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Relatório sobre os impactos da exploração de urânio será lançado em Caetité e Lagoa Real

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O Impacto Radiológico da Mina de Urânio da INB em Caetité (BAHIA/BRASIL) é o título do relatório sobre a investigação dos impactos ambientais da exploração de urânio feita pelo engenheiro em física nuclear, Bruno Chareyron, da França, que será lançado no próximo fim de semana em Lagoa Real e Maniaçu, distrito de Caetité. O documento será lançado também na sede do município, segunda-feira (28 de setembro), às 9h, no auditório da UNEB, num evento aberto ao público promovido pela Comissão Paroquial de Meio Ambiente (CPMA).
Bruno Chareyron dirige o laboratório da Comissão de Pesquisa e Informação Independente sobre a Radioatividade (CRIIRAD), sediado na França, instituição não vinculada ao governo, aos operadores de energia nuclear e a partidos políticos, que atua com sete engenheiros e técnicos especializados em medição de radiação no ambiente. O objetivo da CRIIRAD é melhorar a informação e a proteção das pessoas contra os efeitos das radiações ionizantes. Por isto mesmo, o cientista francês veio avaliar a atividade nuclear na Bahia, num projeto de cooperação internacional vinculado ao projeto EJOLT, coordenado pela Universidade Autônoma de Barcelona e realizado em parceria com a FIOCRUZ, Movimento Paulo Jackson, CPT e CPMA e apoio da instituição alemã Médico Internacional.
 AVALIAÇÃO DA CONTAMINAÇÃO  
O trabalho investigativo da CRIIRAD incluiu duas viagens a Caetité, (2012 e 2014), quando o cientista francês participou de uma oficina sobre monitoramento comunitário, coletou amostras de solo, de águas, subterrânea e de chuva, e fez medição de radiações ionizantes, em áreas afetadas por atividades de prospecção e em locais potencialmente atingidos por poeira, ou contaminados por infiltração. Também ministrou treinamento de monitoração ambiental a trabalhadores da INB e a moradores do entorno da mina de urânio. As amostras de água e solo foram analisadas pelos laboratórios CRIIRAD, LDA26 e EICHROM (todos franceses)

O primeiro lançamento será em Lagoa Real sábado próximo (26 de setembro) às 9 horas, no Centro Pastoral da  Lagoa Real . No domingo seguinte (27 de setembro) acontecerá em Maniaçu, também as 9 horas, na subsede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Caetité, naquele distrito. Os três eventos contarão com a presença do doutor em Saúde Pública pela FIOCRUZ, Renan Finamore, que apresentará sua tese Riscos, saúde e alternativas de produção de conhecimentos para a justiça ambiental: o caso da mineração de urânio em Caetité, BA”.  Renan participou do trabalho da CRIIRAD e em sua tese, concluída este ano, faz uma reflexão crítica sobre a importância da produção de conhecimentos, que valorizem e incorporem o saber das pessoas atingidas por processo industriais, a fim de possibilitar uma compreensão melhor e contextualizada dos riscos tecnológicos complexos e suas implicações para o ambiente e a saúde humana.
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Pesquisa confirma danos causados pela exploração de urânio na Bahia

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por: ZoraideVilasboas

A série de apresentações do “Relatório da Missão Caetité: Violações de Direitos Humanos no Ciclo do Nuclear”, que expõe os danos causados pela exploração de urânio na Bahia, começou em Salvador, prosseguiu em Caetité, município situado a 750 Km da capital baiana, e culminou em Vitória da Conquista, onde novo estudo também evidenciou a gravidade dos prejuízos denunciados pela Plataforma Dhesca Brasil (Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais), autora da Missão Caetité.

O relatório foi apresentado em Salvador, no Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia, pela socióloga da PUC-SP, Marijane Lisboa, relatora do Direito Humano ao Meio Ambiente da Plataforma Dhesca, como atividade do projeto “Geografando nas Sextas: o Campo Baiano em Debate”. Pesquisadores, estudantes, docentes e ambientalistas debateram os prejuízos causados à saúde de trabalhadores, da população, ao meio ambiente e à economia local pela Indústrias Nucleares do Brasil (INB) que, desde 2000, produz em Caetité o concentrado de urânio, principal matéria prima do fabrico do combustível para as usinas atômicas de Angra 1 e 2 (RJ).Durante o evento, o setor nuclear brasileiro foi criticado, principalmente pelo desrespeito a direitos fundamentais, que caracteriza a atuação da empresa na Bahia, onde prevalece a desinformação da população sobre os riscos à saúde, associados à contaminação radioativa. Na controvérsia sobre a política nuclear, a maioria dos presentes se posicionou contra a exploração da tecnologia nuclear para fins de produção de energia elétrica e pelo fim do Programa Nuclear Brasileiro. O relatório Dhesca sustenta que todos os programas nucleares, apesar de declarados pacíficos, são biombos para programa nuclear militar e, como nos demais países, o programa do Brasil nasceu na caserna. Portanto, “considerando todos os riscos envolvidos, desde a mineração e o processamento de urânio na Bahia, até a insegurança das usinas, o governo deve abrir um amplo debate com a sociedade para decidir se deve insistir com o Programa Nuclear Brasileiro”, disse Marijane.

Em Caetité, a apresentação do relatório finalizou as atividades do Novembro Amarelo, promovido por entidades e movimentos sociais, com o fim de chamar a atenção da sociedade para os principais problemas sócio ambientais que vem afetando a região. Em ato público, populares, trabalhadores e estudantes marcharam do Cemitério à praça da Catedral, onde mais uma vez, houve críticas ao descaso da empresa e à falta de transparência da empresa. O presidente do Sindicato de Mineradores (Sindmine) José Santana declarou: “se não abrirmos os olhos para a INB, ela fechará os nossos. Não para dormir. Mas, para o sono eterno”. Em debate, na Rádio Educadora, Marijane ressaltou a importância do trabalho da Plataforma, que atua com apoio da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão e cumpre importante papel no monitoramento, mediação e promoção de Direitos Humanos no Brasil.

Ameaça de contaminação

O relatório da Missão Caetité foi divulgado durante o Seminário Regional em Saúde do Trabalhador, promovido pelo Centro de Referência em Saúde do Trabalhador de Vitória da Conquista, onde a antropóloga Cláudia d’Arede apresentou o resultado parcial da investigação sobre “Percepções de risco relacionadas á exploração do urânio em Caetité e Lagoa Real”. O estudo demonstrou a falta de confiança de comunitários e trabalhadores nas informações prestadas pela INB sobre o risco de contaminação da mineração.

Segundo a pesquisa, os moradores apontam a falta de água nas nascentes, o aumento dos casos de câncer na população, de tumores nos animais e a desvalorização da terra como principais consequências da exploração do urânio. Já os trabalhadores consideram o treinamento em radioproteção insuficiente e apontam a ameaça de contaminação por radiação, como principal motivo de insegurança. Para eles, o maior risco sofrido no meio ambiente do trabalho ocorreu em maio deste ano, num episódio que ficou conhecido nacionalmente, quando uma revolta popular tentou impedir a entrada em Caetité de uma carga de material radioativo. O concentrado de urânio estava em tambores lacrados há 30 anos na Marinha, em São Paulo. Os trabalhadores da INB foram obrigados a trocar o produto para novos tambores, de forma improvisada e precária, sem a segurança necessária para quem trabalha com material radioativo. Eles consideram esta exposição à radiação como o maior risco de contaminação que sofreram, pois não foram treinados para a função.

Nos três eventos (25 a 28/11/11) trabalhadores e moradores vizinhos da mina criticaram a incompetência e irresponsabilidade dos dirigentes da INB. Em depoimentos contundentes, a presidenta da Associação da Comunidade de Riacho da Vaca Elenilde Cardoso, o Padre Osvaldino Barbosa, e o diretor do Sindmine, Francelino Cabeleiro, ressaltaram os problemas que enfrentam, exigindo urgente intervenção dos poderes públicos, em especial das áreas de saúde e trabalho. Declararam medo da água contaminada e do aumento de mortes por câncer. Revelaram que a água, controlada e consumida em grande quantidade pela INB, secou os poços na região, prejudicando aqueles que praticavam a agropecuária, e que vivem hoje de aposentadorias e benefícios sociais, porque sua vida econômica praticamente acabou. Afirmaram que enfrentam fatores de alto risco, desde respirar poeira radioativa, gás radônio, até tomar água contaminada, e que, apesar da empresa não dialogar com a sociedade, vão continuar buscando esclarecimentos e exigindo respeito aos seus direitos.

As duas pesquisas trazem recomendações importantes para os órgãos competentes buscarem resolver os problemas que afligem populações de Caetité, Lagoa Real e Livramento. Entre as principais recomendações da Dhesca Brasil estão: a) análise das águas por dois laboratórios (um credenciado pela CNEN e outro, independente, do exterior), a fim de comparar os resultados e tirar a dúvida sobre a contaminação; b) que os Ministérios da Ciência e Tecnologia, da Saúde e do Trabalho formem, de imediato, um grupo de especialistas de órgãos públicos, universidades federais e centros de pesquisa para elaborar um Plano de Monitoramento, Vigilância e Atenção à Saúde dos Trabalhadores e dos Moradores do entorno da mina e c) que seja feita uma auditoria independente e multidisciplinar para averiguar todos os aspectos referentes ao funcionamento da INB em Caetité.
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Carta de Caetité aos Senadores

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Salvador, 28 de março de 2011

Senhor@s  Senador@s,
Somos de Caetité, na Bahia, onde funciona a única mineração de urânio em operação no Brasil, que produz a matéria prima da produção do combustível nuclear destinado à central nuclear de Angra dos Reis.

Como representantes do Movimento Paulo Jackson – Ética, Justiça, Cidadania, tentamos acompanhar, por mais de uma década, os problemas sócio ambientais causadas pela mineração de urânio no sudoeste baiano. E por isto, estamos acompanhando os desdobramentos da catástrofe nuclear do Japão, que a Europa já denominou de apocalipse atômico.

Alguns aspectos dos desdobramentos desta crise no Brasil tem nos chamado a atenção.

Trataremos aqui, somente da insegurança nuclear. Vem sendo repetido à exaustão, na grande mídia, que estamos em segurança, pois dificilmente assistiremos maremotos ou terremotos jogar por terra o discurso da profissionalização, comprometimento, eficiência técnica, da competência gerencial, do altíssimo grau da segurança da tencologia nuclear das usinas cariocas. Como se tragédias, como a japonesa, de conseqüências ainda não contabilizadas para o mundo, somente pudessem ser causadas por fenômenos  naturais.

Este foi também o enfoque que predominou na audiência conjunta promovida pelas comissões de Serviços de Infraestrutura (CI), de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT) e de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle (CMA) deste Senado.

Ali também vimos, com preocupação, as usinas nucleares serem tratadas como se fossem equipamentos altamente sofisticados, com tecnologia de última geração,  originados em alguns laboratórios de alta qualificação, capazes de produzir, monstrengos autosuficientes, por si só capazes de gerar a energia “do futuro”, independente de uma cadeia produtiva que também tem sérios riscos para a humanidade.

Segundo o Jornal do próprio Senado, nenhum debatedor referiu-se aos perigos do ciclo da produção da energia nuclear no Brasil, que começa exatamente em Caetité, onde existem fartos relatórios técnicos, sociais  e oficiais, do TCU, do Ministério Público  Federal (que tem um GT dedicado à questão nuclear brasileira), da AFEN, da própria Câmara dos Deputados, mostrando os prejuízos sócio ambientais causados pela mineração de urânio iniciada em 2000. São mais de 11 anos de funcionamento, com registro de mais de 10 acidentes, incidentes, ou como o setor nuclear chama de ENUS (eventos nucleares usuais), até hoje não satisfatoriamente apurados. Se todos estamos, vivendo um pesadelo, ao ver aquela nuvem de fumaça radioativa que saem dos reatores derretendo no Japão, em Caetité também temos uma nuvem radioativa, esta formada pela poeira e o gás atômico liberados na atividade mineradora.

Em 2000, a Associação dos Fiscais em Radioproteção e Segurança Nuclear fez um relatório mostrando as possibilidades de ocorrência de acidentes nucleares e radiológicos no Brasil devido à fragilidade da fiscalização e à falta de estrutura do Sistema de Radioproteção e Segurança Nuclear (SIPRON), para garantir a segurança nas instalações radioativas no país, trazendo informações preocupantes de um setor, sobre o qual o estado tenta impor um sigilo inaceitável, alegando ser estratégico, de segurança nacional.
Dois anos depois, em 2004, os fiscais da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) confirmaram as fragilidades, apontadas em 2000, num trabalho que levou a Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados a investigar e publicar, em 2006, o relatório Fiscalização e Segurança Nuclear no Brasil, que demonstra a falta de estrutura do SIPRON e afirma que o estado brasileiro não tem condições de garantir segurança nesta atividade de alto risco para a população e o meio ambiente. Citamos relatórios de 11, de 6 anos, porque, infelizmente, a situação permanece a mesma.
O relatório da Câmara demonstra as vulnerabilidades do Programa Nuclear Brasileiro; a fragilidade da fiscalização, já que a CNEN, proprietária das principais instalações nucleares e radioativas do País, atua como “fiscal de si mesma; as irregularidades que envolvem o funcionamento da INB, em Caetité e a omissão e a conivência do IBAMA, para com a atividade atomica na bahia, que apresenta altos riscos para a população e o meio ambiente.
Como ocorre no plano nacional, os dirigentes locais da empresa sustentam o discurso da competência, da excelência da tecnologia nuclear, mas, na prática, a realidade é bem diferente. Um parecer do TCU, de 2009, afirmou que as sansões impostas pela CNEN são inoquas e o monitoramento das correções dos erros não é suficientemente coercitivo (coativo) permitindo que instalações nucleares e radiológicas continuem operando mesmo com problemas. O fato é que já existe farta documentação sobre a complexidade dos problemas registrados, evidenciando os perigos a que estão expostos os trabalhadores e as comunidades que vivem sob a influencia direta da mineradora.
Como ficamos sabendo que o Senado decidiu visitar as usinas de Angra dos Reis, estamos solicitando que V. Sas. façam também uma visita a Unidade de Concentrado de Urânio em Caetité, operada pela INB e controlada pela CNEN. Mas pedimos também que não se limitem a ouvir os dirigentes da empresa operadora, sobre os quais, aliás, como os dirigentes da CNEN, que estariam sendo demitidos, pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, pesam graves acusações. O ministro teria ficado chocado ao saber que quatro reatores nucleares utilizados para pesquisa funcionam sem licença, em três campi universitários e que Angra 2 opera há mais de uma década sem a "autorização de operação permanente". Não se tem noticia se foi concedida esta autorização para a unidade de extração e produção de urânio em Caetité, pois a CNEN, contrariando vinha renovando esta autorização por mais de 9 vezes, contrariando suas próprias normas de segurança, que so prevêem esta renovação duas vezes.  É por esta, e outras razões, que estamos requerendo que ouçam também a sociedade civil, as entidades e os movimentos sociais que conhecem bem a situação de Caetité e Angra dos Reis, bem como os ficais em radioproteção para terem um panorama mais real sobre os preocupantes problemas do setor nuclear brasileiro.
Contando com o apoio de tod@s vocês, despeço-me agradecendo a atenção,

Zoraide Vilasboas
Coordenação de Comunicação


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ASSOCIAÇÃO MOVIMENTO PAULO JACKSON-Ética, Justiça, Cidadania
Sede – Sind. dos Trab. em Água e Esgoto da Bahia (Sindae) Rua Conselheiro Spínola, 2, Barris
CEP 40070130 – Salvador-Bahia, E-mail: 
assmpj@gmail.com Tel:  99984503– Fax: 31112745
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Baianos dizem não à energia nuclear

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No belo entardecer da Praça Castro Alves, na capital baiana, “o poeta dos escravos” testemunhou uma comovente homenagem hoje, quando milhares de participantes do XI Grito da Água fizeram um minuto de silêncio em solidariedade às vitimas do terremoto japonês e aos afetados pela contaminação radioativa da usina atômica de Fukushima, que já alcança países da Europa e dos EUA. Na praça, cantada em prosa e verso, símbolo e cenário de episódios importantes da história e da cultura da Bahia, foi encerrada a manifestação do Dia Mundial, Estadual e Municipal da Água, que busca conscientizar a sociedade para abraçar as lutas “em defesa da água e do meio ambiente”.


Ali também, mais uma vez, dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores em Água Esgoto, promotor do evento, destacaram a grave situação dos baianos de Caetité, afetados pela única mineração de urânio em operação no Brasil, onde se produz a matéria prima para a fabricação do combustível das usinas atômicas do Rio de Janeiro. Por causa da catástrofe nuclear japonesa, cujas conseqüências ainda estão sendo calculadas, o Grito da Água funcionou como um levante contra o uso da energia nuclear no Brasil. As falas antinucleares e em defesa da exploração de energias limpas e renováveis começaram no inicio da manifestação, em frente ao Teatro Castro Alves, no Campo Grande, prosseguindo durante a caminhada por ruas do centro da cidade até o ponto final do ato.

Animada por dois carros de som, com presença marcante de muitos jovens, crianças, estudantes, baianas, bonecos gigantes, representantes de diversas organizações e movimentos sociais da capital e do interior, os manifestantes se posicionaram, com vigor, contra a usina nuclear na Bahia. Este foi o tema predominante durante a caminhada, que salientou a preocupação das populações de Caetité com a insegurança da mineração, a contaminação da água e do solo e o aumento dos casos de câncer na região e dos prejuízos sócio ambientais.

O que acontece no Japão hoje, infelizmente tendo como pano de fundo uma extraordinária tragédia humana e econômica, representa um dramático alerta para toda a humanidade sobre os perigos da energia nuclear. Os manifestantes desfilaram com um imenso balão com inscrição contra a implantação de usina nuclear na Bahia e uma faixa complementando que os baianos não querem “este perigo”.





Zoraide Vilasboas
Coordenação de Comunicação

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ASSOCIAÇÃO MOVIMENTO PAULO JACKSON-Ética,Justiça,Cidadania

Sede – Sind. dos Trab. em Água e Esgoto da Bahia (Sindae)

Rua Conselheiro Spínola, 2, Barris, CEP 40070130 – Salvador-Bahia,

e-mail: assmpj@gmail.com Tel: 9998 4503 – Fax: 3111 2745
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Mina de urânio pode transformar Caetité em cidade fantasma

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12 de janeiro de 2011   Da Rádio Agência NP


Nos primeiros dias do governo Dilma, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, anunciou que pretende aprovar ainda neste ano o projeto para a construção de quatro novas usinas nucleares. Atualmente, o país possui duas usinas, ambas localizadas em Angra dos Reis (RJ).

Essa retomada do programa nuclear vai aumentar a demanda por urânio.  No município de Caetité (BA) está localizada a única mina em operação no Brasil. No final de 2010 a Plataforma Dhesca denunciou que a população do município convive com níveis de radiação 100 vezes maiores que a média mundial. A INB (Indústrias Nucleares Brasileiras) negou a contaminação, baseada num estudo encomendado da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

Em entrevista à Radioagência NP, a integrante da Plataforma Dhesca, Cecília Mello, revela as violações de direitos identificadas durante a visita que fez a Caetité. Ela relata o caso de Poços de Caldas, em Minas Gerais, que passou de pólo turístico a cidade fantasma depois da exploração do urânio. Por fim, demonstra preocupação com a futura mina, em Santa Quitéria (CE), que já apresenta irregularidades no licenciamento ambiental.

Leia abaixo a entrevista concedida à Rádio Agência NP.

Radioagência NP: Cecília, o que você constatou na visita a Caetité?
Cecília Mello: O quadro é de temor, angústia, incerteza por parte da população. O relato dos moradores é que está havendo uma incidência de câncer desproporcional. Conversamos com um médico de um hospital da região que se mostrou preocupado com a quantidade de diagnósticos que ele tem feito de neoplasias, de cânceres em pessoas entre 30 e 40 anos.

RNP: Como você analisa o estudo de um pesquisador da Fiocruz que nega qualquer relação entre a exploração de urânio e os casos de câncer?
CM: Como você vai tirar qualquer conclusão, se tem uma base de dados com 1/3 dos óbitos, no mínimo, que você não sabe qual é a causa. O quadro de desinformação é grave. O fato de as pessoas saírem do município para buscar tratamento em Vitória da Conquista, em Salvador ou em São Paulo faz com que a gente não consiga rastrear o que está acontecendo com a saúde da população. Se você tem algum problema e vai para São Paulo, você diz que é morador local para ter atendimento. É preciso ser feito um estudo epidemiológico consistente para acompanhar os riscos que a população está submetida.

RNP: Que medidas devem ser adotadas para amenizar os impactos sofridos pelos moradores que vivem no entorno da mina?
CM: Essa população tem que ser indenizada porque eles sofrem os impactos não só na saúde. A gente viu casas completamente rachadas. Caetité faz parte do semiárido, mas como todos sabem, o semiárido brasileiro é um dos mais chuvosos do mundo. Eles têm técnicas de construir cisternas e guardar essa água. Ali se produzia arroz, que é uma cultura que demanda muita água. Hoje, a produção está muito reduzida, estigmatizada, ninguém quer comprar mandioca, gado, leite e queijo da região.

RNP: Atualmente, que tratamento é dado ao lixo nuclear no Brasil?
CM: Essas minas duram de dez a 20 anos. Em Caetité a previsão é de 16 anos. Ou seja, depois que a exploração termina a população fica com o passivo. E Poços de Caldas [MG] tem um agravante porque depois do esgotamento do urânio a região se tornou uma espécie de “bota-fora” do nuclear brasileiro. O lixo radioativo é um problema não resolvido pela indústria nuclear. Não existem depósitos permanentes no Brasil, todos são temporários, mas acabam se mantendo ad infinitum.

RNP: Que impactos a extração de urânio provocou em Poços de Caldas?
CM: O caso de Poços de Caldas, que era uma região turística conhecidíssima, muito valorizada no Sudeste, um lugar onde os noivos iam passar a lua-de-mel hoje em dia está totalmente abandonada. Eu tive a oportunidade de passar por lá e parece uma cidade fantasma. Hoje o que se vê é um legado, um impacto sobre a saúde da população grave a ponto de duas vereadoras da região denunciarem a incidência de câncer desproporcional em relação ao resto do estado de Minas Gerais.

RNP: Caetité pode ter o mesmo destino?
CM: Teme-se que Caetité se torne uma nova Poços de Caldas. Por isso a nossa atenção especial a esse caso. Não é possível que o Brasil, que tem uma legislação ambiental supostamente avançada, continue investindo ou estimulando atividades que expõem o meio ambiente e a saúde da população a riscos que já deveriam ter sido superados.

RNP: As construções das novas usinas nucleares anunciada pelo governo federal podem agravar o problema?
CM: Com a retomada do programa nuclear brasileiro se configurou a intensificação das atividades de mineração, não só lá em Caetité, mas em Santa Quitéria (CE), que promete ser a próxima mina de urânio. Estamos muito preocupados e atentos ao licenciamento dessa mina de urânio, que foi feito pelo órgão estadual de maio ambiente, o que é ilegal porque todas as atividades que têm a ver com o ciclo nuclear devem passar obrigatoriamente pela esfera federal, pelo Ibama.
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Caetité pede atenção

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Localizada a 750 quilômetros de Salvador (BA), Caetité vive as consequências da exploração de uma mina de urânio na cidade que tem rendido problemas como o aumento do custo de vida e, ainda, contaminação da água da qual 46 mil pessoas utilizam diariamente. "Entre os problemas principais estão o aumento da incidência de câncer, o potencial de drenagem ácida no sítio da mina e a preocupação com o futuro, pela convivência com uma indústria que já rendeu para Caetité o estigma de região radioativa e futuro depósito de lixo atômico, afugentado turistas e estudantes", explica Zoraide Vilas Boas, presidente da Associação Movimento Paulo Jackson, em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail.

Zoraide nos conta sobre os incidentes que já ocorreram na mina, como estes são apresentados à comunidade e que tipo de problemas a médio e longo prazos a convivência com a mina estão trazendo para toda a população da cidade. "A população passou a temer mais os efeitos da mineração na saúde, a partir de 2005, quando as Indústrias Nucleares do Brasil - INB admitiram que não faziam o monitoramento da saúde dos trabalhadores e dos moradores do entorno da mina, descumprindo a condicionante do licenciamento ambiental", conta ela.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual a situação da mina de urânio localizado na cidade de Caetité (BA)?

Zoraide Vilas Boas – 
Não saberia dizer, com precisão, a situação da mina, porque a marca registrada do setor nuclear – de falta de transparência, de diálogo, de informação – não é diferente na Bahia, onde as Indústrias Nucleares do Brasil (INB) exploram urânio há mais de dez anos. Subordinada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, a INB é uma sociedade de economia mista que atua com produtos e serviços relacionados ao ciclo do combustível nuclear. É controlada pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), proprietária e, ao mesmo tempo, fiscal das principais instalações nucleares e radioativas do país. Assim, os poderes públicos, a imprensa, a sociedade não têm livre acesso ao que se passa na Unidade de Concentrado de Urânio (URA), que fica em Caetité, no sudoeste baiano.

O que sabemos é que a URA não consegue se enquadrar nas normas de radioproteção e segurança, nacionais e internacionais; que foi acusada de imperícia e negligência pela própria CNEN, que já parou sua produção inúmeras vezes para consertar erros do projeto de engenharia e que acumula várias queixas trabalhistas na Justiça, sendo réu em duas Ações Civis Públicas, propostas pelos Ministérios Públicos Estadual (MPE) e Federal (MPF), em 2009. Só em 2010 a empresa barrou duas visitas às suas instalações: uma da deputada do PV alemão, Ute Koczy, porta-voz do partido para assuntos relacionados à política de desenvolvimento. Em agosto, ela veio conhecer detalhes e efeitos socioambientais do Programa Nuclear Brasileiro e das representantes da Relatoria do Direito Humano ao Meio Ambiente, da Plataforma Dhesca Brasil (Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais). E também barraram a visita da socióloga Marijane Lisboa, professora da USP, e da antropóloga Cecilia Mello, que tentaram conhecer a mineração, em julho passado.

A mina fica no distrito de Maniaçu, sertão da Bahia, entre os municípios de Lagoa Real e Caetité, a 750 quilômetros de Salvador, capital do estado. Caetité tem mais de 46 mil habitantes, sendo 40% na zona rural. Lagoa Real tem cerca de 14 mil, com 80% na zona rural. Ali, o urânio é extraído do minério, purificado e concentrado em forma de sal amarelo, que vai para o Canadá, onde é convertido em gás, seguindo para enriquecimento em países europeus e volta à Fábrica de Rezende (RJ), onde se conclui a geração do combustível para as usinas Angra I e II (RJ).

Apesar da tentativa de impor que o setor nuclear seja estratégico, de segurança nacional, o que justificaria sigilo total sobre suas atividades, os movimentos e entidades sociais e populares têm conseguido reagir contra a manipulação da informação pelo setor, a omissão dos poderes públicos fiscalizadores e a falta de controle social sobre a URA. Hoje, por exemplo, embora não se tenha conhecimento de comunicado oficial aos órgãos públicos, ou à sociedade, sabemos que a produção está parada desde julho passado.

Sindicalistas revelaram que isto aconteceu pela “inoperância e incompetência” dos gestores, responsáveis por “uma série de barbeiragens administrativas, onde o que se viu foi uma completa falta de entendimento entre a CNEN e a INB. Ninguém cobrava de ninguém a responsabilidade e a situação se agravou ao ponto de gerar um prejuízo imenso aos cofres públicos”. Falaram ainda que isto é parte de um plano “ardiloso e vil” para privatizar a empresa, mas não informaram os motivos da paralisação. Segundo comentários extraoficiais, um vazamento de solvente químico (ácido sulfúrico e outros) para o solo, de proporção ainda desconhecida, levou a paralisação para reconstruir a unidade de estocagem e regeneração de solventes, que era tecnicamente inadequada para o serviço. As comunidades estão preocupadas, pois há cerca de dois anos fotografaram, perto da área industrial, um minadouro estranho, de uma água barrenta e espumosa, fato até hoje não investigado, ao que se sabe. Fala-se também que as bacias de armazenagem dos rejeitos atômicos estão abarrotadas e a manta que fica no pátio de lixiviação, onde o minério é submetido à solução de ácido sulfúrico para a retirada do urânio, estaria furada, provocando contínuos vazamentos.

IHU On-Line – E quais foram os principais problemas que essa mina trouxe para a população?

Zoraide Vilas Boas – 
Inicialmente, Caetité sentiu os efeitos sobre a economia, com a subida de preços de bens de consumo, uso e serviços, de imóveis e aluguel, quando o custo de vida praticamente quadruplicou. Na sequência da degradação psicossocial e ambiental, vieram o medo, a incerteza pela convivência com uma atividade de alto risco para os trabalhadores, a população e o meio ambiente.

Entre os problemas principais estão a escassez e a contaminação da água, o aumento da incidência de câncer, o potencial de drenagem ácida no sítio da mina e a preocupação com o futuro, pela convivência com uma indústria que já rendeu paraCaetité o estigma de região radioativa e futuro depósito de lixo atômico, afugentado turistas e estudantes. O comércio se queixa de prejuízos decorrentes do preconceito contra a mineração atômica, mas quem mais sofre são as comunidades que vivem num raio de 20 quilômetros, definido como área de influência da URA, perto de mil famílias de baixa escolaridade, lavradores, pequenos proprietários rurais, que são as mais desassistidas pelo Estado. Mas também comunidades rurais dos municípios deLagoa Real e Livramento são afetadas pelos malefícios da mina.

A questão do saneamento ambiental em Maniaçu é gravíssima. Não existe água para consumo básico, nem para comer. Além de comunidades rurais estarem consumindo água contaminada, o aquífero está rebaixando e os poços estão ressecando rapidamente. Estes problemas já eram previstos no Estudo de Impacto Ambiental (EIA-Rima), que indicou agravos à saúde da população, alteração da qualidade do ar, poluição radioativa e contaminação das águas subterrâneas, do solo e da vegetação. A região tem sofrido com a violação de direitos humanos, como o direito à segurança no meio ambiente do trabalho, à saúde, à informação.

Lavradores foram induzidos a autorizar o uso gratuito, por tempo indeterminado, das águas subterrâneas de suas propriedades, passando para a URA o controle da água, oriunda de poços artesianos. Dezenas de poços foram abertos e, em 2007, uma seca prolongada castigou mais de cem famílias rurais, que perderam lavouras e ficaram dependentes de água fornecida pela INB. Hoje temem o impacto da liberação de radônio na atmosfera e da poeira gerada pelas explosões atômicas e têm seus produtos agropecuários recusados em feiras livres. São as maiores vítimas do descaso, da omissão, da negligência dos poderes públicos locais, estaduais e federais.

IHU On-Line – Que tipo de incidentes já ocorreram na mina?

Zoraide Vilas Boas – 
Em dez anos de funcionamento, há registro de mais de 12 eventos, entre acidentes e incidentes nas instalações, no processo produtivo ou com operários, todos classificados pela empresa como rotina operacional, independente da sua dimensão. Muitos desses problemas, que envolvem também o transporte do urânio até o porto de Salvador, estão detalhados no Relatório sobre Fiscalização e Segurança Nuclear, da Câmara dos Deputados, que mostra os riscos de acidentes nucleares e radiológicos no Brasil devido à fragilidade da fiscalização e à falta de estrutura do sistema de radioproteção – o Sipron. O relatório denuncia a omissão e a conivência do Ibama, para com a mineração em Caetité, que é de alto risco para a população e o meio ambiente.

O primeiro e grave acidente ocorreu em abril de 2000, poucos meses após o início oficial da operação, com o rompimento das mantas de isolamento das piscinas, que liberou para o solo cerca de 67 quilos do concentrado de urânio. A INB e a CNENtentaram esconder o fato a todo custo, chegando a sustentar uma versão de sabotagem. Só três anos depois admitiram o evento, afirmando que os danos foram insignificantes. Em 2004, a bacia de retenção de particulados da cava da mina transbordou sete vezes, liberando líquido, com concentração de urânio-238, tório-232 e rádio-226 para o solo. Os fiscais da CNEN recomendaram a suspensão da mineração, pelo risco de desabamento e contaminação do lençol freático, e a não renovação da Autorização de Operação. Mas a CNEN ignorou o parecer dos seus fiscais.

Em junho de 2008, ocorreu novo transbordamento de licor de urânio, só confirmado três meses depois pelo Ibama. No ano passado, mesmo sem autorização do Ibama, e sem licença de ampliação da planta para fazer extração subterrânea, a INB anunciou a conclusão de um túnel de 500 metros na rocha para começar a mineração subterrânea. De outubro a dezembro de 2009 ocorreram pelo menos mais dois vazamentos, numa freqüência de eventos que aumenta a desconfiança sobre as competências científica e técnica da empresa para lidar com a atividade atômica. 

IHU On-Line – Quais são as principais reivindicações de quem vive na cidade?

Zoraide Vilas Boas –
 As populações da região reivindicam uma urgente auditoria no complexo INB, por um grupo técnico multidisciplinar, independente, com representantes da comunidade, e acompanhamento dos Ministérios Públicos Federal e Estadual; a implantação de um sistema de vigilância epidemiológica, toxicológica, para identificação de doenças decorrentes de radiações ionizantes e a instalação, no SUS, de um núcleo para a prevenção e tratamento de doenças ocupacionais. Reivindicam uma investigação socioambiental e epidemiológica, independente e transparente, sobre os riscos de contaminação humana e do meio ambiente por urânio e outros elementos químicos associados à exploração desse minério.

Desde 2008, com o agravamento dos conflitos pelo uso da água, escassa no semiárido e consumida em larga escala pela INB, as comunidades reivindicam a aplicação da Lei de Recursos Hídricos, segundo a qual, em situação de carência, a prioridade do consumo é para o abastecimento humano e animal. A partir de 2009 lutam pelo cumprimento da liminar concedida pelo juiz de direito de Caetité, em Ação Civil Pública proposta pelo MPE, que determina ao governo do estado, INB, prefeituras de Caetité e Lagoa Real a adoção de providências urgentes para garantir a segurança alimentar e de saúde das populações da região, ainda não cumpridas integralmente pelos réus.

Reivindicam também a imediata suspensão das atividades da INB, até ser garantida a proteção dos trabalhadores e da população, como foi requerido pelo PPF, em Ação Civil Pública. O MPF propôs ainda que a União e a CNEN custeiem a realização da auditoria independente, solicitada pela sociedade desde o acidente de 2000, e que o IBAMA suspenda a licença ambiental existente e não conceda outras até serem sanadas todas as irregularidades atribuídas à mineração, em especial a separação entre as funções hoje acumuladas pela CNEN, de órgão regulador e fiscalizador de si mesmo. 

IHU On-Line – Que tipo de resíduos e lixo essa usina de Caetité produz?

Zoraide Vilas Boas –
 Para nós, o resíduos líquidos, sólidos, gasosos (este de dispersão incontrolável), “bota-fora”, rejeitos, estéril fazem parte de uma só, desafiante e perigosa incógnita, não solucionada por nenhum pais do mundo: o lixo atômico, gerado em atividades minero-radioativas, cujos efeitos duram pelo menos 50 mil anos, e que se avoluma no mundo, como uma ameaça para o futuro da humanidade.

O urânio sai da Bahia para alimentar as usinas de Angra dos Reis, deixando emCaetité os custos do uso dessa tecnologia, cara e perigosa. O lixo é produzido em grande quantidade, devido à baixa concentração do urânio, mas não se sabe quantas toneladas de rejeitos sólidos já existem. Segundo a INB, a produção de uma só tonelada de urânio está resultando em três toneladas de estéril. O lixo fica estocado em tonéis, abertos, corroídos, expostos a chuvas fortes, contribuindo para a contaminação do solo e das águas superficiais e subterrâneas e estaria sendo enterrado na URA. O futuro do lixo atômico em Caetité é uma grande interrogação e preocupação. Ao que tudo indica, pela omissão da prefeitura municipal e pela improvisação que predomina no setor, será deixado de herança para o município administrar quando a reserva do minério acabar. 

IHU On-Line – O meio ambiente de Caetité mudou muito em função da usina de urânio?

Zoraide Vilas Boas –
 Certamente que o meio ambiente na região mudou muito e para pior. Os malefícios não foram ainda devidamente quantificados porque o setor nuclear, além de conseguir que a INB funcionasse desrespeitando os Princípios da Precaução e Prevenção, exigidos pela legislação ambiental, e as convenções internacionais de segurança nuclear, assistiu os poderes públicos estaduais, federais e municipais atravessarem mais de uma década sem fazer uma avaliação da qualidade do ar, da saúde dos trabalhadores e da população, dos produtos agropecuários, do solo. Só a água passou a ser monitorada, mesmo assim de forma irregular, pelo órgão gestor de águas do estado, o Inga.

Depois da primeira análise da qualidade da água no entorno da mineradora, que confirmou a contaminação de três poços ao redor da mina, denunciada, no final de 2008, pelo Greenpeace, o Inga fez mais três coletas, confirmando teor de radiação acima dos índices permitidos pela OMS, Conama e portaria de potabilidade da água do Ministério da Saúde. Por isto, determinou a interdição de 11 pontos, nove usados para consumo humano e animal e dois de uso industrial pela INB. Mas as comunidades seguem consumindo a água contaminada, pois o fornecimento de água potável pela estado, prefeituras e INB, determinado pela Justiça, não é suficiente para atender as necessidades das famílias afetadas.

IHU On-Line – Existe uma estimativa sobre a quantidade de casos de câncer que vem aparecendo na região de Caetité depois da exploração do urânio?

Zoraide Vilas Boas – 
Como falamos em relação à agricultura, ao saneamento ambiental, na assistência médico-social é o mesmo descaso. Não existe um acompanhamento transparente e permanente por parte dos poderes públicos competentes, nem pela INB, que possa revelar, com precisão, a evolução da saúde humana na região.

A população passou a temer mais os efeitos da mineração na saúde, a partir de 2005, quando a INB admitiu que não fazia o monitoramento da saúde dos trabalhadores e dos moradores do entorno da mina, descumprindo a condicionante do licenciamento ambiental. A assistência à saúde sempre foi precária na região, que não dispõe de um centro de diagnóstico de câncer, decorrente de exposição a radiações ionizantes, e novos casos são registrados, inclusive entre os trabalhadores.

Observações pessoais revelam um crescente índice de câncer e depoimentos de ex-empregados relatam contaminação por contato direto com o urânio. Em diversas inspeções na URA, o Centro de Saúde do Trabalhador da Secretaria Estadual de Saúde (SESAB) registrou irregularidades na avaliação de segurança e medicina do trabalho. Segundo a SESAB, as neoplasias apresentam tendência crescente entre os grupos causadores de morte, sendo a segunda causa de óbitos na região, desde 1999, período do início da exploração. O alto índice de causas de morte não identificadas, mais de 40%, dificultam uma estatística mais próxima da realidade, enquanto a INB, claro, nega qualquer nexo entre o crescente índice de câncer e sua atividade.

Sabemos que a mineração eleva o potencial de exposição à radiação, especialmente dos trabalhadores e das comunidades que vivem no entorno da mina. Contudo, o setor nuclear insiste que há um limite para a exposição à radiação, incapaz de afetar a saúde humana, minimizando os riscos da URA. Mas especialistas no ramo consideram que qualquer dose de radiação, por menor que seja, produz efeito colateral no ser humano. O relatório de 2005, da Academia Nacional de Ciências, sobre os Riscos a Saúde por Exposição a Baixas Doses de Radiação Ionizante, afirma que não existe limite seguro para radiação. Segundo a ciência médica, todos os níveis de radiação causam câncer, mesmo a exposição a doses muito baixas, como o setor nuclear classifica a radiação em Caetité, onde a saúde da população não recebe a atenção devida pelo poder público, enquanto as comunidades são obrigadas a deixar seus afazeres para ir à luta a fim de tentar assegurar seu direito à saúde, à informação, à justiça ambiental, à vida!

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Caetité está em estado de emergência desde o dia 24 de Setembro

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O município de Caetité, distante 750 quilômetros de Salvador, está em estado de emergência desde o dia 24 de setembro. Encravada no meio do sertão baiano, a cidade tem sofrido com a estiagem que atinge a região nos últimos meses. Para agravar a situação, duas das principais fontes de água de Caetité, os poços localizados nas comunidades de Maniaçu e Lagoa Grande, estão interditados há mais de um ano. O motivo: contaminação por urânio. A denúncia foi feita pelo Greenpeace e os resultados das análises têm confirmado a tese da ONG. Segundo João Antônio Portella, secretário municipal do Meio Ambiente, o teor de urânio na água de Caetité chega a 0,25 miligrama por litro, mais de 15 vezes o limite recomendado pela Organização Mundial de Saúde, de 0,015 miligrama por litro.

Para o Greenpeace, a grande vilã dessa história é a mina de urânio instalada na cidade pela Indústrias Nucleares do Brasil – INB, estatal que detém o monopólio sobre a extração e produção de urânio no país. Inaugurado há 10 anos, o empreendimento deveria trazer o progresso à região, mas acabou se tornando o terror dos moradores de Caetité. Hoje, poucos são os que ainda se arriscam a beber a água fornecida pela rede pública. “Não dá para dizer nem que a água está nem que não está contaminada. Ninguém sabe ao certo se esses índices são normais ou causados por algum vazamento na mina”, diz Portella.

A INB, por sua vez, alega que por se tratar de uma região cujo solo é rico em urânio, é natural que os índices estejam acima da média. “O urânio está lá há 400 milhões de anos”, afirma Otto Bittencourt Netto, diretor de recursos naturais da estatal. “A atividade da INB em nada contribuiu para elevar os índices.” Segundo a empresa, mais de 16 000 análises são realizadas todos os anos, em 150 poços da região, sem qualquer caso comprovado de aumento na concentração de urânio na água. O Instituto de Gestão das Águas e Clima da Bahia, órgão responsável pelas análises oficiais no estado, confirma que os poços sofrem de radiação natural, mas estão liberados desde o dia 17 de setembro, com a condição de que a água seja previamente tratada por dessalinizadores. A prefeitura, porém, não dispõe de tais equipamentos.

O fato é que, desde que o problema veio à tona, há pouco mais de um ano, a vida dos 45 000 moradores de Caetité mudou. O clima de insegurança tomou conta da cidade. A desinformação é total. Os agricultores sofrem com a desconfiança dos vizinhos. Por enquanto, só resta aos moradores de Caetité se conformar com a água trazida de outras cidades por caminhões-pipa e distribuída pela prefeitura – que já gastou quase 200 000 reais na operação.

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ONU receberá relatório sobre extração de urânio em Caetité, na Bahia

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O relatório produzido pela socióloga Marijane Lisboa registra elevados índices de casos de câncer na população jovem do município baiano e admite a possibilidade da incidência da doença estar vinculada à exploração de urânio.


Os elevados índices de casos de câncer na população jovem de Caetité, a 770 km de Salvador, e a possibilidade de a incidência da doença estar vinculada à exploração de urânio no município fazem parte do relatório produzido pela socióloga, doutora em ética e meio ambiente, Marijane Lisboa, que será entregue à Organização das Nações Unidas (ONU). Ela passou três dias no sudoeste da Bahia investigando os efeitos da atividade junto à população. 


O relatório conterá avaliação socioambiental das atividades da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que, há 10 anos, extrai urânio no município para o funcionamento das usinas nucleares Angra I e Angra II. 


Depois de retornar da visita à área, a socióloga afirmou que o estigma de "cidade do urânio" pesa sobre a vida dos moradores de Caetité, "que, além da falta dágua enfrentam dificuldades para comercializarem seus produtos agrícolas. A vida econômica dessas comunidades rurais está morta", afirmou Lisboa. 


Relatora do Direito Humano Ambiental, da ONG Direitos Humanos, Econômicos, Culturais e Ambientais (Dhesca), ela foi levada à região a partir da solicitação de outras duas organizações - a Associação Movimento Paulo Jackson e a Rede Brasileira de Justiça Ambiental, que estão preocupadas com ocorrências de vazamento, contaminação de poços artesianos e falta de informações para as comunidades. A relatora constatou que a população local não tem sido informada sobre os riscos que corre pela proximidade com a INB. 


A promotora pública Luciana Khoury informou que, desde 2006, duas ações já foram ajuizadas pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA) e outra pelo Ministério Público Federal (MPF), para que o Estado, o município e a INB forneçam água e assistência médica à população. 


O diretor de recursos minerais das Indústrias Nucleares do Brasil (INB) afirmou que "a extração de urânio não traz problema algum". Ele disse não ter expectativas de que o relatório do Dhesca traga alguma novidade ou informação que comprometa as atividades da INB na região. 


Sob a acusação da falta de informações para a população, Bittencourt disse que na cidade há postos de informações que informam sobre todos os dados obtidos durante as fiscalizações feitas pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), ligada à INB. No entanto, reconheceu erro quanto à fiscalização. "Já estamos tentando reparar e criar uma comissão só para a fiscalização", declarou o diretor.

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DENUNCIADO NOVO ACIDENTE RADIOATIVO EM CAETITÉ, NA BAHIA

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CURTA METRAGEM PRODUZIDO PELOS MORADORES DE CAETITÉ

Documentário sobre a contaminação em Caetité


Prezados Senhores,

Por meio deste, e atendendo solicitação de organizações sócio ambientais de Caetité e Lagoa Real, indagamos se V. Sas. foram informadas do rompimento de uma tubulação ocorrido na unidade mínero-industrial da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), no domingo (02/05), que já levou milhares de litros de licor de urânio para o solo, na área de extração e beneficiamento deste minério, no distrito de Maniaçu, no sudoeste da Bahia.

Segundo o que se comenta na cidade desde ontem, o acidente, visto como dos mais graves de uma série ocorrida desde que a INB começou a minerar, em 2000, levou  a direção da INB a suspender as atividades, deslocando todos os setores para um esforço concentrado a fim de recolher o solo atingido pelo urânio: retro-escavadeiras estariam trabalhando no local a  todo vapor,  para concluir logo a coleta e depósito do solo nas pilhas de estéril, antes da chegada de equipes de fiscalização dos órgãos ambientais.

Este é mais um evento, que só vem comprovar a insegurança nas instalações e no processo produtivo da INB, detalhadamente descrita no Relatório sobre Fiscalização e Segurança Nuclear no Brasil, da Câmara de Deputados, também evidenciada em parecer do Tribunal de Contas da União sobre o setor nuclear. 

A situação na URA/Caetité é tão grave que gerou uma Ação Civil Pública por parte do Ministério Público Federal, em julho do ano passado, recomendando a suspensão imediata das atividades da mineradora até que seja garantida a segurança dos trabalhadores, da população, do meio ambiente, e sanadas as irregularidades do sistema de radioproteção e segurança, principalmente, a separação entre o fomento e a fiscalização das atividades nucleares.

Ainda que a Justiça Federal, em Guanambi, tenha permitido a continuidade do funcionamento da INB, negando a liminar pedida pelo MPF, inclusive, apesar da comprovação da contaminação da água de poços, usados para consumo humano e animal, os habitantes da região, em especial os moradores do entorno da mina, mais diretamente atingidos pela mineradora, esperam que os órgãos competentes, desta vez, tomem as providências cabíveis e urgentes que mais este grave acidente exige. Requerem, ainda, com base no direito democrático à informação e na lei de Acesso à Informação Ambiental, (No. 10.650, de 16 de abril de 2003), que dispõe sobre o acesso público aos dados e informações ambientais existentes nos órgãos e entidades integrantes do Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama), esclarecimentos sobre as medidas eventualmente adotadas por V. Sas. e a revelação das reais conseqüências que estes eventos trazem para a região e suas populações. 

Atenciosamente,


Comissao Paroquial de Meio Ambiente de Caetité
Associação Movimento Paulo Jackson - Ética, Justiça, Cidadania


Esta carta foi enviada para:


Sra. Izabella Mônica Vieira Teixeira, Ministra de Meio Ambiente
Sr. Abelardo Bayma Azevedo, Presidente do IBAMA
Sr. Pedro Alberto Bignelli, Diretor de Licenciamento Ambiental - DILIC
Sr. Célio Costa Pinto, Superintendente do IBAMA / Bahia
Ministério de Ciência e Tecnologia
Ministérios membros do Conselho Nacional de Política Energética
Secretaria de Meio Ambiente do Estado da Bahia


Diretoria do INGA
Diretoria do IMA
Secretaria Estadual de Saúde do Estado da Bahia
Ministério Público Federal da Bahia
Ministério Público Estadual da Bahia



O PERIGO CONCRETO procurou a AFEN (A AFEN é uma associação de servidores da área de radioproteção e segurança nuclear)

PERIGO CONCRETO -> Gostaria de saber se a AFEN se pronunciou em relação a contaminação dos poços em Caetité.

RESPOSTA ->  Com relação à Caetité, historicamente temos apresentado a necessidade de reestruturação do órgão regulador (CNEN) com o objetivo de dar maior independência de atuação à este órgão, uma vez que a CNEN detém 100% das ações da INB (operadora da mina), ela acaba sendo "fiscal de si mesma". Em nenhum lugar do mundo isso deu certo, pois é tecnicamente, politicamente e eticamente incorreto o órgão fiscalizador ser "dono" do órgão fiscalizado.

Durante a atuação do Grupo de Trabalho da Câmara dos Deputados, Coordenado pelo Dep. Edson Duarte, apresentamos essa e várias questões, incluídas no relatório aprovado pela Comissão de Meio Ambiente.

Por fim, o controle é pífio, com o presidente da CNEN sendo presidente do Conselho de Administração da INB, não há condições de trabalho pelos profisisonais de fiscalização, sendo que estas instalações da INB estão sob o controle disposto no Plano Diretor de Conhecimento Sigiloso da CNEN, que segundo informes foi uma coisa imposta pelos militares que estão na Diretoria da INB, que existindo alguns entraves para acesso á informações, até mesmo pelos profissionais. No passado apresentamos um trabalho que concluia pela inconstitucionalidade deste Plano Diretor de Conhecimento Sigiloso, que ameaça os profissionais de licenciamento e fiscalização com artigos e penas inclusas no código penal.

A questão da contaminação, ou não das águas, é de importância social muito grande, uma vez que para os moradores do entorno da usina a água é um bem mais valioso do que o urânio, mas não tivemos acesso a nenhuma medida de contaminação ou trabalho realizado,seja pelo Ingá ou pela própria INB, ficando impossível nos posiiconarmos diretamente sobre o tema, mas achamos muito estranho que a INB não mostre resultados, uma vez que é da propaganda institucional a realização de milhares de amostras por ano. 

Concluindo, qualquer problema com a INB não pode se resumir ao vazamento do momento, e olha que sempre vaza, há um problema estrutural mais sério que deve ser atacado, caso contrário, estaremos sempre correndo atrás do vazamento do mês.



IREMOS COBRAR RESPOSTAS!!! 
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