ministério Público Federal. Ele é um dos maiores conhecedores da história das vítimas do césio.

Euler de França Belém — O governo estadual gastou uma pequena fábula para bancar as despesas com as vítimas do césio. O ex-governador Henrique Santillo contou, e o sr. cita no livro, que Goiás gastou milhões de reais.

O governo goiano gastou muito dinheiro e não foi ressarcido. Trata-se de um debate que os políticos goianos precisam travar. Não é uma questão morta.

Euler de França Belém — No livro Eu Também Sou Vítima, o sr. registra uma grave denúncia do promotor de justiça Marcos Antônio Ferreira Alves: “Tenho depoimentos que relatam que os medidores tinham os alarmes sonoros desligados para não causar pânico nos trabalhadores”. Ele está citando as pessoas que trabalharam nos locais contaminados pelo césio.

Como o ambiente de trabalho na CNEN era militar, não se conversava. As coisas eram impostas. É muito estranho o Serviço Nacional de Informação (SNI), hoje Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), ter assento na Comissão de Energia Nuclear.

Hélmiton Prateado — Os diretores da CNEN, ao desligarem os medidores, mostraram um alto grau de irresponsabilidade.

O sistema de comunicação da CNEN deveria mudar — e muito. Fui escolhido para trabalhar na assessoria de imprensa da CNEN porque ninguém queria vir para Goiânia. Lidar com um setor que não quer se abrir é muito complicado.

Euler de França Belém — E a história de que os alarmes sonoros dos medidores de radioatividade eram desligados?

Recebi a mesma informação que repassaram ao promotor de Justiça. Os técnicos às vezes andavam com o contador gêiser desligado na rua porque o barulho incomodava as pessoas. É o que ouvi. Ressalto que, no geral, o trabalho dos técnicos era muito sério, tanto que a cidade, os pontos atingidos, foi descontaminada.

Euler de França Belém — O sr. relata a história de um chapa que denunciou que alguns tambores com o lixo radioativo estavam deteriorados. A versão do trabalhador: “Tirávamos os rejeitos do tambor furado ou enferrujado e passávamos para outro manualmente. O danificado era amassado a marretadas e colocado em uma caixa metálica. A ordem, em dia de visita, era virar os tambores enferrujados, remendá-los e pintá-los com spray amarelo ou cobri-los com lona para que as câmeras não pudessem filmá-los ou fotografá-los”.

Eu gravei imagens que provam isso. Tenho um DVD que mostra dois galões com buracos. Quando os tambores eram jogados nos caminhões, caía terra e os trabalhadores, sem orientação, pegavam com as mãos. Eu filmei — não há como negar.

Euler de França Belém — Como foi a escolha do depósito de lixo radioativo em Abadia de Goiás?

Ao perceber o caos a respeito da escolha do local definitivo para o depósito do lixo radioativo — ninguém queria ficar com o material —, políticos goianos e cientistas, depois de examinar vários locais, sugeriram uma área em Abadia de Goiás, próximo de Goiânia. Houve reações, fecharam estradas, incendiaram pneus, mas o governo Santillo agiu com firmeza. O engenheiro (de Furnas) Alfredo Tranjan Filho foi importante na escolha do local e, sobretudo, na organização do depósito.

Euler de França Belém — Qual foi o cientista, ou técnico, que ficou como símbolo do trabalho de descontaminação da cidade e do tratamento das pessoas?

Há vários cientistas e técnicos sérios. É difícil apontar apenas um. Um cientista nuclear, Alfredo, estava sempre varrendo os lugares do acidente do césio. Ele não estava varrendo barro ou poeira — e, sim, césio. A cena era muito curiosa. Um dos grandes trabalhadores era o Alfredo (não é o que varria césio) Tranjan Filho, que foi coordenador do Projeto Goiânia, da CNEN. Este é o meu “ídolo trabalhista”. Ele falava assim: “Por favor, pára de perguntar um pouco. Eu tenho de descansar”. Por uma questão de afinidade, não lhe dava trégua. Eu estava trabalhando para a CNEN, e todos os dias, às 8 horas, levava o briefing para a imprensa.

Euler de França Belém — Daqui a quatro meses, o acidente completa 20 anos. O governo goiano organizou alguma programação para discutir o acidente? As universidades vão fazer algum seminário?

Não sei. O congresso internacional da CNEN, que contará com a participação de pessoas que trabalharam na descontaminação de Goiânia e no tratamento das vítimas do césio, será realizado em outubro.

Hélmiton Prateado — A Secretaria de Saúde mantém a discussão sobre o acidente do césio ou a questão está vinculada a outra secretaria?

Deveria ser a Secretaria de Saúde, mas parece que a questão está sob o controle da Secretaria de Ciência e Tecnologia. O problema é que a Secretaria de Saúde não tem dinheiro.

Euler de França Belém — Como o sr. avalia o filme Césio 137 — O Pesadelo de Goiânia?

É um trabalho surreal. O diretor poderia ter feito um documentário-filme. O meu material é um filme, e mais fidedigno. Entrevistado por mim, Odesson Alves Ferreira conta a história das pessoas e do acidente, e eu acrescento com informações que apurei nos bastidores. Trata-se de um filme feito em VHS.

Euler de França Belém — Como as pessoas que roubaram a peça com o césio se sentiram depois de descobrir a tragédia que provocaram?

Elas avaliam que não roubaram — retiraram a peça de um lugar abandonado. Haviam passado pelo local umas quatro vezes, tentando retirar a peça, e ninguém dizia nada. Ao verem a peça, pensaram que poderiam vendê-la para um ferro-velho. Descobriram que o peso era do chumbo e disseram: “Vamos ficar ricos”. Não imaginaram que dentro da peça havia uma “marmitinha” mortal — com o césio 137 — com 15 centímetros de altura e 20 centímetros de diâmetro. Bateram até furar a peça e começaram a espalhar o pó. Para se ter uma idéia da força do césio, Roberto Santos Alves, num dos dias em que havia mexido na máquina, foi almoçar na casa de um amigo na Rua 55, no Centro, e sentou-se em um pedaço de madeira. Mais tarde, quando um carro com técnicos da CNEN passou pela rua, o medidor de radioatividade “apitou”. Tiveram que fazer um mapa dos locais por onde Roberto havia passado. O acidente do césio não é assunto apenas para cientistas e deve ser discutido pela sociedade, sobretudo nas escolas.

Hélmiton Prateado — Por que a questão é pouco debatida?

Porque se tornou assunto de cientistas, ou seja, de guetos. Procede que um laboratório afundou em Angra dos Reis? Não se sabe exatamente. Por que não se discute a irradiação de alimentos. Como se sabe, comemos alimentos irradiados há muito tempo. Isto faz bem ou mal? Se é positivo, por que não discutir o assunto de modo mais acentuado?

Euler de França Belém — Depois do governador Henrique Santillo, outros governadores se interessaram pelo assunto do césio?

A política definida em relação ao césio é a do esquecimento. De algum modo, esquecer o acidente é quase como negar que tenha acontecido — é postular que não há uma história ou que ela morreu junto com algumas das vítimas. O césio, que existe e fará parte da história do Estado por, no mínimo, mais 280 anos, poderia trazer algum benefício para Goiás? É provável que sim, sobretudo na questão da pesquisa científica. Um centro de estudos avançado teria apoio internacional.

José Maria e Silva — A intenção era fazer um centro de estudos em Abadia de Goiás.

Com a história dos 20 anos, pretendem fazer um centro de estudos.

“Ministério da Saúde é omisso”

Euler de França Belém — A respeito das vítimas, o que ainda é preciso discutir?

O atendimento médico. O Ministério da Saúde até hoje não participou, diretamente, do atendimento às vítimas. A questão não pode ser administrada tão-somente pela Secretaria de Saúde de Goiás. Não se sabe o que vai acontecer com algumas pessoas que de algum modo tiveram contato com o césio, mesmo assim, não se sabe por quê, o Ministério da Saúde não se manifesta. O governo federal tem sido omisso.

Euler de França Belém — As vítimas do césio são atendidas no Hospital Geral de Goiânia. Elas têm prioridade?

São atendidas no HGG, e têm prioridade. Mas reclamam, com razão, que faltam medicamentos. O problema de medicamentos é, infelizmente, geral. O centro de saúde Juarez Barbosa, que fornece remédios de alto custo, é uma calamidade.

Euler de França Belém — As vítimas do acidente continuam se reunindo na associação?

Continuam. Elas sabem que se trata de uma luta para a vida toda. Odesson Alves Ferreira é quem comanda a batalha.

Euler de França Belém — Quantas pessoas participam da associação?

Não tenho o número preciso. Sei que mais de 600 pessoas recorreram ao Ministério Público para receber algum apoio do Estado — pensão ou assistência médica. Não sei se todos são associados.

“Cadê os arquivos do césio?”

Euler de França Belém — Depois de 20 anos, o que o sr. avalia que falta discutir a respeito do acidente?

É preciso criar uma norma de comunicação a respeito da questão da radioatividade-nuclear. Se houver um novo acidente, como se portar, como comunicá-lo? Não se sabe, pois não há quaisquer regras. Em Goiânia, houve um pandemônio: cada setor dizia uma coisa, o que gerou pânico. Também é importante comunicar à sociedade o que se descobriu e o que se fez em Goiânia. A cidade foi descontaminada? Sim, mas como foi feito o trabalho?, cadê sua história?, qual é a situação das vítimas? Depois de 20 anos, temos informações dispersas, não conectadas. A falta de uma história do acidente, com fartura de dados oficiais, que existem em algum lugar, é, de certo modo, uma forma sutil de negar o acidente. Ou melhor, de suavizar o que aconteceu, de não admitir sua gravidade. Os jornais perguntam sobre os arquivos da Guerrilha do Araguaia — e eu pergunto: cadê os arquivos do césio?

Euler de França Belém — A CNEN organizou, pelo menos para consumo interno, a história do acidente radioativo?

Espero que tenha organizado. Pelo menos tem muitos dados reunidos por uma equipe de cientistas do primeiro time. Além de ter um excelente capital humano. Rex Nazaré permitiu que eu filmasse até a reunião de avaliação do acidente. Gravei 20 fitas do encontro que congregou cerca de 400 pessoas. As fitas são um registro da história do acidente.

Hélmiton Prateado — Por que os dados obtidos pelo sr., durante a reunião, não foram comunicados publicamente pela CNEN?

Não sei se por uma questão de censura, falta de visão ou outro motivo. Ao gravar as informações, com a anuência de Rex Nazaré, meu objetivo era montar um documentário e mostrar nas escolas. Rex Nazaré gostou da idéia e prometeu me ajudar. Gravei as fitas, que resultam num documentário fabuloso, mas não consegui organizar o projeto de mostrá-lo nas escolas.

Euler de França Belém — Na Ucrânia, há pelo menos uma história oficial, escrita, do acidente de Chernobyl. No caso de Goiás, é provável que haja uma história oficial para consumo interno da CNEN. Por que essa história não vazou?

A história escrita da CNEN, que foi enviada para Viena, para a Agência Internacional de Energia Nuclear, vazou, mas não alcançou repercussão pública. A história comporta várias versões ou interpretações.

Hélmiton Prateado — Quais versões?

Você pode achar estranho, mas a história contada por um físico nuclear do Nordeste é diferente da história relatada por um físico nuclear de São Paulo ou do Rio de Janeiro. Um físico nordestino tende a enriquecer as histórias de modo diferente do estilo seco ou objetivo de um paulista. Um deles conta que ficou esperando os porcos contaminados morrerem e, como eles demoravam a morrer, ficou agoniado. “Não havia nenhuma cerveja para a gente tomar”, contou ele, num conclave internacional. Eu pretendo editar um segundo livro sobre a história do césio.

José Maria e Silva — No lugar da CNEN, o sr. não acha que o governo do Estado e as universidades de Goiás, como a UFG, deveriam adquirir seus arquivos para contribuirem para pesquisas e estudos sobre o acidente radioativo?

Há alguns anos, inscrevi meu material no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), na Cidade de Goiás. Ganhou um indivíduo da Universidade Católica que produziu um vídeo a partir dos meus arquivos, e eu, estranhamente, perdi. O cineasta João Batista de Andrade assumiu o comando do Fica e, por isso, coloquei meus vídeos à sua disposição. Não quero competir, mas o material pode ser exibido numa mostra paralela.

Euler de França Belém — O que os cientistas disseram de seu livro?

Alguns disseram “não é nada disso”, ou “há uma série de coisas a serem revistas”. Mas não contestaram as informações cruciais. Metade do livro é composta de histórias que os próprios cientistas contaram. Não inventei nada. Colhi e publiquei as histórias.

Euler de França Belém — O que o sr. disse aos cientistas que o questionaram?

Ao preparar a segunda edição, pedi que enviassem textos apontando os problemas do livro. Expliquei que publicaria os questionamentos integralmente. Até agora, não mandaram nada.

“Vítimas têm medo de filhos nascerem com problemas”

Euler de França Belém — A oncologista Maria Paula Curado é um mito ou tem um trabalho relevante na questão do atendimento às vítimas do césio?

Maria Paula trabalha com seriedade e dedicação. É reconhecida internacionalmente. Eventualmente, abre mão de posições que poderia manter com mais energia.

Hélmiton Prateado — O sr. quer dizer que, às vezes, Maria Paula é “omissa” ou falta-lhe energia?

Ao ser confrontada com problemas expostos pelas vítimas do césio, Maria Paula, por ter cargo político, absorve orientações políticas. Noutras palavras, é representante do governo, não das vítimas do acidente radioativo. Repito, a Paulinha é uma médica competente e de uma seriedade inquestionável.

Euler de França Belém — A médica Maria Paula Curado disse: “Não possuímos aparelhos para dosificar o que talvez permaneça no corpo das vítimas 15 anos depois, e esse é um dos desafios”. Depois de 20 anos, o que aconteceu?

Não tenho competência técnica para discutir a questão. Mas vou consultar o físico Carlos Alberto Nogueira de Oliveira, que está em Viena, a respeito do assunto.

Euler de França Belém — Maria Paula disse também: “O grande mistério é identificar qual o dano genético provocado pela contaminação e o que essa mutação pode causar”.

Os cientistas e médicos deveriam acompanhar com mais atenção o que está acontecendo com as vítimas do césio e seus filhos. Há casos de má formação genética, mas não são suficientemente estudados. Pode-se dizer que há até certo descaso. Faço também uma pergunta: cadê os médicos que lidaram com as vítimas? Eles só aparecem na época de congressos, atualizam alguns dados — e só.

Euler de França Belém — Cito a oncologista Maria Paula mais uma vez, dada a importância do que expõe: “Aos que apresentaram altas doses de contaminação, recomendávamos evitar filhos. Ainda temos vítimas dessas altas doses que desejam filhos, mas não podem porque ficaram estéreis após o acidente. A radiação deixou cinco homens estéreis”. No livro, o sr. conta histórias de pessoas que tiveram filhos sem problemas.

Conheço pessoas que tiveram filhos normais. Mas há também problemas. Relato o caso de homens estéreis, de policiais militares com câncer.

Euler de França Belém — O sr. vivenciou o drama das famílias que queriam ter filhos mas não podiam?

Alguns me diziam que tinham medo do filho nascer aleijado.

Euler de França Belém — O sr. registra, no livro, dois casos de famílias cujos filhos nasceram com problemas sérios de má formação. Uma das crianças morreu.

Todos têm a “neura” de que o filho vai nascer aleijado. Eles fazem a mesma pergunta aos médicos: “Devo ou não ter filhos?”. Os médicos não têm como responder com precisão à pergunta.

Euler de França Belém — O homem Weber Borges se tornou mais rico, em termos humanos, depois de cobrir o acidente e, sobretudo, de não ter deixado de conviver com as vítimas do césio?

Há o Weber a.c. e o Weber d.c. Ou seja, antes e depois do acidente do césio. Não estou me comparando com Jesus Cristo [risos]. Sempre fui sensível, molengão, mas, sim, passei a ouvir mais as histórias dos outros, a entender suas dores. É impossível não se emocionar ao ouvir os depoimentos das pessoas. Elas são profundamente verdadeiras e doloridas. Há pouco tempo, aconteceu um fato curioso. Eu estava numa festa e uma morena linda não parava de me olhar, e comecei a pensar “será que hoje estou mais bonito?”. Na verdade, a morena era filha de uma pessoa contaminada pelo césio. Nos meus vídeos, verifiquei que, quando tinha uns 7 anos, ela me disse: “Moço, veja o que minha mãe pintou no muro da nossa casa”. O muro estava cheio de palavrões contra o governo. A criança era inocente.


FONTE: http://www.jornalopcao.com.br/index.asp?secao=Entrevistas&idjornal=240

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