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O que dizem as vítimas do Césio hoje?

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Goiânia, 13 de Setembro de 2013
MANIFESTO PELA VIDA – A AVCésio SE MANIFESTA
 
Como sobreviventes da tragédia com o Césio-137 em Goiânia, que ocorreu no dia 13 de Setembro de 1987, exatamente há 26 anos, nos preocupamos quando sabemos que em Fukushima há 264 toneladas de varetas de combustível usado, por serem elas portadoras de grande quantidade de Césio-137.
Exatos 26 anos atrás, em um Domingo, um pesadelo anunciado se materializou. Após passar meses em um terreno sem estrutura para abrigar uma máquina de radioterapia obsoleta, a máquina teve suas partes de chumbo levadas, para que fossem vendidas em um ferro velho, dentro do chumbo haviam apenas 19 gramas de Césio-137.
Quando recordamos desta parte de nossa história algumas feridas se abrem. Porque a segurança de um equipamento desses falhou? Sua estrutura mudou ou algo semelhante passará outra vez? Em um segundo momento vem a dor do silêncio e a angustia da perda. Quantas vidas foram alteradas? Quantos momentos traumáticos terão que ser superados? Como suportar a violência das pessoas assustadas? Que ao invés de reclamarem seus direitos civis e assumirem compromissos de mudanças, mobilizadas pela situação, correram assustadas e se refugiaram nas grosserias e agressões? Como esquecer a gravata de casamento, agora tão radioativa quanto meus bichos de estimação e minhas meias? Livros, fotos, história, memória e até família...
Podemos narrar os danos incalculáveis das 19 gramas de Césio-137, mas o que imaginar das 264 toneladas material altamente radioativos lançadas ao mar? Como crianças mudas telepáticas nossos governos insistem em uma saída de manter seus programas nucleares, ainda que os mesmos tenham se mostrado como meninas cegas inexatas. Não calculam nem previnem jamais as mulheres e suas rotas alteradas. Quando o azar calha e as tragédias anunciadas se consumam nos fazem pensar nas feridas como rosas cálidas.



Mas, oh, não se esqueçam da rosa da rosa. Quando falamos da questão nuclear no Brasil, estamos falando da fina flor que brotou, herança amarga do plantio da ditadura. A rosa de Hiroshima, a rosa hereditária, é a herança, é o presente que as gerações futuras terão que encarar. A rosa radioativa, estúpida e inválida, emana seu perfume hoje de Fukushima.


Quando será que nosso governo irá se curar dessa rosa com cirrose, quando poderemos levantar pela manhã respirando o ar daqueles que não precisam bancar o programa que sangra os cofres públicos há anos, nem terem que arcar com as consequências e restrições de uma fatalidade nuclear. Nenhuma pessoa em sã consciência deseja um mundo sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada. Mas se nada fizermos, ou se fizermos mas não formos ouvidos, caminharemos para esta direção de horror, trauma e desgraça. Desde já peço a juventude que virá, que nos perdoem. 
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O que penso sobre o acidente com Césio 137

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Em setembro de 87 Goiânia se apresentava ao mundo, não por sua beleza ou pela corrida internacional de motos, infelizmente a bela cidade ficara conhecida por uma desgraça anunciada, a qual maculou todo estado que sofreu preconceito do resto do país.

O ocorrido há 25 anos não foi só um acidente, foi um desastre que arruinou centenas de pessoas tirou vidas e causou discriminação ao estado inteiro.

Odesson Alves Ferreira - Presidente da AVCésio
Aquilo foi uma tragédia que trouxe danos incalculáveis, por causa dela ficamos sem passado, perdemos os parentes e amigos que por medo do desconhecido se afastaram de nós, perdemos a condição de trabalhar, o direito de ir e vir, nossos endereços, fotos e enxovais de casamento, documentos e até animais de estimação foram tirados de nós da pior forma possível, foram sacrificados com veneno e até por projétil de arma de fogo no meio da rua como se fossem inimigos.

Fomos retirados de nossos lares no meio da noite e jogados em gramados de futebol como nos tempos do holocausto nazista, aonde fomos lavados com produtos corrosivos como se fossemos objetos, foi muito triste e humilhante saber que estávamos contaminados ou irradiados, mas não só por césio, e sim pela irresponsabilidade de uns e incompetência de outros.

Sofremos as maiores atrocidades ao perder tudo que anos após anos conquistamos com o suor derramado no trabalho cada um ao seu modo e condição, mas com honra e honestidade.

Jogaram-nos em corredores de hospitais sem ao menos esclarecer o que estava acontecendo, o local e as pessoas não estavam preparados para nos receber. Na verdade mais parecia um campo de concentração para leprosos.

Discriminados pelo preconceito de uma sociedade desinformada, era como se todos portassem as mais diversas doenças contagiosas.
De repente nos foi apresentado um grupo de pessoas que se diziam médicos, físicos e enfermeiros, mas na realidade pra nós não passavam de corpos sem rostos, pois todos estavam paramentados como se fossem astronautas ou seres de outro mundo.

Com o passar dos dias começamos perceber que os extra terrestres na verdade éramos nós, por causa do contato com material radioativo as feridas abriram deixando nossos corpos como os de mortos vivos.

Constatação que ficou clara na visita que recebemos do então presidente Sarney, quando exigiram que tomássemos banho mais cedo pra colocar roupas limpas e que ficássemos sentadinhos em um canto expostos para visitação.

Ali acuados pela comitiva que apreciava talvez os últimos momentos de nós moribundos. Eu disse ao governador Henrique Santillo que nossas famílias estavam passando necessidades aqui fora, Ele com voz forte, mas embargada balbuciou, “fiquem tranquilos meus filhos, pois suas
famílias não ficarão desassistidas”, ou seja, morram em paz. Ali me lembrei de que quatro dos nossos já haviam perecido, então pensei quem será o próximo?

O medo era real, pois ao viajar para o hospital Marcilio Dias a impressão é de que seria ida sem volta e dependendo da volta teria que enfrentar a revolta dos algozes comandados pelo insano José Nelto, que irresponsavelmente incitava o povo pra não deixar sepultar naquele campo santo os filhos da terra, mesmo que os túmulos fossem de concreto e caixões de chumbo para que não pudessem mais sair.

Odesson Alves Ferreira - Palestra em escola
O tempo passou, outra tragédia se anunciava foi quando alguém sugeriu que aquelas pessoas até então enjauladas, saíssem para um passeio quando seriam reapresentadas à sociedade, mas deveriam sair escoltados pela policia, foi outra grande humilhação perceber o medo nos olhares assustados da população nos parques e sorveterias.

Finalmente saímos da quarentena depois do natal, meu destino foi morar temporariamente no albergue samaritano, aonde minha família há dias já vinha sendo sugada pelos enxames de muriçocas.

Mais tarde folheando o jornal deparo com uma matéria aonde a então diretora técnica da Fundação Leide declara que “algumas dessas pessoas não sobreviverão mais de 02 anos e meio”, de novo começamos a interrogar, quem vai primeiro?

Graças a Deus a médica estava enganada, mas talvez tenha sido pior, por que as autoridades começaram a imaginar que estavam dando muito às vítimas e então, pouco a pouco foram tirando o mínimo que já nos era de direito. Foi assim com a fundação, a assistência e até com a pensão que já era pouca e se tornou uma miséria.

25 anos se passaram e muitos dos companheiros realmente se foram, aqueles que aqui estão vão morrendo a míngua, isso por inércia dos cientistas e cegueira da justiça que prefere cruzar os braços e negar o nexo causal doença/acidente e mais uma vez chegamos a conclusão que o tão falado direito humano não alcança aqueles realmente necessitados.

Nesta data e em público imploro aos senhores governantes que façam uma reflexão sobre esses 25 anos, é hora de fazer um balanço, aproveitar o que foi positivo e desprezar aquilo que nada acrescenta, reconhecer as falhas e sem vaidade garantir o mínimo de dignidade a essas pessoas que ainda são cidadãs.

É inadimissível tantos bons profissionais exercerem suas funções com total amadorismo por falta de condições de trabalho, mesmo aquele postinho de saúde em que se transformou uma fundação só existe de direito, pois juridicamente o posto não existe de fato simplesmente necessita de um decreto que o governo demora anos para assinar.

Odesson Alves Ferreira - Palestras
Falta vontade politica pra resolver de vez um problema pequeno em relação à grandiosidade do desastre.

É preciso garantir acesso aos verdadeiros donos daquela unidade de saúde. É necessário ter acolhimento com humanismo para reconquistar o público alvo razão da existência da instituição, que hoje chamam de CARA.

Aqui faço um apelo, busquem pesquisadores capazes de nos dar uma resposta quanto às doenças que insistem em acometer os radioacidentados, estamos cansados de ouvir os médicos que tem vínculo com o governo dizerem que as doenças não tem nada a ver com o acidente radioativo. 

Tenho certeza que eles dizem sem o embasamento que nós também não temos, mas posso afirmar que nexo causal doença e falta de assistência ceifou mais de 100 vidas que de alguma forma foram vítimas do desleixo.

Peço em nome dos moradores da 57 que revitalize a rua, erga um memorial no lote que foi contaminado para que amenize um pouco aquele ar fantasmagórico.

Pra finalizar quero dizer que por várias razões nós vítimas do maior acidente radioativo fora de usinas somos totalmente contra a mineração de urânio em alta escala, a construção de armas bélicas e as usinas nucleares.
Tenho dito...


FONTE: Fala de Odesson Alves Ferreira durante o evento do dia 28/09/2012

 
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25 anos do desastre radioativo em Goiânia

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    O fenômeno da radioatividade descoberto pelo físico francês Henri Becquerel em 1896, mostrou que o núcleo de um átomo muito energético tende a se estabilizar, emitindo o excesso de energia na forma de partículas e ondas. As radiações emitidas por esses núcleos chamadas de partículas, alfa e beta (pouco penetrantes) possuem massa, carga elétrica e velocidade. Os raios gama são os mais perigosos por serem mais penetrantes (energéticos), e de efeitos extremamente nocivos para a vida, são emitidos na forma de ondas eletromagnéticas, não não possuem massa, e se propagam com a velocidade de 300.000 km/s.

    Portanto, quando temos a presença indesejável de um material radioativo em local onde não deveria estar, existe assim a contaminação radioativa que gera irradiações. Para descontaminar um local, retira-se o material contaminante. Sem o contaminante o lugar não apresentará irradiação, nem ficará radioativo, irradiação não contamina, mas contaminação irradia.

     Feito este preâmbulo, relembremos o ocorrido há 25 anos, naquele 13 de setembro de 1987, no município de Goiânia (GO), considerado o maior acidente radiológico do mundo. Um aparelho de radioterapia contendo o material radioativo césio-137 (produzido em reatores nucleares) encontrava-se abandonado no prédio do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), instituto privado, no centro de Goiânia, desativado há cerca de 2 anos (isto mesmo, havia 2 anos que o equipamento estava abandonado no local). Dois homens, Roberto e Wagner, à procura de sucata, entraram no prédio do Instituto sem nenhuma dificuldade, pois o mesmo se encontrava em escombros, sem portas e nem janelas, e levaram o aparelho até Devair, dono de um ferro-velho. Durante a desmontagem do aparelho, foram expostos ao ambiente 19 g de cloreto de césio-137 (CsCl), pó semelhante ao sal de cozinha. O encontrado não era exatamente na forma de pó, mais parecia como uma pasta, de cor acinzentada, e virava pó quando friccionado. Mas o que chamava muita atenção é que no escuro, brilhava intensamente com uma coloração azulada. Encantado com o brilho do material, Devair, passou a mostrá-lo e até distribuí-lo a amigos e familiares, inclusive para os irmãos Odesson e Ivo, que levou um pouco de césio para sua filha, Leide.

   Expostas ao material radioativo, às pessoas começaram a desenvolver sintomas da contaminação (tonturas, náuseas, vômitos e diarréia), algumas após horas de exposição e outras após alguns dias, levando-as a procurarem farmácias e hospitais. Foram medicadas como portadoras de uma doença contagiosa. Os sintomas só foram caracterizados como contaminação radioativa em 29 de setembro, depois que esposa do dono do ferro-velho Maria Gabriela, levou parte do aparelho desmontado até a sede da Vigilância Sanitária. No dia 23 de outubro daquele ano morria Maria Gabriela, esposa de Devair e sua sobrinha Leide. Devair, juntamente com outras 15 pessoas, foram encaminhadas para tratamento de descontaminação no Hospital Naval Marcílio Dias no Rio de Janeiro, vindo a falecer em 1994. Nestes 25 anos 6 pessoas da mesma família Alves Ferreira vieram a óbito.

       Para a verdade dos fatos, é necessário deixar registrado que o governo na época não sabia ainda o que estava acontecendo. Até que no dia 29 de setembro, um dia após Maria Gabriela e Geraldo (catador de recicláveis que morava no ferro-velho) terem levado a peça que continha o césio a Vigilância Sanitária. O físico Walter Mendes, de férias na cidade, solicitou um contador Geiger do escritório da Nuclebrás de Goiânia, emprestando-o a Vigilância Sanitária. E ai sim, foi constatado a radioatividade.

     A propagação do césio-137 para as casas próximas onde o aparelho foi desmontado se deu por diversas formas. Merece destaque o fato do CsCl ser higroscópico, isto é, absorver água da atmosfera. Isso faz com que ele fique úmido e, assim, passe a aderir com facilidade na pele, nas roupas e nos calçados. Levar as mãos ou alimentos contaminados à boca resulta em contaminação interna do organismo, o que aconteceu com Leide de 6 anos de idade. Oficialmente, segundo a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), quatro pessoas morreram, e além delas, das 112.800 pessoas que foram monitoradas, em 6.500 foram encontradas contaminação discreta, mas apenas 250 apresentaram contaminação corporal interna e externa que mereceram maior atenção e acompanhamento. Destas, 49 foram internadas e 21 exigiram tratamento médico intensivo.

    Os trabalhos de descontaminação dos locais afetados produziram 6.500 toneladas (somente recentemente reconhecida pela CNEN ) de lixo contaminado com apenas 19 g de césio-137. O lixo armazenado em caixas, tambores, containeres eram constituídos de roupas, utensílios domésticos, plantas, solo, animais de estimação, veículos, materiais de construção (algumas casas foram implodidas, sem que pudesse tirar nada de dentro, nem brinquedos, fotografias). Todo este lixo radioativo foi armazenado em um depósito construído na cidade de Abadia de Goiás, vizinha a Goiânia, onde deverá ficar, pelo menos 180 anos.


     Quatorze anos depois, o governo de Goiás incluiu mais 600 pessoas na lista de vítimas. O Ministério Público Estadual (MPE) chegou à conclusão que, policiais e funcionários que trabalharam durante o período da tragédia foram contaminados e alguns morreram em conseqüência de doenças provocadas pelo césio. E estas mortes nunca entraram nas estatísticas oficiais.

      Por outro lado, o Centro de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves Ferreira, criado pelo governo do estado para acompanhar as vítimas, não admitia relacionar ao acidente com o césio, as mortes e as doenças denunciadas pelo MPE. Foi então assinado um acordo entre o Estado e o MPE para que as novas vítimas, seus filhos e netos recebessem assistência médica e indenização.

   Após vinte e cinco anos do desastre radioativo, as várias pessoas contaminadas pela radioatividade não recebem os medicamentos, que, segundo leis instituídas, deveriam ser distribuídos pelo governo. E muitas pessoas envolvidas diretamente com o ocorrido, ainda vivem nas redondezas da região do acidente, entre as Ruas 57, Avenida Paranaíba, Rua 74, Rua 80, Rua 70 e Avenida Goiás, sem oferecer nenhum risco de contaminação.

   Este desastre deixou marcas profundas nas pessoas mais diretamente afetadas e que sobreviveram, e em todo município. O que caracterizou este episódio, e deixou evidente a sociedade, foi o despreparo, a inoperância, o improviso e o desinteresse demonstrado pelo poder público com a saúde das pessoas, principalmente manipulando informações.

      A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) ficou desnudada diante do grave desastre de Goiânia. Mas não é somente a CNEN, mas todas as atividades nucleares no Brasil continuam surpreendendo negativamente, pois transcorrido 25 anos as atitudes e a postura de hoje são semelhantes a do passado. Pouca coisa mudou, em relação à transparência e a prepotência. E o descrédito a esta autarquia é cada vez mais percebido pela população, quando ela se informa e toma conhecimento das atividades desenvolvidas na área nuclear, onde sobressai a visão miliciana de soberania e defesa nacional, em que tudo é sigiloso, tudo é secreto.

      O exemplo mais recente que acontece, ou podemos dizer a tragédia anunciada, é o que atinge as populações vizinhas da mina de urânio de Caetité na Bahia. Mas esta é outra estória que devemos estar atentos e evitar que nosso povo morra pela (ir)responsabilidade dos governantes.


Heitor Scalambrini Costa
Professor da Universidade Federal de Pernambuco

Odesson Alves Ferreira
Associação das Vitimas do Césio 137/AVCésio

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Carta da AVCésio para Fukushima - Legenda em Português

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Carta da AVCésio para as vítimas de Fukushima

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Goiânia, 17 de Março de 2011


 Não é a primeira vez na história que a sociedade assiste com espantos o efeito devastador de uma tragédia nuclear. Infelizmente, as diretrizes que o mundo vem adotando em relação ao tema nos afirmam que tão pouco a tragédia em Fukushima será a última.


Em Setembro de 1987 os olhos do mundo se voltaram para o Brasil. No inicio do mês recebemos notícias do "êxito" em nosso programa nuclear (paralelo) que anunciava a capacidade tecnológica própria para enriquecer urânio a 20%. Ao final do mês é anunciada a "derrota", a tragédia causada pela exposição à radiação sofrida pela população em Goiânia e a contaminação sofrida pelas vítimas do contato direto com o elemento radioativo Césio-137. Na qualidade de presidente da AVCésio, associação criada pelas vítimas diretas da tragédia, venho oferecer condolências e solidariedade as vítimas e futuras vítimas do terror e silêncio que hoje vem de Fukushima.



Nós conhecemos o sabor do medo que a falta de informação em um momento de crise causa. Sabemos como são dolorosas as feridas feitas pela brutalidade quando o pânico e a falta de informação inflamam a população. Sofremos literalmente na pele angústias que apenas a radioatividade pode causar. Nossas propriedades, bens, documentos, memórias, fotografias, saúde física, parentes, amigos, relações profissionais, animais de estimação, entre muitos outros, foram todos violentamente extintos ou prejudicados. Por este motivo manifestamos aqui nossa compaixão, carinho e acolhimento as vítimas e futuras vítimas de Fukushima.Sempre nos comove ver a movimentação e a solidariedade de técnicos e centros tecnológicos do mundo inteiro ante uma emergência nuclear. Tal imagem nos gera a sensação de comunicação e redes de apoio, dois pontos frágeis e inoperantes dentro da temática nuclear. A falta de informação "crônica" é a responsável por gerar e elevar a perda de confiança nas autoridades competentes.



Infelizmente as tragédias nucleares mundo a fora seguem o mesmo desesperante roteiro: Poucas informações desmentindo a gravidade do problema, "pequenas" inverdades em nome do bem geral da nação, desconfiança e mobilização internacional, truculência nos procedimentos envolvendo vítimas, até que enfim cheguem informações a população local e mundial das reais dimensões da tragédia. Esta política esmagadora não deveria seguir vigorando, cartas como esta são também tristes alardes de danos incalculáveis.



Esperamos, e faremos pressão, para que o governo brasileiro siga o exemplo dos países da Europa que agora se movimentam para desacelerar e extinguir seus respectivos programas nucleares. As defasagens, abusos e omissões no programa nuclear brasileiro são inúmeras e graves. A presidenta Dilma Rousseff já avisou aos brasileiros que seu governo será lembrado pelo respeito aos direitos humanos, pagaremos todos para ver o quanto, quando e como nosso governo democrático irá nos proteger. Nossas ações, reclamações, manifestações e movimentos são a parte que nos cabem nesta luta, cuja as vítimas de Fukushima acabaram ingressar.
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A Cronologia dos Fatos – Lixo Radioativo

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Após o fim do processo de descontaminação ainda existiam problemas a serem resolvidos em decorrência do acidente radioativo, um deles era o que fazer com o lixo produzido. Os focos de contaminação e os rejeitos radioativos estavam em áreas urbanas e o Conselho Estadual do Meio Ambiente (CEMAm) proibiu a permanência desse lixo no perímetro urbano mesmo que provisoriamente. Era preciso transferir o lixo para um local longe de núcleos populacionais, do trânsito e dos mananciais de água. O presidente da CNEN sugeriu que o lixo ficasse armazenado em uma área isolada no estado de Goiás e depois fosse levado para a área militar da Serra do Cachimbo. A proposta não teve sucesso, pois o maior problema enfrentado na escolha do local foi a não aceitação do lixo radioativo pelos habitantes. (PEREIRA, 2005)
A história registra que vários moradores de Goiânia protestaram inconformados por terem que abrigar toneladas de lixo radioativo, pois a cidade não tinha usinas nucleares e não era responsável pela geração de rejeitos radioativos. Por outro lado, governos de outros estados também se pronunciaram, decretando a proibição da entrada de lixo radioativo em seus territórios. Resumindo, Goiás teve que ficar com seu próprio lixo atômico; diante dessa situação, autoridades do governo indicaram uma área pertencente à Companhia de Pavimentação do Município de Goiânia, localizada à margem da BR-060. Porém, quando a notícia chegou aos moradores da região, um povoado chamado Abadia de Goiás, uma nova revolta foi deflagrada, inclusive com a tentativa de interdição da estrada que dava acesso ao local escolhido como depósito provisório. Entretanto, o protesto fracassou e o lixo radioativo acabou mesmo sendo depositado em Abadia. (PEREIRA, 2005)
Ao terminarem os trabalhos de transporte dos rejeitos, iniciaram-se os estudos para a escolha do depósito definitivo. Vários locais foram sugeridos, até que a opção recaiu sobre uma área localizada a 400 m a oeste do depósito provisório, distante cerca de 2,5km de Abadia de Goiás. A proposta inicial do governo era de manter o lixo no depósito provisório por um curto período de tempo, no entanto, todos os recipientes contendo rejeitos radioativos decorrentes do acidente em Goiânia acabaram ficando armazenados lá, a céu aberto, durante dez anos. (PEREIRA, 2005)
Em 1997, foi inaugurado o depósito definitivo, em cuja área foi implantado o Parque Estadual de Abadia de Goiás, que mais tarde se tornou o Parque Estadual Telma Ortegal. Trata-se de uma área de preservação ambiental que está submetida ao controle de normas de preservação do meio ambiente pelo IBAMA, CNEN e CEMAm. No local também foi criado, numa parceria entre a CNEN e o Governo do Estado de Goiás, um complexo de prédios que integram o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro Oeste (CRCN-CO) que tem como objetivo cuidar e monitorar o depósito definitivo. (CENTRO REGIONAL DE CIÊNCIAS NUCLEARES DO CENTRO OESTE, 2008; PEREIRA, 2005)
No Parque Estadual Telma Ortegal estão o Depósito Definitivo I  que abriga os rejeitos considerados efetivamente radioativos, como a fonte principal, por exemplo, e, o Depósito Definitivo II, que abriga o lixo cuja concentração radioativa é baixa. Sendo 30 anos o período de meia-vida do césio-137, o lixo radioativo permanecerá no depósito definitivo por pelo menos 180 anos. Nestes dois morros está enterrado o passado de centenas de pessoas. (CENTRO REGIONAL DE CIÊNCIAS NUCLEARES DO CENTRO OESTE, 2008; PEREIRA, 2005)
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A Cronologia dos Fatos – Morte Psicológica e Morte Social

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Além da morte física, a morte psicológica também atingiu as vítimas.
Pessoas com depressão fizeram e ainda fazem parte do cenário pós-acidente. Devair Alves Ferreira, o dono do ferro velho, por exemplo, depois do ocorrido, tornou-se alcoólatra e morreu sete anos depois, constatando-se como causa de sua morte, uma parada cardiorrespiratória, insuficiência hepática e metamorfose gordurosa. Ivo Alves Ferreira, pai da menina Leide, também foi levado à morte pela depressão, como seu próprio irmão Odesson afirma: “O Ivo faleceu, segundo o atestado de óbito, por enfisema pulmonar, porém, as pessoas não sabem que o Ivo foi levado a fumar seis maços de cigarro por causa da depressão [...]”. (REDE GLOBO, 2007)
Devair e Ivo foram apenas dois casos registrados, dentre vários casos de depressão que ocorreram com as vítimas do césio-137.

O sofrimento vivido pelas vítimas por perderem pessoas queridas e por terem de passar por um processo difícil e cansativo de descontaminação jamais poderá ser medido. Apesar de se salvarem da morte, isto não foi suficiente para fazer com que a vida voltasse à normalidade, pois as vítimas ainda tiveram de enfrentar a dor de verem grande parte do patrimônio e do registro de suas vidas se transformarem em lixo radioativo, sem falar do preconceito que tiveram de enfrentar, vindo de todos os lados. (REDE GLOBO, 2007)
O preconceito foi tão intenso que no enterro da menina Leide e de sua tia, Maria Gabriela, os moradores da cidade protestaram com fúria. Gritos, arremessos de pedras, pedaços de objetos, pedidos inconstantes para que aquelas vítimas não fossem enterradas no Cemitério Parque, foi o que se assistiu nesse episódio. A mãe da menina, Lourdes, só conseguiu se aproximar do caixão de sua filha porque estava acompanhada da mulher do governador do Estado. (REDE GLOBO, 2007)
Pessoas advindas de Goiânia não conseguiram desembarcar em alguns aeroportos do país, foram rejeitadas em inúmeros hotéis e a economia goiana sofreu uma grave crise, já que Goiás não conseguia vender os produtos fabricados no Estado. (REDE GLOBO, 2007) 
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A Cronologia dos Fatos – Descontaminação das Pessoas

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Na mesma madrugada em que os técnicos chegaram à cidade, foi determinado que as vítimas fossem retiradas de suas casas e levadas ao Estádio Olímpico de Goiânia, local onde se fez a primeira triagem, como mostra a Figura 23. (REDE GLOBO, 2007)

De acordo com uma das vítimas, a senhora Lourdes das Neves Ferreira, “lá eles foi passando o aparelho, aí eles foi separando, uma parte que tinha q ir pro hospital; outra que eles achava que não precisava né, que ia ficar lá no estádio”. As vítimas mais graves já haviam sido internadas em hospitais da cidade, mas a equipe decidiu reuni-las no Hospital Geral de Goiânia (HGG). Com a triagem feita baseada na sintomologia, no dia 1º de outubro, seis vítimas foram encaminhadas ao Hospital Naval Marcílio Dias (HNMD), no Rio de Janeiro, que segundo Nelson Valverde, da Divisão de Medicina do Trabalho e Assistencial do Departamento de Saúde de Furnas Centrais Elétricas, era “considerado o hospital de base, de referência da CNEN para emergências desse tipo”. As vítimas eram: Roberto Santos Alves, Wagner Motta, Leide das Neves Ferreira, Ivo Alves Ferreira, Devair Alves Ferreira e Ernesto Fabiano. Passados alguns dias, mais outras vítimas foram transferidas para o HNMD, entre elas, Maria Gabriela Ferreira. (BRANDÃO, 1988; OLIVEIRA, 1988; VALVERDE, 1988; DIRETORIA DE SAÚDE DA MARINHA DO BRASIL,1988; REDE GLOBO, 2007)

A descontaminação das vítimas consistiu em três processos: descontaminação externa, tratamento das radiolesões e descontaminação interna.

Descontaminação externa
O primeiro passo para a descontaminação das vítimas era retirar o pó da pele, das unhas e do cabelo. As unhas foram aparadas, os cabelos cortados e a pele foi sendo descontaminada por processos químicos. A rotina consistia em vários banhos diários, com água morna e sabão neutro. Em alguns pacientes utilizou-se vinagre para aumentar a solubilidade do césio. (BRANDÃO, 1988; OLIVEIRA, 1988; VALVERDE, 1988; REDE GLOBO, 2007)
Também foram usadas pomadas à base de lanolina e dióxido de titânio, que, ao serem removidas, descamavam a pele. Em seguida, os pacientes foram submetidos a banhos com soluções de permanganato de potássio e hipoclorito de sódio, por suas ações antisépticas. A preparação de resinas catiônicas carregadas com azul-da-prússia também foram de importância fundamental para retirar o césio impregnado nessas pessoas. (BRANDÃO, 1988; OLIVEIRA, 1988; VALVERDE, 1988; MEDEIROS, 1988)

Tratamento das radiolesões
A exposição à radiação resultou em diversas conseqüências, entre elas, lesões externas chamadas radiodermites. Geraldo Guilherme da Silva, que carregou a peça no ombro até a sede da Vigilância Sanitária, e Luisa Odete dos Santos, em quem Ivo passou o pó no pescoço, sofreram logo os efeitos causados pela radiação na pele. (ASSOCIAÇÃO DAS VÍTIMAS DO CÉSIO-137)
Geraldo teve, no ombro, uma lesão resultante da radiação à qual se expôs carregando a fonte de césio-137. Luisa Odete teve uma radiodermite no pescoço em conseqüência do contato direto com o pó radioativo. As radiolesões surgem inicialmente como uma vermelhidão, o eritema, rapidamente acompanhada de coceira intensa e sensação de dormência. Em seguida, aparecem bolhas dolorosas, e finalmente, as bolhas se rompem resultando em feridas. O tratamento das radiolesões das vítimas do césio consiste na utilização de água boricada como anti-séptico; soluções e pastas à base de tanino, de óleo de babosa e de substâncias antiinflamatórias e o uso externo de creme de Neomicina, que é uma substância antibiótica. (DIRETORIA DE SAÚDE DA MARINHA DO BRASIL, 1988; OLIVEIRA, 1988)
Em alguns pacientes, houve a necessidade de se fazer um debridamento cirúrgico, um processo utilizado para remover o tecido necrótico. Em outros, a necrose era tão grande que foi necessária a realização de uma amputação cirúrgica, como foi o caso de Roberto Santos Alves, que teve seu antebraço amputado. (DIRETORIA DE SAÚDE DA MARINHA DO BRASIL, 1988)

Descontaminação interna
A descontaminação interna consistiu na decorporação através da sudorese e tratamento com azul-da-prússia. Para acelerar o processo de sudorese utilizou-se sauna e exercícios ergométricos. (OLIVEIRA, 1988)
Em relação ao tratamento com azul-da-prússia, sabia-se que a descontaminação tinha resultado se fosse efetuada nas primeiras 48 horas após a contaminação. Mesmo assim, decidiram usar o elemento, muito embora o tratamento tenha se iniciado duas semanas após a contaminação. A Dra. Rosana Farina, do HGG, que trabalhou no processo de descontaminação, afirma que “[...] foi correto o tratamento com o Azul da Prússia, [...]. Além de não apresentar efeitos colaterais, verificou-se que, quanto maior a dose ministrada, maior a excreção de césio pelas fezes.” (FARINA, 1988; OLIVEIRA, 1988)
O césio, segundo informações dos Arquivos Brasileiros de Medicina Naval do Hospital Naval Marcílio Dias: [...] é absorvido de forma integral ao nível dos intestinos e excretado por via urinária e gastrintestinal [...]. Ocorre, no entanto, a excreção do elemento, no lúmen do trato gastrintestinal, entre o estômago e o intestino delgado. Portanto, neste trecho, age o “Ferrocianeto Férrico” (azul-da-prússia), quelando o rádio césio, com ele formando macromolécula, não absorvível e que é eliminada pelas fezes. Graças à ação quelante do azul-da-prússia, ocorre a inversão da relação excretora urina/fezes, com maior excreção fecal. [...]. (DIRETORIA DE SAÚDE DA MARINHA DO BRASIL, 1988, p. 49)
Para os médicos, a utilização maciça do azul-da-prússia foi essencial para que a eliminação do césio-137 fosse mais rápida. 
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A Cronologia dos Fatos – Descontaminação de Animais e Vegetais

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O césio-137 fez vítimas por onde passou e nem os animais e vegetais
conseguiram escapar das terríveis conseqüências. Como mostra a Figura 21, animais domésticos estiveram nos locais contaminados e se tornaram fonte de contaminação, razão pela qual tiveram de ser sacrificados. (FERRAZ, 1988, p. 29-32; REDE GLOBO, 2007)
         Em 40 dias, todos os vegetais plantados dentro de um raio de 200 metros de distância do ponto crítico, estavam contaminados. A mangueira do quintal de Roberto Santos Alves, na Rua 57, foi a principal atingida. O cloreto de césio absorvido pelas raízes espalhou-se por todas as partes da árvore. Amostras coletadas em 19 de outubro foram analisadas no Centro de Energia Nuclear na Agricultura, da USP, em Piracicaba e os resultados mostraram folhas com contaminação de 3 a 4 x 106 Bq/kg, pedaços de casca e lenho periférico com contaminação em torno de 1 x 106 Bq/kg, frutos maduros com contaminação de 0,8 a 1,5 Bq/kg e frutos verdes com contaminação três vezes menos que os frutos maduros. (FERRAZ, 1988, p. 29-32;)
As árvores frutíferas ao redor do foco principal tiveram de ser podadas, a fim de se evitar que os habitantes consumissem seus frutos contaminados. Já as mangueiras no quintal da casa nº 68, foram completamente arrancadas e se tornaram lixo radioativo. (FERRAZ, 1988, p. 13; FERRAZ, 1988, p. 29-32)
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A Cronologia dos Fatos – Início do processo de descontaminação

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Sobre o tapete colocado à sombra de duas mangueiras, mostradas na Figura 18, foi derramada uma pequena porção de césio-137 com atividade de centenas de curies. (FERRAZ, 1988, p. 29-32)
Comprovado o acidente nuclear, cinco residências da Rua 57 foram
isoladas. O tapete foi retirado e embora não houvesse mais a circulação de pessoas, os animais permaneciam no local, o solo continuava desprotegido e o vento espalhava o pó radioativo, sendo que as folhas das mangueiras  também já estavam contaminadas. Já se sabia que, atraídos pelo brilho azul, pessoas manipularam, ingeriram e espalharam o césio entre amigos e parentes. Com isso, diversas crianças, adultos, animais e locais já estavam contaminados. (ASSOCIAÇÃO DAS VÍTIMAS DO CÉSIO-137, 1993; FERRAZ, 1988, p. 29-32)
Os principais focos de contaminação foram a casa de Roberto Santos Alves, na Rua 57; a casa de Ovídio, na Rua 63; o ferro velho de Devair Alves Ferreira, na Rua 26-A; o ferro velho de Ivo Alves Ferreira, na Rua 6; o ferro velho do Joaquim, na Rua P-19; a casa da fossa de Ernesto Fabiano, na Rua 17-A e a Vigilância Sanitária, na Rua 16-A. O processo de descontaminação foi difícil, pois além de oferecer riscos às pessoas envolvidas, o cloreto de césio já havia se espalhado por diversos locais. De acordo com João Alfredo Medeiros, do Laboratório de Análise Mineral do IRD, “procurar cloreto de césio em Goiânia era a mesma coisa que procurar um punhado de sal perdido em algum quintal da cidade”. (MEDEIROS,
1988; SOCIEDADE BRASILEIRA DE FÍSICA, 1988)
Os técnicos entravam rapidamente nos locais a serem descontaminados e utilizavam sistemas dosimétricos. Por se tratar de uma emergência, foi estabelecido um limite diário de exposição de 150 mrems, dose considerada alta. A Figura 19 mostra como os técnicos se protegeram no processo de descontaminação. (SOCIEDADE BRASILEIRA DE FÍSICA, 1988)

Apesar da dose de limite diário ter sido alta, segundo Rex Nazaré, em resposta a um questionário feito pela Sociedade Brasileira de Física, somente 3% das pessoas envolvidas no processo de descontaminação atingiu o limite diário e não houve constatação de casos de contaminação externa ou interna dessas pessoas. (SOCIEDADE BRASILEIRA DE FÍSICA, 1988).


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A Cronologia dos Fatos – Descontaminação dos locais

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O perigo invisível estava disseminado em vários lugares. Foi preciso
paciência para que o trabalho de descontaminação acontecesse. O processo iniciou-se na Rua 57 e a partir daí residências foram isoladas, descontaminadas e algumas delas tiveram de ser demolidas, como mostra a Figura 20. (FERRAZ, 1988, p. 13; FERRAZ, 1988, p. 29-32)
O uso de escovas manuais, elétricas e lixadeiras foi inevitável para o
processo de descontaminação de casas e hospitais. Além da ação mecânica, utilizou-se também ácido fluorídrico para remover o césio dos azulejos, bem como misturas de ácidos com alúmen e azul-da-prússia para soltá-lo do cimento e do concreto e soda cáustica com detergente ou soluções não aquosas de ácido clorídrico para retirá-lo dos locais em que se acumulavam gordura. (MEDEIROS ,1988)
Os principais focos de contaminação foram demolidos. Restos de construções, objetos pessoais, vestígios da vida de dezenas de pessoas, viraram rejeitos radioativos. Sobre o chão desses locais foi derramado concreto, para atenuar o que ainda restava de radiação. Hoje os principais focos de contaminação estão concretados e desocupados. Na época do acidente, os imóveis sofreram enorme desvalorização, caindo muito os preços de mercado, uma vez que ninguém queria morar perto de um foco de radiação. Embora hoje esse temor seja menor, os preços ainda não estão completamente normalizados. (SULEIDE, Entrevista com os funcionários da SULEIDE, 2008)
É inegável que a tragédia deixou fragmentos de césio-137 em contato com o solo em diversos locais. Segundo Alfredo Tranjan, diretor da CNEN, “[...] o grande problema do acidente de Goiânia é que o material que continha césio e que foi rompido e exposto, em presença de água ele se dissolvia e isso facilitou o espalhamento tremendamente.”. Contudo, apesar do cloreto de césio sofrer dissolução e se infiltrar no solo, o processo de disseminação do césio-137 é muito lento, pois, assim como o potássio, ele é altamente adsorvido às partículas de argila, sendo, portanto, demorado o processo de seu deslocamento mesmo no sentido vertical. (FERRAZ, 1988, p. 29-32; REDE GLOBO, 2007)
Em Goiânia, as camadas superficiais apresentavam em torno de 100 a 150 roentgens por hora de taxa de exposição. Com exceção do foco principal, nos outros locais de alta contaminação, o césio não passou de 80 a 90 cm de profundidade. Devido a essa propriedade do césio, a possibilidade de contaminação do lençol freático foi a de menor relevância. Para descontaminar o solo foram aplicadas soluções ácidas de alúmen e soluções de azul-da-prússia. Até que no dia 7 de dezembro, o solo altamente contaminado começou a ser escavado. (FERRAZ, 1988, p. 29-32; MEDEIROS ,1988)


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A Cronologia dos Fatos – Procedimentos após o Desastre

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Walter Mendes informou o ocorrido à Secretaria de Saúde do Estado de Goiás, e então o titular da pasta, Antônio Faleiros Filho, entrou em contato com o diretor do Departamento de Instalações Nucleares (DIN) da CNEN, José Júlio Rozental, passando-lhe as primeiras informações sobre o acidente radioativo em Goiânia. Ato contínuo, na madrugada do dia 30 de setembro, chegaram à Goiânia o diretor do DIN, Rozental, mais outros dois
técnicos da CNEN e três médicos, sendo um da Nuclebrás, um de Furnas Centrais Elétricas e o terceiro do Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD). Os especialistas iniciaram, finalmente, um plano de emergência e, ao amanhecer, todos os principais focos já estavam isolados. (ASSOCIAÇÃO DAS VÍTIMAS DO CÉSIO-137, 1993; OKUNO, 1998; WOJTOWICZ, 1990)
Foram organizadas cinco equipes na fase inicial e mais 17 na fase complementar, envolvidas num processo de descontaminação e limpeza. Não existem dúvidas sobre os esforços, durante, meses, dos técnicos da CNEN, de Furnas Centrais Elétricas, da Nuclebrás, do Centro de Desenvolvimento e Tecnologia Nuclear de MG (CDTN), da Nuclebrás Enriquecimento Isotópico (Nuclei), da Escola de Instrução Especializada do Exército, do Ministério da Marinha, dos profissionais da área biomédica e das mais de 300 pessoas oriundas de diversos locais. (WOJTOWICZ, 1990)
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A Cronologia dos Fatos – O Desastre

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Ao saírem da Vigilância Sanitária, Maria Gabriela e Geraldo decidiram fazer uma consulta no Hospital São Lucas e no Centro de Saúde Juarez Barbosa, ambos localizados na Rua 04. Um novo diagnóstico foi anunciado, desta vez, os médicos afirmavam tratar-se de uma doença tropical, encaminhando-os para o HDT. Foi quando, nesse mesmo dia, os médicos Roberto e Paulo, daquela unidade hospitalar, desconfiaram da opinião de seus colegas e formularam, pela primeira vez, a idéia de as lesões serem decorrentes de uma contaminação radioativa. No mesmo momento, Paulo Monteiro, da Vigilância Sanitária de Goiânia, entrou em contato com Alonso Monteiro, Superintendente do Centro de Informações
Toxicológicas do HDT, informando-o do misterioso embrulho deixado por duas pessoas na sede do órgão. Da mesma forma que os médicos, Paulo falou sobre a sua desconfiança de que o artefato poderia ser componente de algum aparelho de Raios X. (ASSOCIAÇÃO DAS VÍTIMAS DO CÉSIO-137, 1993)
Graças às novas informações, os facultativos solicitaram novos exames em Maria Gabriela e Geraldo, chegando a conclusão de que poderiam estar diante de um grave problema de saúde pública. Solicitaram a presença do biomédico Jadson Pereira, 30 anos, na intenção de fecharem um diagnóstico preciso. Este, por seu turno, também desconfiado de que o material em questão poderia ser radioativo, propôs que a peça fosse examinada por algum especialista da área. Coincidentemente, o físico Walter Mendes Ferreira, 29 anos, detentor de conhecimentos sobre radioatividade, estava de férias em Goiânia e foi convidado a observar o caso. No dia 29, por volta das oito horas, Walter encaminhou-se até a sede da Nuclebrás, na capital goiana, onde conseguiu o empréstimo de um medidor de radioatividade, normalmente usado para medições geológicas. De posse do equipamento, dirigiu-se até a Vigilância Sanitária, ligando o aparelho ao se aproximar do prédio do órgão público, ocasião em que Walter Mendes assustou-se com a leitura, pois o aparelho indicava alto grau de contaminação, independente da direção em que ele apontava. Incrédulo, chegou a supor que o contador apresentava algum defeito, retornando à sede da Nuclebrás para efetuar a troca do aparelho. (ASSOCIAÇÃO DAS VÍTIMAS DO CÉSIO-137, 1993)
Nesse ínterim, o funcionário Paulo Monteiro, preocupado com aquela peça, acionou o Corpo de Bombeiros para que eles tomassem alguma providência para solucionar o problema. Por volta das 10h, Walter Mendes, já de posse de um outro aparelho, retornou à Vigilância Sanitária e, novamente, ao se aproximar do local, ligou o contador e viu que a leitura era a mesma do anterior, fato que acabou por convencer o físico de que ali existia um grande foco de contaminação radioativa. Enquanto isso, Paulo Monteiro e os bombeiros haviam decidido um destino para a peça: jogá-la no Rio Meia-ponte, fato que felizmente não se concretizou, pois Mendes os convenceu de que o problema era grave e que não poderia ser resolvido dessa maneira, inclusive alertando-os de que não era seguro que ninguém
permanecesse no local. Assim foi que, com o auxílio da Polícia Militar e Corpo de Bombeiros, o local foi completamente isolado. (ASSOCIAÇÃO DAS VÍTIMAS DO CÉSIO- 137, 1993)
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A Cronologia dos Fatos – O Desastre

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Ao saírem da Vigilância Sanitária, Maria Gabriela e Geraldo decidiram fazer uma consulta no Hospital São Lucas e no Centro de Saúde Juarez Barbosa, ambos localizados na Rua 04. Um novo diagnóstico foi anunciado, desta vez, os médicos afirmavam tratar-se de uma doença tropical, encaminhando-os para o HDT. Foi quando, nesse mesmo dia, os médicos Roberto e Paulo, daquela unidade hospitalar, desconfiaram da opinião de seus colegas e formularam, pela primeira vez, a idéia de as lesões serem decorrentes de uma contaminação radioativa. No mesmo momento, Paulo Monteiro, da Vigilância Sanitária de Goiânia, entrou em contato com Alonso Monteiro, Superintendente do Centro de Informações

Toxicológicas do HDT, informando-o do misterioso embrulho deixado por duas pessoas na sede do órgão. Da mesma forma que os médicos, Paulo falou sobre a sua desconfiança de que o artefato poderia ser componente de algum aparelho de Raios X. (ASSOCIAÇÃO DAS VÍTIMAS DO CÉSIO-137, 1993)

Graças às novas informações, os facultativos solicitaram novos exames em Maria Gabriela e Geraldo, chegando a conclusão de que poderiam estar diante de um grave problema de saúde pública. Solicitaram a presença do biomédico Jadson Pereira, 30 anos, na intenção de fecharem um diagnóstico preciso. Este, por seu turno, também desconfiado de que o material em questão poderia ser radioativo, propôs que a peça fosse examinada por algum especialista da área. Coincidentemente, o físico Walter Mendes Ferreira, 29 anos, detentor de conhecimentos sobre radioatividade, estava de férias em Goiânia e foi convidado a observar o caso. No dia 29, por volta das oito horas, Walter encaminhou-se até a sede da Nuclebrás, na capital goiana, onde conseguiu o empréstimo de um medidor de radioatividade, normalmente usado para medições geológicas. De posse do equipamento, dirigiu-se até a Vigilância Sanitária, ligando o aparelho ao se aproximar do prédio do órgão público, ocasião em que Walter Mendes assustou-se com a leitura, pois o aparelho indicava alto grau de contaminação, independente da direção em que ele apontava. Incrédulo, chegou a supor que o contador apresentava algum defeito, retornando à sede da Nuclebrás para efetuar a troca do aparelho. (ASSOCIAÇÃO DAS VÍTIMAS DO CÉSIO-137, 1993)

Nesse ínterim, o funcionário Paulo Monteiro, preocupado com aquela peça, acionou o Corpo de Bombeiros para que eles tomassem alguma providência para solucionar o problema. Por volta das 10h, Walter Mendes, já de posse de um outro aparelho, retornou à Vigilância Sanitária e, novamente, ao se aproximar do local, ligou o contador e viu que a leitura era a mesma do anterior, fato que acabou por convencer o físico de que ali existia um grande foco de contaminação radioativa. Enquanto isso, Paulo Monteiro e os bombeiros haviam decidido um destino para a peça: jogá-la no Rio Meia-ponte, fato que felizmente não se concretizou, pois Mendes os convenceu de que o problema era grave e que não poderia ser resolvido dessa maneira, inclusive alertando-os de que não era seguro que ninguém

permanecesse no local. Assim foi que, com o auxílio da Polícia Militar e Corpo de Bombeiros, o local foi completamente isolado. (ASSOCIAÇÃO DAS VÍTIMAS DO CÉSIO- 137, 1993)
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A Cronologia dos Fatos – Os Caminhos do Desastre

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Curiosamente, nessa época, Rex Nazareth Alves, presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear – CNEN, órgão brasileiro responsável por legislar e normatizar o uso da radiação no território brasileiro, dava uma entrevista onde comemorava o nosso maior feito nuclear: a inclusão do Brasil no seleto grupo de países que possuía a capacidade tecnológica do enriquecimento do urânio. Além disso, afirmava que iria defender a posição brasileira de autonomia nacional para o desenvolvimento da tecnologia nuclear, na reunião anual de Energia Atômica da ONU, em 20 de setembro de 1987, em Viena, capital da Áustria. (VASCONCELLOS,1987)

Enquanto isso, o sucateiro Devair Alves Ferreira, de 39 anos, que residia no ferro velho de sua propriedade, localizado na Rua 26-A, setor Aeroporto, tomava uma atitude que seria decisiva na consumação do incidente nuclear. Ele declarou que comprou a peça por causa do chumbo, por isso a cápsula contendo o material radioativo foi desprezada e abandonada no deposito, já que era feita de inox, metal sem aproveitamento no ferro velho. Mais tarde, Devair daria o seguinte depoimento sobre o descarte da peça que continha o pó: (WOJTOWICZ, 1990)

A cápsula eu não comprei porque ela era revestida de inox, e inox não tem valor pra nós. Eu comprei o chumbo [...]. E essa peça, essa cápsula ficou desprezada no depósito. Ficou lá jogada. Como eu toda vida adorei uma cerveja, adoro, era mais ou menos umas sete e meia, oito horas, e eu fui pro boteco tomar uma cerveja. Cheguei em casa era mais ou menos dez e meia, 11 horas. Ai eu vi aquele clarão. Um clarão azul. [...].(WOJTOWICZ, 1990, p. 73)

Certa noite, quando Devair passava pelo pátio pouco iluminado do ferro velho, percebeu uma luminosidade azul muito intensa vinda do meio da escuridão do local. Começou a procurar, tentando descobrir de onde vinha aquela luz azulada, quando se deparou com a cápsula, ficando, ao mesmo tempo, entre intrigado e atraído pela beleza proveniente da luminosidade emitida pelo objeto, achando estar diante de algo fantástico, talvez sobrenatural. Devair confessou ter ficado apaixonado pelo estranho brilho, afirmando que “coisa linda, fiquei apaixonado por aquela peça. [...] eu adorava. Achava lindo.[...]”, e acabou transportando a cápsula para dentro de sua residência, colocando-a junto a uma parede da sala de sua casa para que pudesse observar melhor aquele fenômeno. (ASSOCIAÇÃO DAS VÍTIMAS DO CÉSIO-137, 1993; WOJTOWICZ, 1990)

Chamou então a sua mulher Maria Gabriela Ferreira, 30 anos, para ver a beleza da luz azulada emitida pela cápsula, mas ao contrário do marido, ela ficou receosa. Desde o princípio, Maria Gabriela temeu aquela peça e com o passar do tempo esse temor só aumentou, pois desde o dia 19 ambos apresentavam cefaléias e vômito. Segundo o sucateiro, desde o princípio, a sua “mulher cismou com aquele troço. Ela vivia dizendo que era aquele trem que estava fazendo mal [...]”. Mesmo assim, durante os três dias subseqüentes alguns amigos, vizinhos e parentes foram convidados a ver o curioso objeto, dentre eles o vizinho do ferro velho, Edson Fabiano, um pintor de automóveis, com 42 anos de idade, que foi conhecer a peça no dia 21. Devair lhe mostrou uma pequena porção do pó branco que ele havia extraído do interior da cápsula com auxílio de uma chave de fenda. O brilho azulado também despertou a curiosidade de Edson que acabou levando um pouco do pó no bolso de sua calça para sua residência, situada na rua 15-A, setor Aeroporto. (ASSOCIAÇÃO DAS VÍTIMAS DO CÉSIO-137, 1993; WOJTOWICZ, 1990)

Mais tarde, Edson mostrou ao seu irmão Ernesto Fabiano, residente na rua 17-A, setor Aeroporto, que também guardou uma porção do pó no bolso da sua calça. Nesse mesmo dia, Maria Gabriela apresentou acentuada piora no seu estado de saúde, tendo de ser atendida no Hospital São Lucas. Fatidicamente, teve o mesmo diagnóstico de Wagner, ou seja, reação alérgica à ingestão de alimentos deteriorados, sendo prescrito apenas o repouso domiciliar. Sua mãe, Maria Gabriela de Abreu, 58 anos, ao saber o estado de saúde de sua filha, saiu da cidade de Inhumas, interior de Goiás, para visitá-la e oferecer seus cuidados. A senhora Maria Abreu permaneceu por três dias na casa da filha, retornando depois para sua cidade, mesmo com um sensível agravamento do estado de saúde de Maria Gabriela. (ASSOCIAÇÃO DAS VÍTIMAS DO CÉSIO-137, 1993)

Enquanto isso, no ferro velho, os dois funcionários do estabelecimento, Israel Batista dos Santos, 19 anos, e Admilson Alves Souza, 21 anos, continuaram a manipular a cápsula na tentativa de retirar o chumbo remanescente da peça. No dia 23, Wagner piorou e foi internado no Hospital Santa Maria, lá permanecendo até o dia 27, quando as radiolesões foram diagnosticadas como uma doença de pele, o que motivou seu encaminhamento para o Hospital de Doenças Tropicais – HDT. (ASSOCIAÇÃO DAS VÍTIMAS DO CÉSIO-137, 1993)

No dia 24, o irmão de Devair, Ivo Alves Ferreira, 41 anos, proprietário de um outro ferro velho, este localizado na rua 06-A, soube da enfermidade do familiar e foi visitá-lo. Devair disse que suspeitava estar com a saúde debilitada devido à ingestão de um refrigerante, Coca-cola, de qualidade duvidosa. Quando Ivo finalizava a visita, foi convidado a conhecer aquilo que chamava de “pedra mágica do brilho azul”. Tal qual os demais, ao ver o pó resolveu levar um pouco para casa “[...], e eu fui ver de perto. Pus um pouco em cima de um papel, embrulhei e pus no bolso. Até que eu não sabia nem pra que peguei. Eu vi aquilo – né – pus no bolso”. Ivo acabou levando os fragmentos do pó radioativo pra sua residência e mostrou para sua filha Leide das Neves Ferreira, 6 anos. (ASSOCIAÇÃO DAS VÍTIMAS DO CÉSIO-137, 1993; WOJTOWICZ, 1990)

De acordo com o relato do pai, foi naquele instante que a menina entrou em contato com a substância. Ele disse “[...] Ai joguei lá no chão, no escuro, lá no quarto da menina. Ai ela veio e passou a mãozinha”. Quase que simultaneamente, Kardec Sebastião dos Santos, empregado de Ivo, e sua mulher, Luisa Odete dos Santos, moradores no mesmo lote, estavam passando pelo local e também foram convidados por Leide para ver o estranho pó de luminosidade azulada. Atraídos pela luminescência da amostra, tanto os adultos, quanto as crianças que estavam no local, manusearam o elemento. Por brincadeira, Ivo passou no pescoço de Luisa Odete uma pequena porção, enquanto a pequena Leide continuou brincando com o pó radioativo até a hora de se alimentar. Para comprometer ainda mais sua saúde, a menina esqueceu-se de lavar as mãos e acabou ingerindo junto com um ovo cozido, uma pequena quantidade do material radioativo. Pouco tempo depois, Leide começou a ter vômitos e seu pai saiu à procura de uma farmácia aberta, mas não obteve êxito. Ele mesmo tentou medicar a filha, dando a ela um antiácido, o conhecido Sonrisal, que havia comprado num bar. Segundo Ivo, após ingerir o medicamento a filha apresentou melhoras. Ele contou que deu “[...] o Sonrisal para ela. [...] ai ela durmiu. Levantou no outro dia boa, brincou o tempo todo. Pensei: não é nada não”. (WOJTOWICZ, 1990)

No dia seguinte, Devair vendeu o chumbo que revestia a peça para o ferro velho do “Seu Joaquim”, mas não percebeu que Maria Gabriela colocou junto a peça de aço inox, a que continha no seu interior o pó radioativo, junto com as demais, que foram transportadas para o depósito de sucatas. Enquanto isso, Ivo, ao ver Luisa Odete com o pescoço irritado bem no local onde ele havia passado o pó na data anterior, começou a desconfiar que a causa dos problemas estaria justamente naquela estranha substância. Tal qual o sucateiro, Maria Gabriela estava cada vez mais certa de que aquelas enfermidades estavam, de alguma forma, ligadas àquela peça. Por isso, no dia 28, juntamente com Geraldo Guilherme da Silva, 31 anos, dirigiu-se ao ferro velho do “Seu Joaquim”, para recuperar o artefato. Eles envolveram a peça num saco plástico e levaram-na, num ônibus coletivo, até a Vigilância Sanitária, situada na Rua 16-A, setor Aeroporto. (ASSOCIAÇÃO DAS VÍTIMAS DO CÉSIO-137, 1993)

Ao descer do ônibus, Geraldo carregou a peça no ombro até o prédio

público, onde depositou o embrulho em cima da escrivaninha do veterinário Paulo Monteiro, 39 anos. Imediatamente, fizeram um dramático relato dos acontecimentos misteriosos que estavam acontecendo nas vidas de todas as pessoas que tiveram algum tipo de contato com aquela peça. Maria Gabriela chegou a dizer que aquele pó estava “matando a gente dela”. Diante do desespero da mulher, os funcionários da Vigilância Sanitária decidiram analisar a peça, e por precaução, decidiram transferi-la para o pátio do prédio. Desse modo, a peça ficou o dia todo sobre uma cadeira, perto do muro, conforme mostra a Figura 17. (ASSOCIAÇÃO DAS VÍTIMAS DO CÉSIO-137, 1993; WOJTOWICZ, 1990)
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