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África, depósito de lixo nuclear

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Por Vladislav Marjanovic, Radio Afrika International

A África não consegue alçar um vôo econômico genuíno. Crises políticas internas, muitas vezes provocadas por países estrangeiros, e as dívidas elevadas são os dois grilhões que prendem a África à sua pobreza. A África está totalmente entregue aos novos donos do mundo e dependente deles, assim como esteve, outrora, sob o jugo dos colonizadores. Poderíamos dizer que a África sempre esteve colonizada.

A diferença entre os antigos colonizadores e os atuais, é que os primeiros inseriam, nas colônias, o mínimo de infra-estrutura e os últimos, não dão a menor importância. O interesse dos novos colonizadores se concentra na exploração de matérias-primas e nos negócios que rendem cada vez mais em espaços de tempos cada vez mais curtos. A exportação de lixo nuclear faz parte desses “negócios”, e é justamente esse problema que vamos abordar.

Foi como um trovão num céu tranqüilo. Menos de duas semanas após começar a vigorar o protocolo de Kyoto e poucos dias antes da Jornada Mundial da Proteção Civil, a PNUE, Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, publicou seu relatório sobre as conseqüências do tsunami (26 de dezembro de 2004). Cerca de 100 ministros do meio ambiente reunidos em Nairobi, entre 21 e 25 de fevereiro de 2005 para o 23º encontro do Comitê diretor do fórum mundial de ministros do meio ambiente, deixaram boquiaberto o presidente do comitê, Klaus Topfer, com a notícia de que o tsunami havia lançado nas costas da Somália não somente lixo “normal”, mas também lixo nuclear. Nas regiões atingidas pelo tsunami, um grande número de pessoas teve problemas de saúde pouco comuns. Segundo o relatório da PNUE, houve infecções respiratórias agudas, hemorragias estomacais, reações cutâneas atípicas e até morte súbita.

Para muitos participantes as informações fornecidas pelo relatório da PNUE foram chocantes. Não para a PNUE. Na página 134 do relatório, cujo título é Primeiras avaliações ambientais pós-tsunami, lê-se que a Somália é um dos países subdesenvolvidos que recebem, desde os anos 80, inúmeras cargas de lixo nuclear e outros resíduos nocivos acumulados ao longo da costa do país. Encontram-se entre os resíduos substâncias como urânio, cádmio, chumbo e mercúrio. Evidente que os culpados foram severamente repreendidos, porem não foram devidamente citados. Houve violação dos acordos internacionais sobre a exportação de tais dejetos para a Somália, e parecia pouco ético firmar acordos desse tipo com um país às voltas com uma guerra civil.

A revolta da PNUE parece justa. Mas fica a pergunta: se tais fatos ocorrem desde os anos 80, por que a PNUE não tomou medidas enérgicas para os impedir? Como é possível que a PNUE ignore isso durante 25 anos? É impossível discutir com os dirigentes em Nairobi, é sempre a mesma coisa: “não sabemos nada sobre isso, tomaremos providências futuramente”, dizem as autoridades somalianas do distrito de El Dehere. De acordo com o jornalista italiano, Massimo Alberizzi, tanto a ONU quanto a União Européia, receberam inúmeras queixas relativas aos efeitos sobre o homem e o meio ambiente dos dejetos nucleares e tóxicos na Somália. Não fizeram nada até o momento.

Ainda que não se importem com as queixas dos estados africanos, como explicar a vista grossa que fazem quanto às enormes somas oferecidas pelos países desenvolvidos aos países pobres da África para obtenção de depósito para o lixo nuclear, sobretudo a partir da década de 80? Os países preferidos são: Somália, Guiné-Bissau, Nigéria e Namíbia. Foi necessário esperar até 1988 , quando o escândalo do navio sírio, Zenobia, que passou meses procurando um porto para descarregar cerca de 20.000 toneladas de lixo nuclear, para que a ONU se desse conta da situação . Em 1989, a ONU tomou a iniciativa de criar a Convenção da Basiléia para controlar o transporte de lixo nuclear. Os ecologistas protestaram. Para eles, controlar o transporte de lixo nuclear não significa impedir sua descarga em países do terceiro mundo. O controle foi garantido só em 1995, quando à Convenção juntou-se a proibição aos membros da OCDE de exportar lixo nuclear para os países não membros da organização. Esse acréscimo desagradou aos EUA. Washington recusou-se a assinar o artigo suplementar.

Os outros produtores de lixo nuclear acabaram por encontrar meios para contornar a Convenção. A ODM, de Lugano, chegou a publicar uma lista na Internet com os melhores lugares para despejar lixo tóxico. A Somália encabeça a lista. O diretor da ODM, Giorgio Comerio, teria oferecido um milhão de dólares a um certo Ali Mali, a fim de despejar lixo tóxico no nordeste da Somália. Dois jornalistas italianos, Ilaria Alpi e Miran Hrovatin, foram atrás de mais informações para esclarecer tais transações. Em 18 de março de 1994, foram à cidade somaliana de Bosasso e entrevistaram um funcionário local e, no dia 20 de março do mesmo ano, apenas algumas horas após terem apresentado, por telefone, os resultados de suas pesquisas na RAI (Radio Audizioni Italia), foram assassinados numa rua de Mogadíscio por um grupo de matadores.

Para Massimo Alborizi, do Corriere della Sera, não há dúvida: o “comércio” de lixo nuclear e de outros resíduos perigosos na Somália está nas mãos do crime organizado. Mas parece haver interesses maiores envolvidos. Massimo Scalia, presidente de uma comissão de investigação do parlamento italiano, declarou à Agence Inter Press Service, que a Itália lucra anualmente com o negócio do lixo nuclear 7 bilhões de dólares. Em 2001, foram enviadas 600.000 toneladas de lixo nuclear para a África. Dessa vez, a Somália não foi o único destino. Foram incluídos no itinerário: Zaire, Malawi, Eritréia, Algéria e Moçambique. Diante de tal quantidade de despejos de lixo nuclear, a PNUE procurou agir. Moustapha Tolba, então diretor executivo da PNUE, já em setembro de 1992, pediu, junto aos governos italiano e suíço, o fim do transporte de lixo nuclear. A Suíça reagiu educadamente: disse que estudaria o pedido. A Itália rechaçou prontamente as acusações. O então ministro italiano do meio ambiente, Carlo Ripa di Meana, disse que empresas italianas não faziam parte desse “comércio”. Ficou por isso mesmo. E o negócio do lixo nuclear segue em grande estilo. Segundo informações, oriundas da Somália, o depósito de lixo radioativo, perto de Obbia, não é vigiado pelas milícias somalianas, mas por soldados estrangeiros. De acordo com fonte confidencial, a França e os EUA obtiveram, ainda nos anos 80, permissão para construir um depósito de lixo nuclear na região. Inclusive o general Morgan, em operação no sul da Somália, afirma ter recebido, em Nairobi, a visita de vários representantes de potências estrangeiras querendo permissão, mediante pagamento (que o general diz ter recusado), para despejar lixo nuclear na região.

A Itália rechaçou prontamente as acusações. O então ministro italiano do meio ambiente, Carlo Ripa di Meana, disse que empresas italianas não faziam parte desse “comércio”. Ficou por isso mesmo. E o negócio do lixo nuclear segue em grande estilo. Segundo informações, oriundas da Somália, o depósito de lixo radioativo, perto de Ortes Obbia, não é vigiado pelas milícias somalianas, mas por soldados estrangeiros. De acordo com fonte confidencial, a França e os EUA obtiveram, ainda nos anos 80, permissão para construir um depósito de lixo nuclear na região. Inclusive o general Morgan, em operação no sul da Somália, afirma ter recebido, em Nairobi, a visita de vários representantes de potências estrangeiras querendo permissão, mediante pagamento (que o general diz ter recusado), para despejar lixo nuclear na região.

Mas os representantes do lobby do lixo nuclear seguirão pressionando. Alguns afirmam que são estes que impedem os acordos de paz entre as facções envolvidas na guerra civil da Somália. Também o PNUE está sob pressão. Johannes e Germana Dohnany, afirmam, em livro publicado em 2002, Negócios sujos e guerra santa. Al-Qaida na Europa (Schmutzige Geschäfte und heiliger Krieg. Al-Qaida in Europa), que a PNUE não pode depender do dinheiro que recebem, a cada dois anos, dos países membros. Seria, dizem os autores, arriscado para a PNUE ir contra os países desenvolvidos, que são seus patrocinadores. É uma situação inelutável. Mas o fato é que a PNUE não mudou sua posição em relação ao depósito ilegal de dejetos radioativos na Somália, exceto num ponto: colocou-se maior ênfase nos riscos sofridos pelo homem e pelo meio ambiente por conta do despejo inconseqüente de lixo nuclear. De fato, o relatório do PNUE examina detalhadamente os vários impactos sobre os manguezais, recifes de corais, efeitos sobre a pesca e lençóis freáticos produzidos por dejetos nucleares que ficaram à deriva ao longo da costa do país.

Os danos causados às pessoas – algumas inclusive já morreram – são laconicamente aludidos. Os autores do relatório queixam-se de não ter sido possível fazer pesquisas no local, queixa que serviu de justificativa para a conclusão neutra do relatório que se ocupa, exclusivamente, dos danos ao meio ambiente e as conseqüências do aquecimento global para a diversidade natural da Somália. A questão do futuro das vítimas humanas dessa atividade comercial inescrupulosa não é abordada pelo relatório do PNUE.

Não nos parece possível condenar os donos do poder, que não tem qualquer escrúpulo em sacrificar vidas humanas, e estão transformando um país todo (logo o continente) em depósito de lixo radioativo.

Mas o que fazer quando o depósito de resíduos tóxicos custa 250 dólares por tonelada na Europa, e apenas 2,5 dólares na África? É o que se conclui do relatório do PNUE. A AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) não publica quaisquer dados relativos à quantidade de dejetos produzidos nas 430 centrais energéticas em atividade. É compreensível: o capital privado, que exerce controle sobre as organizações internacionais, dita as leis. E entre essas leis, a lei do silêncio.

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Nuclearização na América Latina: uma ameaça real

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artigo de Zoraide Vilasboas
A oficina sobre Nuclearização na América Latina – A volta de um velho fantasma? promovida pela Fundação Heinrich Böll no Fórum Social Mundial, em Belém do Pará (29/01/09), evidenciou que, desde 2005, a indústria nuclear intensificou seu agressivo lobby em diversos países da região, com forte influência nos setores legislativos e da política energética, tentando impor a implantação de usinas, sob o falso argumento de que a energia nuclear é uma fonte “limpa”, segura e concorre para combater o aquecimento global.
A Heinrich Böll é uma fundação alemã, sem fins lucrativos, ligada à coalizão partidária Aliança 90/O Verdes, que atua em 60 países incentivando o exercício da democracia, da cidadania e o diálogo internacional. Instalada pelo diretor do escritório da Heinrich Böll no Brasil, Thomas Fatheuer, a oficina, realizada em parceria com o Greenpeace, reuniu organizações da sociedade civil em mais um esforço da Fundação para impulsionar a reorganização do movimento antinuclear em torno de uma estratégia comum de enfrentamento da política energética sinalizada pelos governos da América do Sul.
Indústria “suja” e insegura
O ambientalista Sérgio Dialetachi, representante da Fundação Böll, apresentou um panorama abrangente do jogo pesado da indústria nuclear para avançar em vários países do Continente Sulamericano, especialmente no Brasil, onde é crescente a preocupação com a ameaça da expansão da exploração de urânio, a implantação de usinas de enriquecimento e de novos reatores, além da construção de submarinos nucleares. É uma indústria extremante cara e, apesar de já ter consumido muito dinheiro (cerca de 40 bilhões de dólares), não consegue evitar a incompetência técnicooperacional, nem a insegurança do setor.
“Além de ineficiente para responder à demanda de energia no Brasil, é “suja”, não só por causa da produção de lixo atômico, para o qual nenhum país do mundo encontrou solução, mas sobretudo do ponto de vista dos interesses envolvidos, em especial os militares. Não há no mundo um projeto bélico que não tenha começado numa usina nuclear, ou num projeto de produção de energia. Na Universidade de Chicago, em l942, onde funcionou o primeiro reator para geração de eletricidade, projetado para fins pacíficos, foram feitos os ensaios para a bomba de Hiroshima, de 1945. Então a ligação entre interesses militares, bélicos, está na origem do setor nuclear,” ressaltou Sérgio, demonstrando a intrínseca ligação entre os setores bélico e nuclear.

O programa nuclear paralelo desenvolvido no Brasil registrou diversos episódios ilegais, como “o do reator experimental dentro do IPEN, na USP, de onde foi contrabandeado urânio enriquecido para o Iraque, de Sadam Hussein, em 1981. Depois, a Aeronáutica construiu um poço estratégico para testes, no Porto da Serra do Cachimbo, no Sul do Pará, onde pousou o Legacy, que chocou com o avião da Gol. O poço só foi fechado em 1992, ferindo por 4 anos a Constituição Brasileira que proíbe a fabricação de artefato nuclear no país. A Marinha, por sua vez, tem um minireator teoricamente desenvolvido para um submarino, que o presidente Hugo Chavez propôs colocar na Amazônia Venezuelana, afirmando que poderá ser usado para a defesa em áreas remotas. A França se destaca no mundo como grande lobista nuclear. O presidente Sarkozy aqui esteve e vai ajudar a Marinha a terminar o submarino, que, há anos, não passa de uma maquete, enquanto o ministro da Defesa, Nelson Jobim, acha que não precisamos de um só submarino, mas de uma frota para defender o pré-sal frente aos EUA”, ironizou.
Comentando a série de fatos que expõem os dilemas do Programa Nuclear Brasileiro, Sérgio mencionou os problemas em unidades industriais, que tiveram que refazer projetos de engenharia, depois das obras iniciadas ou em funcionamento, como Angra 1 e a usina da INB, na Bahia; a insegurança em instalações e em processos produtivos, que resultam em contaminação do lençol freático, como em Caetité e em Interlagos, em São Paulo; os acidentes operacionais, ou com operários; o lixo atômico e descargas de rejeito radioativo, a céu aberto, como em Itu, e contaminação do solo pela usina de Santo Amaro, ambas em São Paulo.
Degradação social e ambiental
Avaliando a experiência nuclear na Argentina, o engenheiro Pablo Bertinat, do Cone Sul Sustentável, revelou que em seu país, a indústria nuclear deixa um passivo monumental, tendo acumulado milhares de toneladas de resíduo radioativo, especialmente em Córdoba, Mendoza e Salta. É uma dramática realidade que reforça “nossos argumentos de que a energia nuclear é desnecessária e temos alternativas de grande potencial e menos impactantes para resolver a problemática energética”. Até o momento, a indústria nuclear deixou danos ambientais catastróficos, e a Comissão Nacional de Energia da Argentina reconhece que as minas são irreparáveis e os prejuízos irrecuperáveis. O Centro Atômico Ezeiza, na província de Buenos Aires, por exemplo, está na mira da Justiça pelos elevados índices de urânio encontrados nas águas subterrâneas das proximidades. Pablo informou que a maior resistência contra essa fonte de eletricidade está nos setores diretamente ligados à atividade uranífera, nos movimentos que lutam contra a privatização da água e nos produtores de vinhos, de frutas, comerciantes dos mais afetados pela contaminação de mananciais.
Mesmo neste cenário de degradação ambiental e social, a ameaça de nuclearização da América Latina é real, com o Brasil dividindo com a Argentina a liderança nessa corrida. Ambos têm jazidas de urânio significativas, processo de enriquecimento em curso, usinas e minireatores. O Brasil já tem acordo de cooperação com a Venezuela, que firmou acordo com a Rússia para cooperação na produção de equipamentos. Outros países da América do Sul estão discutindo a fonte nuclear como alternativa para suas demandas de energia, como a Bolívia, Equador e Uruguai. O Peru e o Chile planejam construir usinas.
Angra 3: um projeto inviável
O descrédito na tecnologia nuclear foi analisado pelo engenheiro elétrico Ricardo Baitelo, ao explicar por que o Greenpeace atua contra o Programa Nuclear Brasileiro e comentar os estudos técnicocientíficos produzidos, a partir de 2007, com o intuito de esclarecer a opinião pública que Angra 3 é um projeto inviável do ponto de vista técnico, econômico e ambiental. “Existem alternativas mais baratas, eficientes e seguras para suprir a demanda de eletricidade e proporcionar o desenvolvimento econômico e social do país, a partir de uma matriz mais limpa, com participação maior das energias renováveis, sem a necessidade de eletricidade nuclear ou termoelétricas”, disse.
O Relatório “Cortina de Fumaça: Emissões de CO2 e outros impactos da energia nuclear” comprova que a produção de energia nuclear não evita emissões de gases do efeito estufa, não ajudando no combate das mudanças climáticas. Coordenador da Campanha de Energia Renovável do Greenpeace, Baitelo revelou que desde o anúncio da construção de Angra 3, “rebatemos todos os argumentos de que essa energia é “limpa” e não emite gás. A usina não emite na operação, mas a cadeia de produção gera emissões mais altas do que as energias renováveis, como a solar e eólica. A parte da mineração tem emissões bastante elevadas, o enriquecimento, o transporte também, sendo grande o custo ambiental, tendo ainda o encerramento da atividade, raramente computado”. Já o “Elefante Branco: os verdadeiros custos da energia nuclear” expõe a inviabilidade econômica de Angra 3, que custará de R$9 a 11 bilhões, bem além dos R$ 7,2 bilhões anunciados pelo governo. Este investimento daria para construir um parque eólico com o dobro da capacidade dessa usina, que é de apenas 1350 MW, sem gerar lixo e sem risco de acidentes.
Com o “Ciclo do Perigo – Impactos da Produção de Combustível Nuclear no Brasil”, o Greenpeace apresentou um quadro dos impactos sócioambientais e dos riscos da energia nuclear na Bahia, onde começa a produção do combustível que alimenta a Central Nuclear de Angra dos Reis. A organização denunciou contaminação radioativa em amostras de água usada para consumo humano, na área de influência direta da mineração da INB em Caetité, revelando uma presença de urânio maior que o índice permitido pela Organização Mundial de Saúde em dois, de 11 poços pesquisados.
Impactos da mineração baiana
Os relatos de organizações e movimentos sociais, que convivem com os problemas gerados do inicio ao fim da cadeia de produção da energia atômica, reafirmaram as análises críticas dos especialistas Sérgio Dialetachi e Ricardo Baitelo ao Programa Nuclear Brasileiro. O Movimento Paulo Jackson – Ética, Justiça, Cidadania, que acompanha as comunidades impactadas pela única unidade de produção de urânio em atividade no país, situada entre os municípios de Caetité e Lagoa Real, falou sobre a gravidade da situação. Em Caetité, município de 46 mil habitantes, localizado no Polígono das Secas, a 754 Km de Salvador, capital da Bahia, o urânio é extraído do minério, purificado e concentrado em forma de sal amarelo, indo para o Canadá, dali saindo para ser enriquecido na Alemanha, Holanda e Reino Unido, de onde volta para a Fábrica de Rezende (RJ), onde se conclui a geração do combustível.
“A INB, que é controlada pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e subordinada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, começou a minerar em 2000, sem a Licença de Operação do IBAMA, só concedida em 2002. A empresa opera sem a licença definitiva da CNEN e descumpre condicionantes fixadas pelo IBAMA, não fazendo o controle da saúde da população e dos trabalhadores. Seus estudos hidrogeólogicos estão sendo questionados pelo Instituto de Águas da Bahia. São 9 anos de ilegalidades, com mais de 10 episódios, entre acidentes e incidentes, nas instalações, ou com operários”, disse a representante do Movimento Paulo Jackson.
A empresa foi acusada de imperícia e negligência pela CNEN, responsável ao mesmo tempo pelo fomento e fiscalização das atividades nucleares e radioativas no Brasil. A mesma CNEN que, contrariando suas próprias normas de segurança, renovou por mais de seis vezes a Autorização de Operação Inicial, porque a INB não consegue se enquadrar nas normas de segurança e radioproteção, que só admite a renovação dessa Autorização duas vezes. A empresa tem problemas técnicooperacionais, trabalhistas e também com o transporte do urânio, que atravessa cerca de 4O municípios e povoados até o porto de Salvador, onde é embarcado para o Canadá. Mas o conflito maior tem com os moradores do entorno da mina, que formam o setor mais atingido, não só por usarem água imprópria para consumo humano e animal, como pelo agravamento da disputa pela água, produto escasso na região e muito consumido pela INB.
Desde 2001, foi pedida ao Ministério Público Federal uma auditoria independente para avaliar o real impacto dos acidentes e de todos os aspectos relativos ao funcionamento da INB. Esta inspeção, finalmente, será realizada, conforme anunciou o Ministério Público Federal em Audiência Pública em Caetité, em novembro passado, atendendo histórica reivindicação das populações de Caetité e Lagoa Real.
Desrespeito aos Direitos Humanos
A oficina, mais uma vez, evidenciou que em todo mundo, o ciclo produtivo da energia nuclear, fonte de eletricidade insegura, cara, perigosa e poluente desde a sua origem, representa uma ameaça à vida, pelos riscos graves que são inerentes à atividade atômica. Demonstrou também que o drama vivenciado por populações da América Latina, que convivem com alguma das fases de produção da energia nuclear, é semelhante. Os problemas trazidos ao Rio de Janeiro, pela Eletronuclear, no processo de construção das usinas Angra 1 e 2, são mesmo similares àqueles decorrentes da implantação da indústria de beneficiamento de urânio em Caetité, onde as promessas de muito emprego e progresso não se concretizaram. Em compensação, os problemas sócio-ambientais nos dois estados se avolumam e os direitos humanos à saúde, à segurança no meio ambiente do trabalho, à informação, são desrespeitados impunemente.
“No início, a população não tinha idéia dos perigos que representavam aqueles empreendimentos. A Central Nuclear acabou com Angra. A sociedade civil não tem controle sobre o que acontece lá dentro. Nos inúmeros problemas ocorridos nas usinas, mandam relatórios para o prefeito, para a Defesa Civil, mas não explicam direito o que acontece. Usam termos técnicos e dizem que tudo está resolvido, que fazem o monitoramento, mas não temos acesso a nada.” afirmou Nádia Valverde, da Sociedade Angrense de Proteção Ecológica, Sapê. Já o plano de emergência é falho. Se acontecer algum evento que precise evacuar a população, não vai funcionar. Eles não têm estrutura médica e nem abrigos apropriados. Anualmente fazem uma simulação e cada ano sai pior, embora digam que estão melhorando o plano”, completou.
O coordenador da Sapê, Rafael Ribeiro, considera a decisão do governo de construir Angra 3, um modelo tecnológico projetado há cerca de 50 anos, como um dos piores equívocos da política energética brasileira, que, ignorando todos os argumentos técnicocientificos contrários, insiste em adotar essa ultrapassada energia, sustentando um polêmico e arrastado licenciamento, que acabará, ao arrepio das leis, permitindo a instalação da usina, mesmo sabendo que ao longo da construção não haverá solução para o lixo radioativo.
Rafael apontou a necessidade de ampliação da campanha antinuclear, particularmente no Nordeste, onde a Bahia, Sergipe, Pernambuco e Alagoas disputam uma das quatro usinas já anunciadas pelo governo. Ali, a Eletronuclear tem feito discussões em Legislativos, com os Executivos, “tentando minimizar a desconfiança que existe sobre sua competência tecnológica, como as questões ligadas à insegurança do funcionamento dos reatores e ao gerenciamento dos rejeitos, para vender a idéia de que a usina vai levar progresso. Precisamos reagir a essa estratégia da conversa doce, com o bolso cheio de dinheiro para os políticos e outro cheio de mazelas para a população,” enfatizou.
Catecismo de Santa Quitéria
Outro temor, comum às populações que vivem em locais onde se desenvolvem atividades do ciclo produtivo da energia nuclear, ocorre na área da saúde. Em Caetité, os casos de câncer são crescentes. Em Angra, o índice é alarmante, sendo o maior do Rio de Janeiro. Já no Ceará, a realidade de quem vive onde fica a segunda jazida de urânio a ser minerada no Brasil, é bem parecida com a baiana. Em Madalena, um dos municípios a ser impactado pela exploração do urânio de Itataia (CE), o padre Richard Cornwall tem uma lista de mais de 600 pessoas que morreram de câncer desde 1958. “Câncer é só um dos problemas de saúde causado pela radiação ionizante produzido pela fissão nuclear – e no nosso caso fusão nuclear, também – do teste nuclear. A contaminação da radiação ionizante é produzida pelo nuclearismo desde a mineração até a disposição final do lixo atômico. É incomparavelmente pior que qualquer outra contaminação que poderíamos encontrar. É invisivel e vai afetando a vida biológica hoje e por gerações futuras de formas imprevisíveis”, disse.
Padre Richard passou a pesquisar o nuclearismo desde 1999, quando soube de um teste nuclear atmosférico clandestino perto de Madalena, em 6 de agosto de 1957. Aparentemente houve 16 destes testes clandestinos no Brasil entre julho de 1957 e junho de 1958. E em resposta ao “Projeto Santa Quitéria”, que pretende explorar fosfato e urânio no Sertão Central a partir de Itataia, perto de Madalena, ele escreveu “O Catecismo de Santa Quitéria”. Ressaltando que fosfato e urânio, são altamente contaminantes, explicou que “o fluor emitido no processamento de fosfato é um gás, que contribui para o efeito estufa, uma das causas do aquecimento global. Por onde o vento leva este gás, tem menos safra agrícola e problemas de fluorose nos animais domésticos que resulta em juntas inchadas, perda de dentes, dor nos ossos, perda de peso, inanição e morte. Para cada tonelada de fosfato produzido, a indústria cria cinco toneladas de gípso radioativo”.
Segundo ele, o processamento de urânio só consegue tirar l5% do urânio destes rejeitos do processamento de fosfato. Todos os rejeitos radioativos desta mineração e o processamento vão produzindo gás radônio, radioativo por dezenas de milênios. O vento e a chuva espalha este material radioativo, contaminando o meio ambiente. Com o tempo, chega a contaminar qualquer água subterrânea. Por onde passa o gás radônio, os índices de câncer são mais altos. “Além do mais, o material produzido no Sertão cearense não vai ficar aqui, deve ir para China e India, através de bancos norteamericanos. A mineração de urânio em grande escala serve principalmente para armamentos nucleares e usinas nucleares. O mundo não precisa de toda esta contaminação”, concluiu.
Radiação sem controle
“A insegurança, a intranqüilidade, o medo, mas também a disposição de lutar contra o programa nuclear brasileiro identificam as vítimas do setor nuclear, caracterizado pela imposição de um sigilo estratégico, pela falta de informação, de transparência e de controle social”, disse Odesson Alves, da Associação das Vítimas do Césio-137, ao falar do maior acidente radioativo do Brasil e o maior do mundo, ocorrido fora das usinas nucleares, símbolo maior do desleixo e da incompetência do poder público.
Falando sobre o drama das 1.600 pessoas que, em 1987, tiveram suas vidas totalmente transtornadas, perderam seu passado, sua identidade, Odesson ressaltou que “até hoje essas famílias sofrem com a falta de assistência do estado e o preconceito. A tragédia de Goiânia exibiu a irresponsabilidade da CNEN com as pessoas atingidas e o descaso com as fontes radiológicas existentes no Brasil, onde, segundo a Associação de Fiscais em Radioproteção Nuclear, existem mais de 30 mil fontes sem controle pelo governo federal,” concluiu.
* Zoraide Vilasboas, da Coordenação de Comunicação da Associação Movimento Paulo Jackson – Ética, Justiça, Cidadania, é colaboradora e articulista do EcoDebate.

Fonte: http://www.ecodebate.com.br/2009/03/14/nuclearizacao-na-america-latina-uma-ameaca-real-artigo-de-zoraide-vilasboas/
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ABADIA DE GOIÁS IV - CONTROLE AMBIENTAL E INSTITUCIONAL

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O Depósito Definitivo está sob o controle institucional da CNEN com um complexo de prédios que compõem o local denominado como Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro Oeste (CRCN-CO/CNEN). Juntamente com o Depósito Definitivo foram inaugurados alguns prédios que compõem a estrutura logística e experimental, como: Centro de Informações, Centro de Estudos e Formação em Radioecologia e o Laboratório de Radioecologia, que realiza estudos científicos de amostras retiradas do meio ambiente.


Como medida compensatória, elaborou-se um projeto para transformar a área em uma Área de Preservação Ambiental (APA). Por determinação do IBAMA, para a devida aprovação do projeto, houve uma recomposição florística no local. A um ano da inauguração do Depósito Definitivo, o Parque Estadual de Abadia de Goiás foi licenciado e hoje está sob a gerência do Departamento de Áreas Protegidas da Agência Ambiental do Estado de Goiás.


O depósito final localiza-se a uma distância média em linha reta de cerca de 1 km do centro da cidade de Abadia de Goiás. O terreno pertence ao Estado de Goiás e é administrado pela Agência Ambiental do Estado de Goiás. A área transformou-se em ‘Área de Proteção Ambiental’ denominada de Parque Estadual Telma Ortegal. “Este projeto foi realizado para integrar uma solução para o dano ambiental referente ao depósito final” (GOIÁS, 1994, p. 42).


Os depósitos de rejeitos de nível baixo e intermediário ficam sob controle institucional após o seu fechamento por um tempo predeterminado garantindo a segurança e integridade física ao que se refere à radioatividade. Este controle é exercido por poucas centenas de anos, após o qual, o nível de atividade do depósito será tão baixo que não mais oferecerá riscos ao meio ambiente e indivíduos. Este é o caso daquele existente em Abadia de Goiás, que por ser um depósito com atividade intermediária, durante os próximos 50 anos, contados a partir de 1997, fará o controle institucional no entorno da área.


Um acompanhamento ambiental é feito através de um Programa de Monitoração Ambiental (PMA). Este programa propõe coletar amostras de solo, vegetação, sedimentos e água para análise laboratorial e divulgação dos dados para os órgãos de controle ambiental. Uma estação meteorológica mede a umidade relativa do ar, precipitação, temperatura, radiação global, pressão atmosférica e a velocidade e direção do vento. Os relatórios são gerados anualmente e comparados aos parâmetros das medidas radiométricas realizadas em laboratórios do Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD). As informações são repassadas ao Laboratório Nacional de Metrologia de Radiações Ionizantes (LNMRI) para avaliações em nível internacional (CRCN-CO, 2003).


O monitoramento ambiental permite comprovar principalmente a influência que a instalação exerce sobre o meio ambiente conforme os padrões de impacto previstos na licença de operação e garante a segurança do local contra o escape do Césio-137 para o meio ambiente. Este parâmetro dá a devida proteção aos indivíduos do público que visitam o local e/ou moram nas imediações do depósito. Ao que tange aos trabalhadores do depósito, durante a construção do Depósito Definitivo, as medidas de doses recebidas pelos mesmos mereceu avaliação. Foi a partir das leituras de canetas dosimétricas e do tempo de permanência na área onde estavam os rejeitos e, dependendo das etapas de construção do mesmo, é, que houve um estudo considerando também as medidas de proteção radiológica. Eles usavam o Equipamento de Proteção Individual (EPI) nas diversas atividades realizadas e faziam escalas de revezamento entre os grupos que entravam na área considerada ‘Área de Risco’, até o total fechamento do depósito.


"Edvaldo, 38 anos, se emociona ao contar o que tem passado. Ele trabalhou como subcomandante da fiscalização do depósito de Abadia entre 1996 e 1997. Um melanoma (câncer de pele) na altura do tórax desestruturou sua vida. Em seguida, apareceram dois nódulos nas costas. “Os policiais quando examinados mostravam grau de radiação e a CNEN mandava que se afastassem, mas eles já tinham passado mais de 24 horas no local”, lembra. Edvaldo vive em tratamento psicológico. Perdeu a casa onde morava, trancou a faculdade e ganhou medo e revolta. 'Meu dinheiro era para comprar remédio. Não tinha como pagar aluguel e pôr comida em casa. Agora, descubro que estou com a próstata aumentada e há possibilidade de recidiva do melanoma em 30%. Mas os médicos não acham que fui uma das vítimas do césio.' "


FONTE: Fotos - Arquivo Pessoal e SULEIDE

http://www.ipen.br/biblioteca/teses/M23192.pdf

http://perigoconcreto.blogspot.com/2010/01/o-fantasma-do-inferno-azul.html



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ABADIA DE GOIÁS III - A HISTORIA DO DEPÓSITO DE REJEITOS

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TRANSPARÊNCIA EM AUDIÊNCIA PÚBLICA


A comunidade que vivia no povoado de Abadia de Goiás tinha que ser notificada e esclarecida quanto ao projeto do empreendimento. Este repasse de informações existente entre a população e os representantes do Estado, juntamente com os técnicos do projeto de engenharia, seriam transmitidas em uma audiência pública de esclarecimento. Contudo, estas informações, por estarem atreladas às condições do RIMA, devem evitar a comunicabilidade dos dados de uma forma complexa, visto que se entende que o RIMA funcione basicamente como um documento destinado ao público leigo. Este pode vir a oferecer alguns pontos do EIA, mas numa linguagem menos técnica e a mais acessível possível (Esta condicionante está apensa ao artigo 9 do item III da Resolução CONAMA 001/86 bem como ao Parágrafo Único do mesmo artigo, não estabelecendo conteúdos mas, tão somente linguagem.).


Inicialmente, as informações são coletadas a fim de prestar qualquer tipo de esclarecimento, evitando informações dúbias e desencontradas. Então, procurando atender algumas das exigências do referido processo, procurou-se coletar informações junto à população de Abadia de Goiás a fim de verificar a questão do impacto social sofrido pela mesma em referência ao depósito. Para isso, houve a aplicação de um instrumento de pesquisa, assim denominado: Avaliação psico-sócio econômica na população de Abadia de Goiás. Este documento, com seus respectivos resultados, foram representativos para a devida aprovação do projeto do Depósito Definitivo, visto terem revelado que a construção do mesmo iria minimizar a intensidade dos riscos para aquela população.


Alguns outros trabalhos que haviam sido publicados no enfoque do impacto social junto à população de Abadia de Goiás foram levantados a fim de se tomar conhecimento de informações que poderiam ser transmitidas na ocasião da Audiência Pública.


A contribuição do artigo da autora Elza Chaves (1991), por exemplo, vem esclarecer que a incorporação de uma imagem catastrófica, divulgada durante o acidente em Goiânia, influenciou o comportamento social da população de Abadia de Goiás. Para a autora, considerando que ainda não se tinha a certeza das dimensões reais do problema, logo que o acidente aconteceu em Goiânia, este era associado a um clima de guerra, destruição e morte, comparável aos eventos de Hiroshima e Nagasaki.


Ainda de acordo com Chaves (1991), as pessoas de Abadia de Goiás se sentiam igualmente atingidas, a ponto do acidente vir a propiciar uma atuação coletiva com manifestações de oposição e protesto contra a transferência dos rejeitos para esta localidade. O uso de um aparato policial repressivo que acompanhava na época o transporte do material para esta localidade, o desenrolar dos acontecimentos com a quebra da unidade coletiva inicial, a permanência do Depósito Provisório e o não cumprimento de promessas das autoridades governamentais promoveram o aparecimento de novos componentes na dimensão subjetiva.


A autora Chaves (1991) conclui que estes conflitos atingiram a dimensão de uma situação de caos e guerra por aqueles que participaram diretamente dos acontecimentos. Paralelamente, os sentimentos de impotência, frustração e fracasso emergiram dentre os manifestantes. Evidenciou-se o reconhecimento do precário poder de influência deles apesar da mobilização, dos protestos e das tentativas de negociação. Persistiu o reforço de um distanciamento e a falta de credibilidade das instâncias técnicas e político-governamentais.


Assim, quando houve a reunião em Audiência Pública sobre o ‘Projeto do Depósito Definitivo’, a comunidade de Abadia de Goiás pode se pronunciar junto ao público, aos técnicos e aos representantes político e administrativos. O fator adicional estava no apelo explícito em agilizar a implementação do empreendimento, com a expectativa de que após o mesmo concretizado se instauraria uma situação de maior tranqüilidade entre a população e modificações positivas para o local.


Dentre alguns dos aspectos negativos que envolveram o processo pode-se citar a questão política. A relação conjuntural entre as entidades, Associação para Recuperação e Conservação Ambiental (ARCA) e SAMAUMA que atuavam diretamente em movimentos ambientalistas na ocasião do desencadeamento do processo para a implantação do Depósito Definitivo e os representantes da Administração e da Associação dos Moradores do Distrito de Abadia de Goiás estabeleceram uma clivagem ideológica pautada numa posição ecocapitalista. “Ainda que possam não ter uma consciência clara das implicações ideológicas da problemática ambiental, grande parcela dos membros de movimentos de bairro acaba alinhando-se, via de regra por sua postura legalista, na posição ecocapitalista” (STOTZ; VALLA, 1992, p.43).


Nesta linha de conduta, a questão de manter o lixo radioativo no estado de Goiás, já amparada legalmente pelo Projeto de Lei 239/87 citado anteriormente, pôde deflagrar a legalização de recursos públicos garantindo uma possibilidade de desenvolvimento para a área que o aceitasse. Assim, aquela posição reacionária de antes se coloca na compreensão de que o desenvolvimento econômico poderá trazer melhorias para a comunidade. “[...] o movimento parte da compreensão de que o desenvolvimento econômico deve trazer melhorias para a sociedade como um todo – moradores e trabalhadores. E para que essas melhorias sejam possíveis, a sociedade mesma cria leis, cujo cumprimento é uma obrigação da autoridade pública” (STOTZ; VALLA, 1992, p. 44).


De acordo com o relatório final do EIA/RIMA, houve a indicação de que os fatos que acompanharam o processo da transferência dos rejeitos radioativos para o local definitivo acabaram sendo considerados um marco divisor na história da localidade. E, passado o período emergencial verificou-se uma postura de reconhecimento e conformismo da população quanto à inevitabilidade da permanência dos rejeitos radioativos em Abadia de Goiás (GOIÁS, 1994).






FONTE: http://www.ipen.br/biblioteca/teses/M23192.pdf


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ABADIA DE GOIÁS II - A HISTORIA DO DEPÓSITO DE REJEITOS

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O DEPÓSITO DEFINITIVO


As diretrizes políticas para definir sobre o destino final dos rejeitos radioativos iniciaram-se um ano depois do acidente em Goiânia. O presidente José Sarney instalou um Conselho Superior de Política Nuclear (CSPN), em 22 de setembro de 1988, integrado por 28 cientistas. Dentre as cinco comissões consultivas havia uma especialmente criada para estudar uma solução para a questão do lixo radioativo no país. Denominada como Comissão Consultiva de Rejeitos Radioativos, reunia técnicos, pesquisadores, cientistas e profissionais vinculados à área nuclear.


O Conselho Superior de Política Nuclear, que assessorava o presidente da República em questões de energia nuclear, havia preparado um substitutivo que ainda não havia sido enviado ao Congresso, mas basicamente o que o Conselho propunha era que cada Estado tivesse seu depósito de caráter intermediário e a União teria um ou mais depósitos definitivos. Seguindo a legislação vigente na época de 1989, mesmo ainda em situação de projeto de lei, havia também a definição de que resíduos nucleares advindos de acidentes deveriam ser depositados no Estado onde o mesmo acontecesse. Desta forma, tudo indicava a definição da região aonde iriam ser depositados os rejeitos do acidente de Goiânia, isto é, em seu próprio Estado.


Algumas características são avaliadas quando é feita a identificação de um local para a adequação de rejeitos radioativos. A ‘escolha de local’ estuda a região e área progressivamente mais específicas para este tipo de procedimento.

  • Inicialmente há uma análise preliminar em que se faz a identificação regional de fatores de caráter excludente, como atividade sísmica e precipitação pluviométrica;
  • estudos gerais em que compreende os estudos geológicos e hidrológicos de área em regiões não excluídas na fase anterior;
  • seleção de área favoráveis onde há a identificação de área que reúnam maior número de características favoráveis e a caracterização do local com a descrição das características dos locais selecionados na fase anterior.

Baseados neste estudo, a escolha da localização do depósito é feita pelas autoridades competentes. Além dos aspectos técnicos, estão envolvidos ainda os aspectos econômicos, políticos e sociais (DELLAMANO, 1999).


Quanto aos aspectos técnicos, após a decisão oficial da construção de um depósito na região do Estado de Goiás, alguns órgãos firmaram parcerias para o desenvolvimento de um projeto, assim denominado de ‘Projeto Goiânia’. Para isso, compreendeu-se a realização de 8 etapas, discriminadas a seguir:

  1. Seleção do Local;
  2. Caracterização de Local;
  3. Caracterização dos Rejeitos, Técnicas de Tratamento e Projeto Conceitual;
  4. Adequação dos Rejeitos (construção do Depósito Definitivo I);
  5. Relatório Final de Análise de Segurança;
  6. Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA);
  7. Licenciamento;
  8. Construção do Depósito Definitivo II.


Os critérios de seleção de local seguem normas específicas para este propósito. De acordo com a norma CNEN-NE-6.06 (1985): “a adequação de uma local para depósito deve satisfazer requisitos que garantam o confinamento dos rejeitos, visando a proteção dos seres vivos, seus bens e do meio ambiente, em longo prazo”. Para se atingir este objetivo, outros diversos fatores devem ser considerados nos trabalhos de Seleção de Local, tais como: “o local selecionado deve ser bem drenado e não estar sujeito a inundações e erosões, estar situado em áreas de baixa sismicidade e de baixa densidade populacional, possuir um solo de baixa permeabilidade e alta capacidade de retenção de radionuclídeos. O nível da água subterrânea deve ser bem abaixo da parte inferior do depósito para não haver escape de material radioativo para o meio ambiente” (CDTN, 1991, p.25).


Estas recomendações normativas devem ser levadas em consideração nas etapas de investigações realizadas no processo de ‘Seleção de Local’ quanto aos critérios da situação geológica, sócio-econômica, ecológica e fisiográfica. A condução destas análises seletiva identifica fatores de restrição de uso de determinada área ou possibilita identificar alguma outra área que tenha a necessidade de construção de barreiras adicionais de engenharia.


O quadro apresentado a seguir compreende a ordem seqüencial de um processo de Seleção de Local:

  1. O primeiro passo no processo de Seleção de Local é a definição de uma ‘Região de Interesse’, a qual é definido em função de aspectos técnicos, políticos e econômico;
  2. No segundo passo são feitos estudos em escala regional, visando eliminar áreas desfavoráveis e identificar ‘Áreas preliminares’, dentro da ‘Região de Interesse’;
  3. O propósito do terceiro passo é avaliar as Áreas Preliminares para identificar as ‘Áreas Potenciais’. Os trabalhos são realizados tendo como base fotografias aéreas, relatórios de instituições oficiais e eventuais reconhecimentos de campo. São analisados aspectos de uso do solo, geológicos, hidrológicos e fisiográficos;
  4. O quarto passo de Seleção de Local contempla o reexame de trabalhos realizados em passos anteriores, e inclui visita de reconhecimento às ‘Áreas Potenciais’. Nesta etapa podem ser feitas amostras de solo e de água de superfície. A análise de fotografias aéreas recentes é também útil nesta fase dos trabalhos, permitindo a identificação de alterações no uso do solo, rotas de transporte e características geofísicas que podem não estar identificadas nos mapas utilizados. Neste estágio dos trabalhos de seleção, deve-se identificar os proprietários dos locais estudados, uma vez que o repositório deve estar situado preferencialmente em terras públicas. O resultados destes trabalhos irá indicar os ‘Locais Candidatos’, que serão analisados em maior detalhe para a escolha do local do depósito definitivo.


Os estudos que anteciparam a decisão da escolha final de um espaço para a construção do depósito para os rejeitos do acidente de Goiânia contêm a identificação dos locais que reuniam características favoráveis à implantação do mesmo culminando com a indicação de três ‘Locais Candidatos’ conforme o ‘Relatório sobre a escolha do local do Depósito Definitivo dos Rejeitos gerados no acidente de Goiânia’ (CDTN, 1991).


Do ponto de vista regional, os Locais Candidatos apresentavam uma característica comum que é a intensa polarização pela cidade de Goiânia. A facilidade de acesso pelas rodovias e pelo transporte, além da proximidade, proporcionava a dinamização das relações político-administrativas, econômicas, sociais e culturais.


O primeiro Local Candidato distava cerca de 130 km a sudoeste da cidade de Goiânia, e estava situado a cerca de 110 km do local do depósito provisório. O local abrangia uma faixa de terra situada próximo da BR-060 e era pertencente ao município de Jandaia.


O segundo Local Candidato se situava em uma faixa de terra da porção nordeste do município de Indiara. Distante 94 km da cidade de Goiânia e cerca de 74 km do local do depósito provisório em Abadia.


O Local Candidato que recebeu o maior número de pontos, compreendia uma faixa de terra vizinha ao local do depósito provisório de Abadia. O local abrangia uma porção de terra situado próxima ao entroncamento da rodovia Federal BR-060 com a via municipal que liga a cidade de Aragoiânia à Trindade, sendo vizinho à localidade de Abadia de Goiás.


Em trabalho de campo realizado em etapa anterior, verificou-se que possuía uma altitude de cerca de 900 metros enquanto na área dos Locais Candidatos descritos anteriormente, verificou-se uma altitude em torno de 600 metros. Uma extremidade do terreno se encontrava drenado por um pequeno curso d’água, o Córrego Quati, o qual deságua no Rio Dourado situado já fora da área, não ocorrendo áreas inundáveis. A densidade demográfica nas circunvizinhanças era baixa (seis hab/km2), não havendo praticamente atividade de uso do solo para fins agrários, nem áreas de extrativismo mineral. A área era de propriedade pública pertencente ao Estado de Goiás.


Dentre os vários locais apresentados, o que melhor se destacou por apresentar as características mais apropriadas, era aquela junto à área do depósito provisório. Estava situada a apenas 400 metros a oeste deste, e, a cerca de 2,5 km da então localidade de Abadia de Goiás.


A conclusão apresentada no ‘Relatório sobre a escolha do local do Depósito Definitivo dos Rejeitos gerados no acidente de Goiânia’ faz uma ressalva quanto àquela escolha e esclarece que “qualquer um dos três locais poderia ser escolhido para a construção do Depósito Definitivo, e embora, cada um representasse riscos e custos diferentes, cabe ao Governo do Estado de Goiás a escolha daquele que melhor atendesse aos interesses e conveniências do desenvolvimento do Estado e da população de um modo geral” (CDTN, 1991, p.134).


Enfim, define-se neste relatório que dentre as diversas vantagens e desvantagens apresentadas, outras hipóteses baseadas em outras metodologias poderiam ser levantadas quanto ao aspecto físico-geológico, mas em nenhuma delas seria absoluta, devendo o projeto de engenharia superar todas as outras dificuldades existentes.


Neste período, em 1991, com a decisão da área já definida pelos governantes do país, os estudos se voltaram para o desenvolvimento de um projeto de engenharia do tipo de depósito mais adequado para a blindagem do Césio-137. As normas referentes a este tipo de aspecto foram consultadas pelos peritos da área nuclear. Os rejeitos oriundos do acidente com Césio-137 enquadram-se nas categorias de ‘baixo’ e ‘médio’ níveis de radiação, de acordo com a norma CNEN-NE-6.05 - Gerência de rejeitos radioativos em instalações radiativas. De acordo com essas características, pôde-se realizar o projeto de um depósito de superfície de acordo com a prática internacional e com as recomendações da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) atendendo de maneira conservadora aos critérios nacionais e internacionais estabelecidos para a deposição final de rejeitos radioativos com níveis baixo e médio de radiação.


Os depósitos de superfície com barreiras de engenharia, similares ao de Abadia de Goiás, já são utilizados com sucesso em outros países. Alguns deles como o de El Cabril (Espanha), L’Aube (França) e Hakkashomura (Japão) estão em fase operacional. O depósito de La Manche (França), que entrou em operação em 1962, terminou em 1995 sua etapa de fechamento e é o primeiro depósito a entrar na fase de controle institucional na Europa (DELLAMANO, 1999).


Em 1994, haviam sido concluídas as três etapas iniciais, assim como já havia definido como realizar a deposição. Dois depósitos foram projetados e construídos. Um deles, o Container de Grande Porte (CGP), abriga de forma definitiva 40% de todo o rejeito que foi preparado para a deposição, cuja concentração radioativa é tão baixa que poderiam ser definidos como lixo comum. Ficaram no mesmo local onde ficava o depósito provisório evitando assim o impacto social negativo sobre a comunidade goiana. O outro depósito construído, denominou-se Depósito Definitivo I, onde tem 60% do restante dos rejeitos, aqueles efetivamente radioativos, que comporta os restos da fonte principal que originou o acidente de Goiânia (A fonte principal era a peça que continha o maior índice de radioatividade dos rejeitos. Ela era tida como a causadora de todos os outros problemas de contaminação, por conter o material radioativo dentro de um recipiente chamado de marmita, que se espalhou pelos locais e pessoas, por estar em composição de cloreto de césio.).


A repartição dos rejeitos radioativos em dois depósitos deve-se principalmente a critérios estritamente técnicos. As soluções possíveis para cada tipo de grupo de material foram estudadas seguindo o modelo adotado em outros países. Foram divididos em grupos considerando o tempo que levariam para serem considerados inócuos (CDTN, 1991) (Para efeito de texto, no decorrer do trabalho, o termo ‘depósito’ será mencionado no singular quando se referir ao Depósito Definitivo de Rejeitos Radioativos de Abadia de Goiás, mesmo tendo sido construídos dois depósitos.).


Em setembro de 1996 deu-se início às obras do Depósito Definitivo II, e em 5 de junho de 1997 foi inaugurado o DRR_Abadia. Semelhante a um grande monolito de concreto, o depósito tem aproximadamente 3 mil m2, com o pé-direito em torno de 8 m a 9 m e a aparência de uma pequena elevação do terreno, pois o monolito de concreto foi coberto por camadas sucessivas de matérias próprias para drenagem dirigida, com a função de evitar o contato das águas da chuva com o repositório. Externamente, foi revestido por isolantes com base em resina e betume.


Esta grande caixa de concreto está dividida internamente por paredes, não só por questão de ordem estrutural, mas também devido à necessidade de barreiras de radioproteção. Dessa forma, os rejeitos mais ativos ficarão nas regiões centrais, contornados pelos menos ativos e assim por diante. Os espaços vazios entre os recipientes serão preenchidos por argamassa própria, rica em bentonita, cuja função principal é capturar e reter o césio, no caso de qualquer ruptura ou perda de contenção dos recipientes.


Nota-se que até aqui todos os requisitos foram cumpridos em se tratando ao aspecto condizente com as regras e normas técnicas impostas para um empreendimento deste tipo, como também todas as normas que regulamentaram todo o processo de implantação de um Depósito. Essas informações estão documentadas e acessíveis ao público nas instituições ambientais que participaram do processo para a conclusão do ‘Projeto Goiânia’, como uma das condições impostas pelo Estudo de Impacto Ambiental – Relatório de Impacto do Meio Ambiente (EIA/RIMA).



FONTE: http://www.ipen.br/biblioteca/teses/M23192.pdf


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